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Capa do romance O Sorriso de Belmont

O Sorriso de Belmont

Um mestre dos disfarces apelidado de Loki desafia museus globais ao trocar obras de Da Vinci e Renoir por réplicas impecáveis a cada dois anos. Sem deixar rastros, o criminoso intriga as autoridades internacionais. Para detê-lo, a especialista em arte Alexandra Hester une forças com Gideon Belmont, um agente nada ortodoxo da Interpol francesa. Juntos, eles iniciam uma caçada mundial para desvendar a identidade do ladrão antes que ocorra o próximo grande roubo.
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Capítulo 2

— Vai acontecer, como você esperava. — Ele revirou os olhos no momento em que a palavra foi articulada para fora do celular, massageou o cenho dolorido e sentiu os ombros começarem a doer embora tivesse acabado de despertar de um sono pesado. Sabia o que significava ouvir aquela voz sucinta mesmo que pudesse contar as palavras nos dedos. — Em Roma, daqui a uma semana. É melhor se preparar. Entrarei em contato em dois dias.

A ligação foi cortada deixando-o novamente sozinho no quarto de hotel simples, mas elegante. Levantou-se nu da maciez dos lençóis e foi até a janela munido de um cigarro e um zippo de prata entalhada com fluido novo, seu companheiro mais antigo. Sentia os cabelos longos arrastarem por seus ombros largos, caindo lisos e escuros pelas laterais do rosto sério refletido na janela. Teria de cortá-los em alguma hora. Acendeu a ponta e ergueu o olhar para a colossal basílica de Santa Sofia plantada numa Istambul que aos poucos despertava para um dia frenético e quente, um cartão postal centenário atrás da fumaça sinuosa erguendo-se para o teto e um céu azul e dourado, clareando-se preguiçosamente. Por alguns segundos preciosos conseguiu esquecer o motivo de sua estadia naquela cidade, bem como os mais de uma década em que permaneceu sem um país para voltar, ou ao menos fingir chamar de“casa”.

Não podia parar agora, não conseguiria mesmo se seu bigodudo chefe, Lance Morrison, o mandasse à merda. O que não estava longe de acontecer, de fato. Em noventa e seis meses, o agente Gideon Belmont havia gasto mais de quarenta milhões do orçamento da INTERPOL para pegar um fantasma. O mesmo que agora seus superiores pensavam que nem sequer era uma única pessoa tão meticuloso era seu modus operandi.

Mas Gideon sentia que sabia a verdade.

Há oito anos, o fantasma havia começado pequeno, mas ainda assim deu um passo que pareceu ser maior que as pernas só para confirmar-se um crime perfeito meses depois. Primeiro, “Os Trapaceiros” de Caravaggio, a equipe do museu de Kimbell no Texas só havia percebido que estavam exibindo uma falsificação cinco meses depois. Dois anos mais tarde, um salto extravagante rumo ao estrelato como gatuno conhecido atraindo os olhos de todas as corporações policiais do mundo. Lá se fora o inconfundível “O Almoço dos Barqueiros” de Renoir, também substituído com uma cópia perfeita que só foi desmascarada na vistoria de rotina do Phillips Memorial Gallery com um especialista.

E assim seguiu-se a odisséia do fantasma das artes. A cada dois anos, uma obra de arte valendo milhões era declarada falsa em locais aleatórios do mundo. Era como uma temporada de roubos que ninguém sabia como acabaria ou qual seria o próximo alvo. Com o passar do tempo, os museus procuraram se preparar cada vez melhor, instalando sistemas de segurança cada vez mais complexos com a esperança de manter o ladrão longe. Achava curioso como aquela série de sumiços milionários não havia caído na língua da imprensa internacional apenas de alguns entusiastas de arte para quem ninguém ligava, mas não questionaria os métodos de Morrison.

A ocasião pedira por um agente como Gideon Belmont quando a corporação recebeu uma ligação preocupante do Museu do Louvre no sexto ano de investigações. A “Cabeça de Mulher” de Leonardo Da Vinci original havia sumido às vésperas da abertura de uma grande exposição do artista no Napoleon Hall, sob a pirâmide de vidro. A terceira grande obra trocada com dedos leves e nenhuma assinatura. Abafaram o caso quase com desespero, exibindo a cópia idêntica colocada pelo ladrão e finalmente tiveram a decência de contatá-lo.

