
O Tio da Minha Melhor Amiga
Capítulo 2
Catarina Spinola
Hoje é o dia.
O dia que eu imaginei nos meus sonhos mais doces. O dia que me perseguiu nos meus pesadelos mais cruéis.
O dia em que finalmente concluo o ensino médio. Um passo enorme, um marco. E ainda assim, tão pequeno diante do buraco que existe dentro de mim.
Eu queria estar feliz. Eu queria me sentir vitoriosa, radiante, como as outras garotas da minha idade que passam horas escolhendo o vestido, os sapatos, o penteado. Mas tudo em mim dói. Porque tudo em mim grita por ele.
Meu pai.
Meu herói. Meu refúgio. Meu melhor amigo.
Hoje é o dia em que mais queria sua presença. Seu abraço. Seu sorriso orgulhoso no fim da plateia. A forma como ele sempre fazia sinal de positivo com o polegar quando eu subia ao palco da escola, como se dissesse "vai, minha pequena, brilha".
Mas ele não está aqui.
E a verdade é que desde que ele se foi, o mundo perdeu o brilho.
Puxo o zíper do vestido azul-escuro com mãos trêmulas. Olho meu reflexo no espelho e não vejo uma garota prestes a vencer. Vejo uma filha despedaçada, tentando manter a postura enquanto tudo dentro de si desmorona.
- Você está linda, Cat - digo a mim mesma. Mas a voz sai baixa, insegura, como se até minha imagem no espelho duvidasse disso.
Tento sorrir e falho miseravelmente.
Respiro fundo.
Toc. Toc. Toc.
- Pode entrar - murmuro.
A porta se abre devagar e Maria, nossa governanta, ou melhor, o anjo da guarda que sobrou ao meu lado, surge com os olhos úmidos e o sorriso terno.
- Querida Catarina, o carro já aguarda pela senhorita - diz com aquela voz calma, de quem aprendeu a ser colo em dias de tempestade. - Está linda, minha princesa.
Sorrio, mas é um sorriso cansado.
- Obrigada, Maria...
Ela se aproxima, ergue a mão enrugada e encosta de leve no meu rosto. Aquele toque... tem mais amor do que qualquer gesto que recebi da minha mãe nos últimos três anos.
- Não fique triste - sussurra. - Ele vai estar lá.
Os olhos ardem e o peito aperta.
- Eu sei, Maria - respondo com um fio de voz, tentando não chorar. - Eu sei...
Mas a verdade é que não sei. Que parte de mim ainda grita em silêncio: "por que você me deixou?". Não há um só dia em que eu não volte para aquele momento. Aquele instante sombrio antes de tudo desmoronar.
A gente discutiu. Uma briga boba. Eu queria sair com minhas amigas naquela noite, ele disse que estava preocupado, que era tarde, que havia previsão de tempestade.
Eu disse coisas horríveis. Fui cruel. Injusta. Impulsiva, fechei a porta com força e ele saiu. Para nunca mais voltar.
A ligação chegou horas depois. E desde então, tenho vivido nessa prisão de arrependimento que nenhum diploma, festa ou cerimônia será capaz de apagar.
Meu pai morreu achando que eu o odiava. E isso... isso me consome um pouco todos os dias.
Desço até a cozinha, e o cheiro das panquecas de mirtilo que Maria preparou, as minhas favoritas, me arranca um suspiro. É como um carinho silencioso, uma tentativa de conforto em meio à dor.
- Maria... - murmuro, sentando-me à mesa.
Ela se apressa em me servir, o rosto gentil, sempre tentando manter a rotina viva.
- Pedi para Lohany fazer aquelas panquecas com mirtilos que você adora - diz, ajeitando o guardanapo ao meu lado.
- Obrigada - respondo. Mas não como. Não sinto fome, só saudade.
- Onde está a mamãe?
O silêncio pesa no ar. O rosto de Maria se entristece, mas ela não hesita.
- Ela disse que precisava de um tempo. Disse que vai tentar chegar a tempo da cerimônia.
Tento não reagir. Tentei tantas vezes não me importar, mas a dor sempre volta.
- Ela não vem, não é? - pergunto, encarando a mulher que, apesar de não ser minha mãe, é quem secou minhas lágrimas por tantas noites.
Maria respira fundo, se senta ao meu lado e segura a minha mão.
- Não sei, querida. Mas sei que você não está sozinha. Nunca esteve. Ele... - ela olha para cima, com os olhos marejando, - ele vai estar com você. Eu sinto isso.
Fecho os olhos e deixo uma lágrima escorrer.
- É tão difícil, Maria. Tão difícil carregar esse vazio. Às vezes, parece que ele vai me engolir inteira.
- Mas você é mais forte do que imagina. E seu pai sabia disso. Foi por isso que te amou tanto. Ele via em você o que ninguém mais via.
Soluço.
Me agarro a ela, como se fosse o único pilar que me sustenta.
- Eu só queria mais um dia com ele - confesso. - Só um.
- Ele está em tudo o que você faz, Catarina. Em cada passo que você dá. Você está realizando o sonho dele. Hoje... é por vocês dois.
Assinto. Porque é tudo o que posso fazer.
✦ ✦ ✦
Na porta da escola, flashes, risos, euforia. Mas dentro de mim, um vendaval.
Vestido azul, sapato novo, cabelos presos em um coque simples. Mas o rosto... o rosto de quem perdeu mais do que pode dizer.
- Cat! - grita Nina, minha melhor amiga, se aproximando com os braços abertos.
Ela me abraça forte, girando-me no ar, como se quisesse me arrancar do abismo só com sua alegria. Nina foi o raio de sol que surgiu no inverno mais sombrio da minha vida. Vinda da Rússia, cheia de opiniões, sarcasmo e coração enorme, ela me acolheu com mais lealdade do que qualquer pessoa da minha família.
- Nervosa? - pergunta ela, me empurrando levemente pelos ombros.
- Um pouco... Muito. Sei lá.
- Você vai arrasar. E eu vou estar lá, gritando feito uma doida quando chamarem seu nome.
- E a sua bolsa para Harvard? - pergunto, mudando de assunto.
- Foi aprovada e a sua?
Sorrio pela primeira vez com verdade.
- Também.
Ela grita, me abraça de novo, e juro que por um segundo, sinto ele ali. Meu pai, sorrindo junto comigo e orgulhoso.
Hoje é por ele.
Hoje é por mim.
Hoje é o começo de uma nova história.
Mas, mesmo com o diploma nas mãos e o mundo me esperando... Sempre haverá um espaço dentro de mim onde ele ainda vive.
E é nesse espaço, sagrado e intocável, que vou carregar meu pai... Para sempre.
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