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O Sorriso de Belmont

Um mestre dos disfarces apelidado de Loki desafia museus globais ao trocar obras de Da Vinci e Renoir por réplicas impecáveis a cada dois anos. Sem deixar rastros, o criminoso intriga as autoridades internacionais. Para detê-lo, a especialista em arte Alexandra Hester une forças com Gideon Belmont, um agente nada ortodoxo da Interpol francesa. Juntos, eles iniciam uma caçada mundial para desvendar a identidade do ladrão antes que ocorra o próximo grande roubo.
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Capítulo 3

ROMA, ITÁLIA.

CINCO DIAS DEPOIS.

Já tocavam os sinos da Basílica de São Pedro enquanto várias pessoas por lá passavam para visitar ou fazer suas orações quando um homem alto, de terno caminhava por entre os turistas chamando tanta atenção quanto a própria construção atemporal, em direção ao seu BMW estacionado logo ao lado. Sua face era séria, estoica, enquanto falava ao telefone num tom pouco amigável. Ali poderia facilmente ser confundido com um executivo apressado para resolver suas questões e acumular seus milhões, mas nada era o que parecia quando se tratava dele. E aquele dia cinzento não seria diferente.

AO MESMO TEMPO.

Na outra ponta da cidade, saltos altíssimos chocavam contra o chão de mármore polido do Singer Palace Hotel enquanto a mulher que os calçava dirigia-se às portas para o Bentley prateado que a esperava na porta. A expressão gentil e extremamente disposta àquela hora da manhã chamava tanta atenção quanto o longo e justo vestido ameixa que usava. A última coisa que queria era chamar a atenção naquela noite, mas apenas daquele jeito se misturaria com facilidade ao lugar para onde se dirigia.

Estava indo para a Roma dentro de Roma, e tinha de estar apresentável se quisesse que tudo ocorresse sem grandes problemas. Andando sobre o chão impecável, poderia facilmente ser confundida com uma mulher de negócios apressada para resolver suas questões e acumular seus milhões, mas nada era o que parecia quando se tratava dela.

E aquela seria uma grande noite.

Quando chamaram Alexandra Hester para curar uma “exposição” no Vaticano, ficara surpresa. Recebera a ligação de um Arcebispo da cidade-estado que não disse muito do que realmente queria saber. Jamais se permitiria aceitar um trabalho do qual conhecia tão pouco, porém as obras mencionadas por Manuel Camacho eram preciosas demais para que a oferta fosse ignorada. Tratava-se de peças de valor quase inestimável da coleção privada do Vaticano e se aceitasse, teria a honra de estar entre Botticelli, Rafael, e mais uma infinidade de artistas dos quais em toda a sua carreira como renomada curadora apenas vira as obras mais famosas, nunca aquelas subentendidas na fala do clérigo. Necessariamente, aquelas obras nunca vieram à público, eram originais guardadas a sete chaves no cofre papal por ordens dadas há centenas de anos.

Sua maior pergunta, no entanto, era: Por que a estão expondo agora? E por que ela?

Com um sorrisinho do outro lado do mundo, Camacho respondeu:

— Você foi a única que conseguiu desvendá-lo, senhorita Hester. A única que conseguiu ver o que estava errado. Não podemos correr riscos.

As coisas fizeram sentido depois daquela resposta. "Até o Vaticano tem medo de ser assaltado…"

Já tinham se passado dois anos desde “Cabeça de Mulher”, já estava na hora de ouvir sobre ele outra vez. O ladrão sem rosto, sem digitais, sem DNA que simplesmente tirava quadros valiosíssimos e os repunha com réplicas quase perfeitas sem que ninguém visse. Alexandra conhecia bem o seu trabalho, nos últimos dois grandes roubos, nem mesmo um escaneamento a laser conseguiu determinar a falha. Foram os olhos atentos de Alexandra Hester que viram, quase microscopicamente, onde o ladrão havia escorregado no “Almoço dos Barqueiros”.

Uma pincelada sobreposta diferentemente da pintura original. Tímida, de apenas milímetros, mas ainda assim… ali. Como uma pegada no cimento fresco.

Tirando aquilo, tudo batia, e ela ficara tão impressionada com a qualidade da cópia que passou dois minutos rindo sozinha na sala de restauração ao lado de seu colega e o diretor do museu. Os métodos de medição de “idade” da obra batiam, as condições da peça estavam perfeitamente alinhadas a algo feito em 1800, a padronização de cores era idêntica. Apenas uma pincelada errada o denunciou, e pelo modo como parecia, fora uma falta de atenção tremenda. O método… É impressionante.

— Ele não é um ladrão comum — determinou dois anos antes com a lupa quase tocando a réplica do Almoço Dos Barqueiros. — É um falsificador. Um muito bom.

— Como pegamos ele? Como recuperaremos a pintura?

Se conhecia bem o submundo das obras roubadas, já deveria estar perdida em trâmites escusos no mercado negro. Porém, se fosse o caso, a Polícia Internacional já estaria perto de pegá-la, ou recuperar alguma peça, o que certamente não foi o caso.

— Eu não sei. Mas é diferente de tudo que já se lidou no mundo em matéria de roubo de arte — respondeu tirando as luvas plásticas.

— Por quê? O que quer dizer? — perguntou o diretor do museu, com olhos arregalados.

— Porque ele não está atrás de glória.

— E o que esse desgraçado quer? — indagou outra vez o diretor, frustrado e enraivecido.

Aquele se tornaria o maior desafio de sua vida, e o mais eletrizante.

