
O Tio da Minha Melhor Amiga
Capítulo 3
Três anos atrás
Catarina Spinola nunca esqueceria aquele dia.
O céu estava absurdamente azul, o ar era leve, mas dentro do peito dela... uma tempestade.
Seu primeiro dia na nova escola. Um recomeço, ou pelo menos, era o que todos insistiam em dizer. Mas ninguém sabia como era recomeçar carregando um luto que ainda tinha cheiro, voz, risos... e dor.
Ela saiu do carro com passos firmes, apesar das mãos trêmulas, apertando os livros contra o peito como se eles pudessem proteger o que restava de seu coração. Sorriu para Albert, o motorista de seu pai, que ainda insistia em levá-la todos os dias, mesmo após a morte de Pietro. Ele era mais do que um funcionário, era uma espécie de anjo disfarçado de homem grisalho, que sabia quando não dizer nada.
- Boa sorte, senhorita Catarina - disse ele, com um sorriso que tentava esconder a compaixão.
- Obrigada, Albert. Volto às 16h. Pode ficar tranquilo.
Ela respirou fundo e seguiu pelos corredores.
Foi quando, num piscar de olhos, uma garota esbarrou em seu ombro com a força de um furacão, quase derrubando os livros que ela segurava.
- Des-desculpa! Mas eu preciso correr! - disse a morena, sem sequer parar. Seus cabelos negros voaram atrás de si como bandeiras de liberdade.
Catarina piscou, confusa, e murmurou:
- Que maluca... - mas sorriu, porque pela primeira vez em dias, algo dentro dela pareceu... desperto.
Ao chegar à secretaria, Catarina congelou por um instante ao vê-la de novo. A mesma morena estava discutindo de forma tão determinada com a secretária que até a coordenadora Clarice havia sido chamada. O assunto? A troca de turma.
- Por favor, senhorita Clarice! Eu preciso estar na turma 365. A professora Manuela é minha inspiração. Eu li todos os artigos dela, já fiz resenhas, debates online... eu até fiz uma tatuagem com uma das frases dela! - insistia a garota, com olhos grandes, suplicantes.
Catarina quase riu. Ela era tão intensa que hipnotizava qualquer um.
- Senhorita Sanchez... - começou Clarice, exasperada. - Normalmente não fazemos alterações em turmas recém-formadas.
- Mas eu não sou normal, senhora Clarice. Sou uma aspirante a psicóloga com TOC por planejamento e paixão descontrolada por mulheres inteligentes! A senhora não pode negar isso a mim!
A coordenadora lançou um olhar para a jovem e, diante da cena inusitada, soltou um suspiro resignado.
- Tudo bem. Você está na 365. Só espero não me arrepender.
- Eu vou te dar orgulho, Clarice! Prometo! - respondeu a morena, animada, já se virando para sair. E então seus olhos bateram nos de Catarina.
- Ei! Você de novo! A menina que eu quase derrubei no corredor - disse com um sorriso tão largo que desarmaria qualquer bomba. - Desculpa mesmo. Eu fico meio... exaltada.
- Percebi - respondeu Catarina, sorrindo.
- Nina Sanchez. Vinda direta da Espanha, com escala em Boston e objetivo final: Harvard, baby.
Catarina riu. Não teve escolha.
- Catarina Spinola. Boston mesmo. Objetivo final: também Harvard. Psicologia.
Nina arregalou os olhos e gritou como se tivesse ganhado na loteria.
- Mentira! Jura?! Ai meu Deus, isso é o destino! - ela agarrou Catarina pelo braço. - Você é da 365 também, né? Claro que é, olha só como o universo age! Bora ver nossos horários, Cat?
- Cat?
- Sim, vou te chamar assim agora. E você pode me chamar de Nina. Mas só se quiser, tá? Ou pode me chamar de Furacão também. Aceito apelidos intensos.
Catarina gargalhou. Ela não sabia, mas naquele instante, seu mundo começou a se iluminar outra vez.
Era o início de algo raro. Forte. Inabalável.
Uma amizade que suportaria tudo.
✦ ✦ ✦
Dias atuais
Quarto de Catarina – Tarde da formatura
- Nem invente de desistir de ir com aquele vestido, Catarina Spinola! - Nina exclamou, jogando-se teatralmente sobre a cama da amiga.
- Nina, pelo amor de Deus... aquele vestido é... revelador demais! - respondeu Catarina, sentando-se na beirada da cama, abraçando o urso de pelúcia que ganhou do pai aos oito anos.
- Exatamente por isso que você vai com ele! - Nina se levantou num pulo e ficou diante da amiga com os braços cruzados, como uma general prestes a comandar a batalha. - Amiga... você tem um corpo que as deusas gregas invejam. E esse vestido... meu amor... vai causar colapso cardíaco coletivo!
- Nina! - disse Catarina, corando violentamente. - Você tá impossível hoje!
- Impossível, não. Realista! - disse se sentando ao lado dela. - Quando o Sam te ver com aquele vestido, ele vai se jogar no chão. Talvez até desmaie, ou peça você em casamento.
Catarina a encarou completamente corada.
- Meu Deus, para!
- Tá bom, tá bom. - levantou as mãos como quem se rende. - Mas posso te falar? Eu vejo como ele te olha. Como um cachorrinho apaixonado.
- Eu gosto do Sam, mas como amigo. Só isso.
Nina fez uma careta dramática e se jogou novamente na cama.
- Sei... isso tudo por causa de um certo moreno de olhos castanhos e sorriso devastador...
Catarina travou. Ela sabia exatamente de quem Nina estava falando.
- Nina! - sussurrou, num tom de alerta. - Fala baixo!
Ela gargalhou, pegando o ursinho das mãos da amiga.
- Ah, Christopher! - disse com voz melosa, abraçando o urso. - Me beije, por favor! Eu sou louca por você e preciso que me beije ardentemente!
Catarina arregalou os olhos e cobriu o rosto com as mãos.
- NINA! Para! Isso é vergonhoso!
- Esse seu bumbum na calça social me deixa louca! - continuou com uma voz caricata e teatral.
- Eu vou morrer! - Catarina ria, vermelha como um tomate, segurando a barriga.
- Amiga, olha pra mim. - Nina se sentou mais uma vez e segurou as mãos da loira. - Agora falando sério. Ele te olha diferente. Não é coisa da minha cabeça. Até a Maria já percebeu!
- Meu Deus, Maria também? - ela sussurrou em pânico.
- Sim. E vou te dizer uma coisa: se ele não te notar hoje, com aquele vestido, nessa formatura... ele é cego.
Catarina mordeu os lábios. Seu coração acelerava toda vez que ouvia o nome de Christopher. Era inevitável.
- Eu não sei, amiga... - murmurou. - Ele sempre me viu como uma criança. Como a afilhada do amigo. E eu... sou só uma garota perto dele.
- É aí que você se engana. Você é uma mulher incrível. Forte. Sensível. Inteligente. E você merece ser vista.
Nina se levantou, esticou a mão para Catarina e disse com um sorriso cúmplice:
- Agora vamos. Temos um salão nos esperando e uma noite para brilhar.
- Eu não sei o que seria da minha vida sem você, Nina - disse Catarina, levantando-se e abraçando a amiga.
- Seria uma vida entediante, claramente - respondeu com um sorriso travesso. - Mas comigo, querida... é só o começo do espetáculo.
E assim, de mãos dadas, as duas desceram as escadas. Uma noite inteira as esperava.
Mas nenhuma delas imaginava que aquele seria o começo de algo que mudaria tudo para sempre.
Você pode gostar





