
O Uivo da Lua Escondida
Capítulo 2
O vento nas Terras Vazias tinha gosto de aço e cheiro de condenação. Era um território onde o solo cuspia poeira maldita e as pedras sussurravam nomes que nem os mortos ousavam carregar. Ali, todo passo era um pacto.
Selene e Elías cruzaram a fronteira com os olhos cobertos por véus de pele de lobo, um feitiço ancestral que os tornava invisíveis aos olhos do Vazio, mas não aos olhos do exilado.
- Sente isso? - Elías murmurou. - Algo abaixo da terra se mexe. Como se o solo respirasse ódio.
- É ele. - Selene respondeu, apertando o cristal do Uivo preso ao colar em seu pescoço. - O primeiro Caçador. Aquele que tentou matar o Uivo antes que ele fosse semente.
À frente, erguiam-se os Pilares de Ossos - treze colunas de vértebras empilhadas, rodeadas por brasas eternas. Era ali que o Caçador fora selado, há mil luas, por aqueles que também temiam o que ele sabia.
Mas algo estava errado.
- As brasas... estão apagadas. - Elías apontou, em alerta.
- O selo quebrou. Ele já saiu. - Selene respondeu, a voz carregada de decepção e fúria.
O som veio de trás. Um rosnado baixo, grave, como se o tempo tivesse dentes. Um homem emergiu das sombras entre as colunas: alto, pele marcada por cicatrizes como mapas de guerra, olhos tão prateados que ofuscavam.
- Vocês demoraram. Eu cansei de esperar.
Era Ravhan, o Caçador Exilado. Mas ele não era mais um lobo.
- O que você se tornou? - Selene sussurrou.
- Eu? Eu morri. E renasci como punição. Agora sou carne que sangra silêncio.
Ele se moveu rápido. Antes que Selene pudesse reagir, ele a agarrou pela garganta e a ergueu.
- Você carrega o cristal do Uivo. E é filha da traição. Tem a audácia de invadir o meu exílio com promessas de redenção?
Elías tentou atacá-lo, mas foi jogado contra um dos pilares com a facilidade de um sopro.
- Você não entende, garota. Este mundo não precisa de herdeiros. Precisa de um fim digno. E eu serei a lâmina.
Selene ofegava, mas não recuou.
- Se quisesse destruir o mundo, já teria feito. Está aqui porque teme o que está vindo. Porque sabe que o Filho do Fim quer o mesmo que você - mas sem honra.
Ravhan a soltou.
- Ele não tem honra. Mas tem sede. E a sede... é contagiante.
Silêncio. O Caçador caminhou até uma runa entalhada no chão, desenhou um círculo de sangue e se ajoelhou diante de Selene.
- Me prove que pode uivar sem ecoar os erros da sua mãe. Me prove que seu lobo não é só carne. E eu lhe darei o que você veio buscar.
Selene hesitou.
- E o que é isso?
Ravhan ergueu um fragmento negro: uma presa. Enorme. Antiga. Ainda pingando sombras.
- A presa do primeiro Uivo. Arrancada antes que ele se tornasse deus. Quem a usar... será ouvido pelos dois lados. Pelo sangue... e pela lua.
Selene estendeu a mão. A presa queimou ao tocar sua pele, mas ela não recuou.
- Me ensine. - disse. - Ou me destrua agora.
Ravhan sorriu.
- Já fui muitas coisas, menina. Agora serei seu mestre. Mas saiba: cada lição tem um preço. E o primeiro é o silêncio. Você não falará por sete dias. Só ouvirá. Pois todo alfa aprende primeiro a escutar o uivo da matilha... antes de gritar o próprio.
Ela assentiu.
E assim começou o Treinamento da Lua Rachada.
Enquanto isso, ao norte, nas florestas envenenadas, o Filho do Fim caminhava entre corpos despedaçados. Em sua mão, uma flor negra florescia.
- Selene encontrou a presa. - ele disse para ninguém. - Perfeito. Agora falta a mandíbula.
Atrás dele, quatro lobos albinos o seguiam. Seus olhos vazios. Suas almas, extintas.
- Mandíbula, garganta e coração. Quando ela tiver tudo... eu a abrirei.
Ele olhou para o céu.
- E de dentro dela, nascerá o fim que o mundo suplicou em silêncio.
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