
O Vazio Que Ele Deixou
Capítulo 3
Passei as horas seguintes num torpor silencioso. As enfermeiras entravam e saíam, verificavam os meus sinais vitais, trocavam o soro.
Eu respondia com monossílabos.
"Sim."
"Não."
"Obrigada."
Por volta do meio-dia, a porta do quarto abriu-se de rompante.
Era o Leo. Tinha o cabelo despenteado e uma expressão de preocupação forçada no rosto.
"Ana! Meu Deus, o que aconteceu? A tua vizinha ligou-me agora! Diz que passaste a noite no hospital. O meu telemóvel ficou sem bateria, só o vi agora."
Ele aproximou-se da cama, tentando pegar na minha mão.
Eu afastei-a.
O meu silêncio pareceu desconcertá-lo. Ele olhou à volta do quarto, para o monitor, para o saco de soro.
"Então? O que disse o médico? Estás bem? E o bebé?"
A sua voz era leve, quase casual, como se estivesse a perguntar pelo tempo.
Olhei diretamente para ele, pela primeira vez. Vi os seus olhos, não a preocupação que ele tentava fingir, mas a impaciência por baixo.
"O bebé morreu, Leo."
A minha voz saiu fria e sem emoção, como se estivesse a ler uma lista de compras.
A cara dele mudou. O choque pareceu genuíno por um segundo, mas foi rapidamente substituído por outra coisa. Fúria.
"O quê? Como assim, morreu? O que é que tu fizeste?"
Eu ri. Um som seco e feio que arranhou a minha própria garganta.
"Eu? O que é que eu fiz?"
"Sim, tu! Foste descuidada? Comeste alguma coisa que não devias? Eu disse-te para teres cuidado!"
Ele estava a andar de um lado para o outro no pequeno quarto, a gesticular, a sua voz a subir de tom.
"Tu encomendaste a comida, Leo."
Ele parou. Olhou para mim, confuso.
"O quê?"
"Tu encomendaste o jantar. Do restaurante. Disseste que era o prato do costume."
"Sim, e então? Eu fiz-te um favor! Estava ocupado numa reunião importante!"
"A festa de aniversário da Sofia era uma reunião importante?"
O sangue fugiu do rosto dele. Ele ficou pálido, a boca a abrir e a fechar sem emitir som.
"Eu vi as fotos, Leo. Tu e ela. A sorrir. Enquanto eu estava aqui, a sufocar no chão do nosso apartamento."
"Não é o que parece," ele gaguejou. "A Sofia estava a sentir-se em baixo, os pais pediram-me para a animar. Foi só um jantar rápido."
"Dezoito chamadas, Leo. Eu liguei-te dezoito vezes. O meu telemóvel regista a duração de cada tentativa. Nenhuma foi atendida. Nenhuma foi retornada. Não estava sem bateria. Estava no silêncio, para não te incomodar enquanto cantavas os parabéns."
Ele ficou sem palavras. A culpa estava estampada na sua cara.
"Eu... eu não sabia que era tão grave."
"Tu sabias da minha alergia. Sabias o que o marisco me faz."
"Foi um erro! O restaurante deve ter trocado os pedidos! Não foi culpa minha!"
Ele estava a gritar agora, a sua defesa a transformar-se em ataque.
"Divórcio," eu disse, com a mesma calma gelada de antes.
Ele olhou para mim como se eu tivesse enlouquecido.
"Divórcio? Estás a brincar? Por causa de um acidente? Vais deitar fora o nosso casamento por causa disto?"
"Não foi um acidente. Foi uma escolha. Tu escolheste a Sofia em vez de mim e do teu filho. E agora o teu filho está morto. Portanto, sim. Divórcio."
Virei o rosto para a janela, a conversa terminada.
Ele ficou ali parado por um longo momento, a respirar pesadamente. Depois, saiu do quarto, batendo a porta com força.
Sozinha outra vez, finalmente permiti que uma única lágrima escorresse pelo meu rosto.
Não de tristeza. De raiva.
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