Poderiam tê-lo chamado muito mais cedo, porém devido ao seu currículo invejável, a corporação decidiu mantê-lo no Cazaquistão por um pouco mais, enfiado numa suposta célula terrorista que o acolheu com prazer depois de mostrar algumas habilidades com um rifle, ignorando suas feições nada nativas embora preservasse os cabelos escuros e a pele mais bronzeada. Sobrancelhas espessas e negras, nariz reto e proeminente que combinados aos seus olhos castanhos tornavam-no um homem extremamente atraente, combinados ao porte conferido por um metro e noventa e três de altura. Antes um pouco magro demais, arrastando-se pela desolação gelada cazaque, agora podia cultivar seus músculos a um tamanho que considerasse adequado para não ser morto. Fora uma época difícil, mas que o ensinara o poder da persuasão como ninguém poderia.

Só precisava parar com os malditos cigarros agora.

— Recebi uma informação — disse Gideon novamente ao telefone, desta vez com Morrison do outro lado e o cigarro entre os dedos. — Roma, daqui uma semana. Vou precisar de pelo menos cinco milhões para montar uma operação decente e que funcione.

— Você já estourou o orçamento da missão três vezes, Belmont — retrucou o homem com voz autoritária. — De onde você acha que eu tiro dinheiro?

Forçou-se a não dar uma resposta óbvia que o insultasse abertamente, apenas deu uma funda tragada no cigarro, deixando a fumaça escapar pelo nariz.

— Em uma semana acontecerá um dos maiores leilões de arte secretos da Europa nos porões de um prédio da Igreja, é burrice achar que nada vai dar errado com um inventário de mais de oitocentos milhões de euros em obras. — Tirou o telefone do ouvido para enviar um e-mail encriptado para Morrison com informações que julgou pertinentes. Havia algumas fotos, audios…

— Puta merda, você quer envolver o Vaticano nisso? — indagou o chefe.

— Eles se envolveram sozinhos, todo mundo precisa fazer dinheiro, principalmente os santos. Nada mais óbvio que vender alguns enfeites para pagar o aluguel no fim do mês. — "Não que você entenda alguma coisa disso sentado no colo do seu presidente", pensou Gideon.

Recentemente com uma denúncia escandalosa de um bispo fazendo “ótimos negócios” no ramo imobiliário, a Igreja foi obrigada a dispensá-lo e tentar diminuir os estragos com a pouca arrecadação. Algumas coleções valiosas guardadas às sete chaves e longe dos olhos dos fiéis não fariam falta.

Já havia reunido tudo o que precisava para penetrar naquelas sagradas paredes e cumprir seu propósito “divino” como um investigador fodido e obcecado, só precisava do item mais básico de todos e Morrison facilitaria muito se simplesmente lhe cedesse a quantia e parasse de resmungar.

— Oito anos nessa merda, Belmont… Já está todo mundo cansado.

— Então quer desistir de pegar o maior ladrão de arte dos últimos cem anos só porque precisa ceder alguns milhões?

Belmont estava assustado com a própria hipocrisia. Não tinha nenhuma ambição de reaver as obras, seria preciso mais algumas dezenas de milhões de dólares para rastreá-las até seus compradores finais no submundo, a única coisa que interessava era pegar o desgraçado que o vinha fazendo de idiota por oito anos. Analisara toda a rotina dos museus roubados procurando qualquer coisa minimamente fora de lugar e nunca achava nada! Com os quadros falsos, nenhuma assinatura que evocasse o desejo do ladrão de tornar-se conhecido ou esfregar seu sucesso na cara da lei como mandava o roteiro. Ele apenas entrava, roubava, e ia embora, essencialmente. Evaporava com um silêncio quase “humilde” e resignado. Nenhuma fibra, fio de cabelo, gota de suor, saliva… Nada! Aquele tipo de picareta implorava para ser pego, mas não ele.

— Dá um tempo, Belmont. Seu orgulho ferido está me custando o rabo!

— Vai custar ainda mais se eu não pegá-lo. Tá dentro ou fora?

O suspiro aborrecido de Lance Morrison fez chiar a ligação.

— Ótimo… — Gideon disse. — Tenho que pegar um avião.

Desligou e colocou-se em movimento, tirando a pistola .45 customizada em prata. Semiautomática e de rápida resposta, vinha sendo sua companheira mais fiel em sua caçada. Por vezes achou que deveria ter algo sobrenatural nela, pois nunca havia falhado. Enfiou as roupas na mala com uma máquina fotográfica Canon pequena, outra pistola Glock carregada e um pacote com quinze mil euros em espécie. Sua passagem na primeira classe para Roma.

Seis horas depois, o agente estava no parapeito de um cargueiro, agasalhado até os ossos com a maresia violenta soprando em seu rosto e um plano lentamente tomando forma na mente, olhando ao longe uma tempestade horrenda fazer um aceno a ele.

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