
O Vazio no Ventre: Quando o Amor Se Desfaz
Capítulo 2
Quando abri os olhos, o cheiro de desinfetante encheu as minhas narinas, a luz branca do teto do hospital feria a minha vista.
O meu corpo estava pesado, cada músculo doía.
Ao meu lado, o meu marido, Leo, segurava o telemóvel, a sua voz era baixa mas cheia de uma ansiedade que não era para mim.
"Como está o Tiago? Ele já acordou? O médico disse alguma coisa?"
Silêncio. Depois, a sua voz tornou-se ainda mais tensa.
"Não te preocupes, Sofia, eu estou a caminho. Fica com ele, eu chego já."
Sofia. A minha irmã mais nova. Tiago. O filho dela.
Eu tinha acabado de sofrer um acidente de carro. O carro capotou três vezes. E a primeira preocupação do meu marido era o seu sobrinho, que tinha apenas febre.
Tentei falar, mas a minha garganta estava seca, um som áspero saiu.
Leo finalmente notou que eu estava acordada, ele desligou a chamada apressadamente.
"Clara, acordaste. Como te sentes?"
Ele aproximou-se, mas a sua preocupação parecia forçada, os seus olhos continuavam a olhar para a porta, ansiosos por sair.
"Onde... onde está o nosso filho?" perguntei, a minha voz a falhar.
Eu estava grávida de cinco meses. O meu filho, o nosso pequeno Lucas.
O rosto de Leo contraiu-se, ele desviou o olhar.
"Clara, os médicos... eles fizeram o melhor que podiam."
O meu mundo desabou, o teto branco começou a girar.
"O bebé...?"
"Perdemos o bebé," disse ele, a sua voz sem emoção, como se estivesse a ler uma notícia. "O impacto foi demasiado forte."
Lágrimas quentes escorreram pelo meu rosto, mas eu não conseguia fazer um som. O meu corpo estava paralisado pela dor, uma dor que não era física.
Leo colocou a mão no meu ombro, um toque leve, quase hesitante.
"Clara, eu preciso de ir. O Tiago está com febre alta, a Sofia está sozinha no hospital com ele. Ela precisa de mim."
Ele ia deixar-me. Ali, naquele momento.
"O teu sobrinho tem febre," a minha voz era um sussurro gelado. "Eu perdi o nosso filho."
A raiva finalmente deu-me forças, olhei diretamente para ele.
"E tu vais-me deixar aqui para ires ter com ela?"
A impaciência tomou conta do rosto de Leo, a sua máscara de preocupação caiu.
"Clara, não sejas irracional! A Sofia não sabe lidar com estas coisas, ela entra em pânico! O Tiago é só uma criança. Tu estás estável, os médicos estão a cuidar de ti."
"Estável?" repeti, a palavra soava como um insulto. "Eu acabei de perder o nosso filho, Leo. O nosso filho!"
"Eu sei que é difícil," disse ele, o seu tom a tornar-se duro. "Mas não podemos fazer nada agora! A vida continua. O Tiago está doente agora, ele precisa de mim!"
Ele não olhou para mim uma segunda vez.
Simplesmente virou-se e saiu do quarto.
Ouvi os seus passos a afastarem-se apressadamente pelo corredor.
Fiquei sozinha no quarto silencioso, com o cheiro de desinfetante e a dor oca no meu ventre.
O nosso filho tinha desaparecido. E o meu marido tinha ido consolar a sua cunhada por causa de uma febre.
Naquele momento, eu soube. O nosso casamento tinha acabado.
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