
O Vazio no Ventre: Quando o Amor Se Desfaz
Capítulo 3
Dois dias depois, recebi alta.
Ninguém da família do Leo veio buscar-me.
Ele nem sequer ligou.
Foi a minha amiga, a Ana, que me levou para casa.
A casa estava silenciosa e vazia, parecia fria. O quarto de bebé que tínhamos começado a decorar estava com a porta fechada, uma visão que eu não conseguia suportar.
"Tens a certeza que queres ficar aqui sozinha?" perguntou a Ana, a sua voz cheia de preocupação.
"Tenho," respondi, forçando um sorriso. "Preciso de um tempo para pensar."
A Ana abraçou-me com força antes de sair.
Assim que a porta se fechou, sentei-me no sofá. O silêncio era ensurdecedor.
Peguei no meu telemóvel. Nenhuma chamada perdida do Leo. Nenhuma mensagem.
Abri as redes sociais. A primeira coisa que vi foi uma publicação da Sofia.
Uma foto dela e do Leo no quarto do hospital, sorrindo para a câmara. O pequeno Tiago estava a dormir pacificamente na cama.
A legenda dizia: "Obrigada, cunhado, por estares sempre aqui para nós. O melhor tio do mundo! O nosso herói!"
O meu herói.
O meu estômago revirou.
Ele era o meu marido. Eu estava num hospital, a recuperar de um acidente que me tirou o nosso filho. E ele estava a tirar selfies com a minha irmã.
Senti um impulso. Liguei-lhe.
Ele atendeu ao terceiro toque, a sua voz soava irritada.
"O que foi, Clara?"
"Vi a tua foto," disse eu, a minha voz surpreendentemente calma. "Pareces feliz."
Houve uma pausa.
"Clara, não comeces. O Tiago já está melhor, eu estava apenas a tentar animar a Sofia."
"Animar a Sofia."
"Sim. Ela estava muito assustada. És a irmã mais velha, devias entender."
"Eu entendo," disse eu. "Eu entendo que o nosso filho morreu e tu não te importas."
"Isso não é verdade!" ele elevou a voz. "Claro que me importo! Mas o que queres que eu faça? Chore o dia todo? Isso não o vai trazer de volta!"
A sua crueldade era como um soco no estômago.
"Eu quero o divórcio, Leo."
O silêncio do outro lado da linha foi longo.
"Divórcio? Estás a falar a sério? Por causa disto? Estás a ser egoísta, Clara. Estás a pensar apenas na tua dor."
"E tu?" contra-ataquei. "Em quem estás a pensar? Na tua dor? Ou em como podes ser o herói da minha irmã?"
"Tu não entendes nada," disse ele com desdém. "A Sofia precisa de apoio. A família é o mais importante."
"Eu era a tua família," sussurrei. "O nosso bebé era a tua família."
"Pára com o drama, Clara. Estás a exagerar. Falamos quando estiveres mais calma."
Ele desligou.
Simplesmente assim.
Olhei para o telemóvel na minha mão. Ele tinha razão numa coisa.
Eu precisava de me acalmar.
E precisava de um advogado.
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