Caminhou para o Bentley Continental que a levaria para o Vaticano, e sentiu-se revigorada naquela manhã ao ligar o motor, ouvindo-o ronronando como uma fera obediente. Era sempre um desafio, uma deliciosa afronta quando se tratava do falsificador. Ninguém o via entrar ou sair, ninguém sabia como ele se parecia. Livros foram escritos sobre ele, apenas supondo como agia.

Um dos autores chegou a chamá-lo de “Loki”, o deus nórdico da travessura. Quando questionado sobre a alusão, uma pergunta que confrontava a falta de arrogância do falsificador comparada a do deus, William H. Spencer — P.h.D. em História da Arte e mais uma infinidade de assuntos relacionados —, disse que era nesse detalhe que morava sua pretensão.

— Ele não quer ser pego, mas inevitavelmente sabemos quem foi — comentou Spencer, no lançamento. — Isso não lhe parece adequado o suficiente?

— O que te faz acreditar que trata-se de apenas uma pessoa e não de um grupo? — perguntou um repórter atrás dos flashes naquela tarde em Manhattan em que Alexandra apenas figurou ao fundo. — É impossível estar em vários lugares ao mesmo tempo, os roubos são notificados quase na mesma hora em pontos variados do globo. É impossível. William Spencer, de setenta anos e elegância britânica inquestionável, respondeu enigmático:

— Não é impossível para um deus.

Ter visto seu mentor na faculdade de História da Arte chamar o falsificador de “deus” foi um grande indicativo para Alexandra do quão bom era o criminoso com o qual estavam lidando. Durante os oito anos em que os roubos aconteceram ao redor do globo, Spencer havia se tornado um entusiasta do caso “Loki” embora a mídia levasse a história como mais uma teoria da conspiração. Alexandra nunca pensaria que ele levaria essa “curiosidade” tão a sério a ponto de estudá-la a fundo e escrever um livro sobre o assunto. Quando ela o perguntou sobre sua pequena obsessão, ele apenas respondeu que havia estudado o bastante para saber que o panteão de qualquer cultura possuía deuses “escrotos”, o falsificador um dia escorregaria, ele assegurou, e pensar nesse momento fazia as costas da moça se arrepiarem. Seria um dia histórico e cinematográfico.

Na primeira vez em que a chamaram para avaliar a cópia de “O Almoço dos Barqueiros”, Alexandra recorreu primeiro a Spencer, ele a acompanhou no exame e compartilhou com ela aquele riso nervoso na sala de manutenção. Sempre fora a favorita dele na enorme classe de talentos de Oxford, e por isso tornou-se, doutora, mestre, bacharel e, convencida por Spencer, baseara sua tese de P.h.D. em vários aspectos descobertos na caça do deus de mãos leves. Ele também a havia ensinado coisas, era inegável. Confiando na capacidade incrível dela, William a levou a realizar esses feitos acadêmicos num espaço de apenas dez anos, conquistando a confiança das pessoas mais interessadas em pegar o criminoso e recuperar os tesouros da humanidade de suas mãos egoístas.

Desde então professor e eterna aluna mantinham contato regular, e do carro, mudando a rota para o sua cafeteria favorita em Roma, Alexandra ligou para ele.

O fuso horário entre Roma e Londres era de apenas uma hora, e o conhecia o suficiente para saber que estava acordado àquela hora da manhã

— Alex! Como está o dia na cidade do amor? — perguntou com sua voz jovial e animada.

— Nem um pouco romântico, acho que vai chover — respondeu dando uma olhada no céu além do parabrisa, dirigindo cuidadosamente pelas ruas estreitas, desviando de turistas.

— Está nervosa? — perguntou.

— Por que estaria? — Tentou disfarçar.

— Sabe que ele vai estar lá…

Tinha contado a ele sobre a “exposição” secreta do Vaticano. Com Spencer não corria o risco da notícia se espalhar, o professor queria pegar o Loki tanto quanto ela e sabia tanto quanto a própria sobre o método de falsificação do criminoso. Se havia alguém para chamar de parceiro naquela aventura, era William Spencer.

— Ele não vai atacar, ninguém além de você sabe o que vai acontecer — falou tomando outra rua, seguindo o trânsito lento e congestionado de Roma. — Sabe como as coisas funcionam na cidade do Vaticano.

— Exato. Ele não conseguiria chegar perto do cofre papal, não sozinho. Essa é a oportunidade perfeita, Alex, o momento perfeito. Melhor estar preparada, para tudo.

— Vou estar. Se algo acontecer, te ligo.

— Ou posso ligar no noticiário.

Alexandra deixou sair uma risadinha.

— Você nunca vai ver algo assim no noticiário.

— Quanto tempo você acha que as agências vão demorar para dar com a língua nos dentes?

— Espero que não tão cedo, isso atrapalharia o meu trabalho.

— Alexandra, “A Caçadora de Deuses”... — comentou com ares de misticismo.

— William Herman Spencer, “A Tiete” — rebateu divertida e ouviu a risada do homem do outro lado. — Te manterei informada, só queria dizer oi antes da loucura começar.

— Fez bem. Foi bom falar com você, querida. Boa sorte.

Desligou a chamada e suspirou fundo parando para que um casal atravessasse. Sabia que o arcebispo Camacho a esperava no Vaticano para um café, mas não estava com um pingo de pressa, e teria tempo para relaxar com um café da manhã “de verdade” no privativo Canta Paradiso, atrás da Piazza Navona. Um cantinho escondido próximo à Universidade da Santa Cruz onde teria um pouco de paz e um belo bolo de limão para degustar.

Seria uma grande noite… E muito, muito longa…

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