
O Segredo do Casamento Aranjado
Capítulo 2
A água salgada queimava meus pulmões, cada onda me empurrando para mais fundo, mais longe da luz. Acima de mim, na beira do penhasco, a silhueta de Pedro se recortava contra a lua, ele não se moveu, apenas observou, com um rosto que eu não reconhecia mais, um rosto frio e impassível. Ao lado dele, Sofia, minha "melhor amiga", sorria, um sorriso vitorioso que selou meu destino. A última coisa que senti foi o frio cortante do oceano e o peso esmagador da traição, uma dor que superava a falta de ar, a dor de um coração quebrado e de uma vida roubada por ganância. Eles me deixaram para morrer, levando consigo a fortuna da minha família e a minha confiança cega.
Meus olhos se abriram com um sobressalto.
Eu estava sentada em frente à minha penteadeira de mogno, o cheiro de lírios frescos enchendo o quarto. O sol do Rio de Janeiro entrava pela janela, iluminando o pó que dançava no ar. Minhas mãos tremiam, mas não de frio. Levei-as ao meu pescoço, sentindo a pulsação forte e viva. Eu estava viva. O espelho à minha frente mostrava um rosto jovem, familiar, sem as marcas do sofrimento e da morte. Era eu, Luísa, com vinte e dois anos, no dia mais crucial da minha vida.
O dia da seleção de cônjuges.
Um costume bizarro e antiquado da elite carioca, onde herdeiras como eu escolhiam um pretendente em um evento que mais parecia um leilão de gado. Na minha vida passada, este foi o dia em que eu, cega de amor, escolhi Pedro, o surfista carismático com um sorriso que prometia o paraíso. Mal sabia eu que aquele sorriso escondia o inferno.
Uma batida suave na porta me tirou do transe.
"Luísa, querida? Estão todos esperando por você. Pedro já chegou."
Era a voz da minha governanta. A menção do nome dele me causou um calafrio. Respirei fundo, a raiva e a dor da minha memória se transformando em uma determinação fria como aço. Desta vez, seria diferente. Eu não seria a tola apaixonada. Eu seria a rainha do meu próprio tabuleiro de xadrez.
"Já estou descendo", respondi, minha voz firme, surpreendendo a mim mesma.
Levantei-me, alisei o vestido de seda branco que usava e caminhei para fora do quarto, passando pelos corredores opulentos da mansão da minha família. Lá embaixo, no grande salão, as famílias mais influentes do Rio estavam reunidas. O ar estava pesado com perfume caro e expectativas. Vi meu avô, o patriarca, com seu olhar severo, mas sei que por baixo de tudo, ele só se preocupava com a minha felicidade.
E então, eu o vi.
Pedro estava no centro das atenções, como sempre. Bronzeado, cabelos loiros clareados pelo sol, ele conversava com um grupo de homens mais velhos, seu charme transbordando. Nossos olhares se cruzaram e ele me lançou um sorriso cúmplice, uma piscadela que antes teria feito meu coração derreter. Hoje, só me causou nojo. Ele estava tão seguro da minha escolha, tão seguro de que eu era sua.
Desviei o olhar dele e procurei pelo salão. Do outro lado, encostado em uma coluna, estava João. Alto, de ombros largos, com uma expressão séria que sempre me irritou. João era meu rival de infância, o herdeiro de uma família concorrente, nossas interações sempre foram uma mistura de farpas e competição. Ele era pragmático, direto ao ponto, o oposto completo de Pedro. Na minha vida passada, eu mal o notei neste dia. Hoje, ele era minha única opção. Minha única chance de reescrever meu final trágico.
Caminhei pelo salão, ignorando os cumprimentos e os olhares curiosos. Pedro veio na minha direção, seu sorriso se alargando, pronto para me receber.
"Luísa, você está deslumbrante. Eu sabia que branco era a sua cor", ele disse, sua voz melosa soando como um veneno nos meus ouvidos.
Eu passei direto por ele, sem dizer uma palavra. Sua expressão de confiança vacilou, substituída por uma confusão genuína. Pude sentir os olhares de todos em mim, o murmúrio se espalhando pela sala. Parei bem em frente a João.
Ele me olhou de cima a baixo, uma sobrancelha arqueada em surpresa.
"Perdeu alguma coisa, Luísa?", ele perguntou, seu tom direto como sempre.
Eu olhei diretamente em seus olhos escuros e, para o choque de todos, especialmente para o dele, eu disse:
"Eu escolho você, João."
O silêncio no salão foi total, tão denso que podia ser cortado com uma faca. João piscou, claramente pego de surpresa, sem saber como reagir. Atrás de mim, ouvi um som de engasgo. Era Pedro.
"O quê? Luísa, que brincadeira é essa? Pare com isso", ele disse, sua voz agora tingida de pânico e raiva. Ele agarrou meu braço, mas eu me soltei com força.
"Não é uma brincadeira, Pedro. Minha escolha está feita", declarei em voz alta para que todos ouvissem.
A confusão se transformou em caos. As pessoas cochichavam, meu avô me olhava com uma mistura de choque e preocupação. Pedro estava pálido, seu rosto contorcido em uma máscara de incredulidade.
"Você não pode estar falando sério! Você me ama! Nós temos planos!", ele gritou, perdendo a compostura.
"Seus planos, talvez. Não os meus", respondi friamente.
Vendo a situação sair do controle, meu avô se adiantou, sua presença imponente silenciando a sala.
"Acalmem-se todos", ele disse com autoridade. "Esta é uma decisão importante. Para que não haja dúvidas ou precipitações, a escolha final e o noivado de minha neta serão formalmente anunciados no leilão de caridade da família, na próxima semana. Até lá, a decisão de Luísa será considerada... preliminar."
Era uma manobra política para acalmar os ânimos e me dar uma saída, caso eu mudasse de ideia. Mas eu não mudaria. O anúncio criou um suspense ainda maior, transformando meu futuro em um espetáculo público. Pedro me lançou um olhar furioso, um olhar que prometia retaliação. Ele não aceitaria a derrota tão facilmente.
Mais tarde, sozinha no meu quarto, peguei uma foto antiga da minha carteira. Nela, eu e Pedro estávamos na praia, sorrindo. Eu lembrava daquele dia, da sensação de estar loucamente apaixonada. Olhando para a foto agora, eu não via o homem que amava. Eu via um mentiroso, um manipulador que calculou cada passo. Aquele amor não era real, era uma ilusão que ele construiu para me usar. Amassei a foto na minha mão, o papel cortando minha palma. A dor física era um lembrete bem-vindo da dor emocional que eu não sentiria mais. A antiga Luísa estava morta. E a nova Luísa faria de tudo para proteger seu futuro, mesmo que isso significasse se aliar ao seu maior rival.
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