
O Segredo do Casamento Aranjado
Capítulo 3
No dia seguinte, Pedro não perdeu tempo. Ele me encurralou no jardim da mansão, seu rosto ainda marcado pela humilhação pública. O charme descontraído tinha desaparecido, substituído por uma urgência agressiva.
"Luísa, precisamos conversar. A sério", ele começou, tentando manter a voz calma, mas a tensão em sua mandíbula o traía.
"Não temos nada para conversar, Pedro."
"Claro que temos! O que foi aquilo ontem? Você está tentando me provocar? Me deixar com ciúmes? Se for isso, funcionou. Agora pare com o drama e vamos consertar as coisas."
Eu o encarei, incrédula com sua arrogância. Ele realmente acreditava que tudo girava em torno dele.
"Não há nada para consertar", respondi, minha voz monótona.
Ele soltou uma risada sem humor. "Ok, ok. Eu entendi. Você está brava por alguma coisa. Mas escolher o João? O cara te odeia! Olha, vamos fazer um acordo."
"Um acordo?", repeti, curiosa para ver até onde sua audácia iria.
"Sim. Eu te perdoo por essa cena ridícula", ele disse, como se estivesse me fazendo um grande favor. "Você desfaz essa palhaçada com o João, e nós anunciamos nosso noivado no leilão. Mas", ele levantou um dedo, "depois que casarmos, eu quero controle total sobre as minhas finanças. Nada de mesada da sua família. Eu quero acesso direto aos investimentos. É o mínimo que você pode fazer depois de me envergonhar desse jeito."
Ali estava. A verdadeira razão. O dinheiro. Na vida passada, ele esperou até depois do casamento para fazer essas exigências, mas agora, sentindo o controle escapar, ele estava mostrando suas verdadeiras cores mais cedo. O desespero o tornava descuidado.
Eu ri. Uma risada genuína e fria que o pegou de surpresa.
"Você é inacreditável, Pedro. A resposta é não. Não vou me casar com você. Não vou te dar um centavo. E sugiro que você aceite isso."
Virei-me para sair, mas ele se moveu para bloquear meu caminho.
"Você vai se arrepender disso, Luísa."
"Acredite, eu já me arrependi de muitas coisas. Escolher você na minha vida passada foi a principal delas. Não cometerei o mesmo erro duas vezes."
Deixei-o ali, atordoado com minhas palavras, e continuei meu caminho. A satisfação de rejeitá-lo foi imensa, um pequeno ato de vingança pela vida que ele me tirou.
Mais tarde, naquele mesmo dia, a situação piorou. Eu estava na piscina, tentando relaxar, quando Sofia apareceu com Tiago, o filho do zelador. Na vida passada, Tiago foi um dos seus peões, sempre se fazendo de vítima para conseguir o que queria de mim, explorando minha compaixão.
"Luísa, que bom te ver!", disse Sofia, com seu sorriso falso de sempre. "Tiago estava tão preocupado com você depois de toda a confusão de ontem."
Tiago, um rapaz magro e de olhar esquivo, apenas balbuciou algo incompreensível, parecendo nervoso.
"Eu estou ótima, Sofia", respondi secamente.
De repente, Tiago, que estava perto da beira da piscina, "tropeçou" e caiu na água com um grande barulho. Ele começou a se debater freneticamente na parte funda, gritando por ajuda.
"Socorro! Eu não sei nadar! Socorro!"
Sofia gritou histericamente. "Luísa, ajude ele! Ele vai se afogar!"
Eu permaneci imóvel. Eu sabia que Tiago era um excelente nadador, ele competia pela escola. Era mais um dos seus teatros patéticos para me manipular, para me fazer parecer a heroína e, de alguma forma, me aproximar de Pedro novamente.
Enquanto eu observava a cena com desdém, Pedro apareceu correndo, como se estivesse esperando o momento certo.
"O que está acontecendo?", ele gritou, antes de pular na piscina sem hesitar e "resgatar" o Tiago que se debatia.
Ele o arrastou para fora da água, e Tiago tossia e cuspia água de forma exagerada. Sofia correu para o lado deles, afagando as costas de Tiago e olhando para mim com acusação.
"Luísa! Como você pôde ficar aí parada? Ele poderia ter morrido!", ela choramingou.
Pedro se levantou, a água pingando do seu corpo, e seu olhar para mim era de puro desprezo.
"Eu não posso acreditar em você", ele disse, sua voz gotejando decepção. "O que aconteceu com a garota doce que eu conhecia? Você ficou aí, olhando, enquanto ele se afogava. Você se tornou uma pessoa fria e cruel."
Ele não me deu chance de responder. Envolveu Tiago com um braço protetor e, com Sofia ao seu lado, eles se afastaram, formando um pequeno grupo de vítimas justas, deixando-me como a vilã insensível da história.
Eu os observei ir, uma sensação de déjà vu me invadindo. Era sempre assim. Eles criavam a crise, a manipulação, e eu acabava sendo a culpada, a que não se importava o suficiente. Na vida passada, eu teria me sentido culpada, teria corrido atrás deles, pedindo desculpas, tentando consertar as coisas.
Mas não hoje.
"Se vocês queriam um show, deveriam ter contratado atores melhores", gritei para as costas deles. "Tiago nada melhor do que você, Pedro. Parem de me fazer perder tempo com esse circo."
Eles pararam por um instante, surpresos com a minha resposta, mas depois continuaram a andar, fingindo não ter ouvido.
Fiquei ali, sozinha à beira da piscina, o sol batendo na minha pele. A raiva queimava dentro de mim, mas era uma raiva limpa, purificadora. Eu me lembrava de todas as vezes que Pedro me manipulou, usando minha empatia contra mim, me fazendo sentir pequena e inadequada. Ele me isolou dos meus amigos de verdade, me convenceu de que só ele e seus "amigos" me entendiam. Ele me controlava com elogios e críticas, me mantendo em um estado constante de insegurança, desesperada por sua aprovação.
Essa lembrança dolorosa não me enfraqueceu, pelo contrário, fortaleceu minha decisão. Eu não seria mais uma marionete. O jogo havia mudado, e agora, eu estava no controle.
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