
O Segredo de Joãozinho Revelado
Capítulo 2
A tela do meu celular mostrava a foto de Daniel, meu filho, sorrindo com um troféu de futebol na mão. Eu sorri também, um reflexo automático. Eu era Lucas Silva, um engenheiro de software de sucesso, e tinha uma família que, por fora, parecia perfeita. Mas o sorriso no meu rosto era frágil, e o sentimento no peito era de uma ansiedade constante, como uma nuvem de chuva que nunca ia embora. Minha esposa, Juliana, e Daniel, nosso filho adolescente, eram o centro do meu universo, mas um universo que parecia cada vez mais frio e distante.
A discussão começou na sala de jantar, um ambiente que deveria ser de união, mas que se tornara um campo de batalha silencioso.
"Pai, eu não quero o Joãozinho no meu quarto de novo. Ele mexeu nas minhas coisas."
A voz de Daniel era carregada de um desprezo que ele nem se dava ao trabalho de esconder. Ele tinha dezesseis anos, a idade da rebeldia, mas a sua era tingida de uma crueldade que me preocupava.
Juliana, sentada à minha frente, mexia na sua salada com elegância, mas seus olhos estavam fixos em mim, calculistas.
"Querido, Daniel tem razão. O menino precisa aprender a ter limites. Ele é… diferente."
A palavra "diferente" saiu de sua boca como um veneno doce. Joãozinho era o suposto filho do meu melhor amigo de infância, Pedro. Um amigo que, na verdade, sempre viveu às minhas custas, um parasita disfarçado de irmão. Há seis meses, Pedro apareceu na minha porta com o menino de cinco anos nos braços, uma criança magra, de olhos grandes e assustados.
"Lucas, é seu filho" , ele disse, com a cara mais séria do mundo.
O choque me paralisou. Pedro me contou uma história confusa sobre um caso antigo, uma noite de bebedeira, uma mulher que sumiu. Eu, ingênuo e sempre tentando ver o melhor nas pessoas, acreditei. Fiz um teste de DNA de farmácia, que Pedro mesmo providenciou, e o resultado deu positivo. Eu era o pai.
Desde então, Joãozinho morava conosco. Pedro o deixara aos meus cuidados, alegando precisar "colocar a vida nos eixos" . A verdade é que ele e sua família sempre trataram o menino com uma frieza assustadora. Eu via os hematomas ocasionais, a tristeza crônica nos olhos da criança. Eu queria dar a ele um lar, o amor que ele nunca teve.
Mas a minha casa não era um lar para ele. Para Daniel, ele era um intruso. Para Juliana, um fardo.
"Ele não é diferente, Juliana. Ele é uma criança" , eu respondi, tentando manter a calma. "Ele só precisa de carinho."
"Carinho não paga as contas, Lucas. E ele está atrapalhando a vida do nosso filho" , ela retrucou, sua voz subindo um tom.
A campainha tocou, interrompendo a briga iminente. Era Pedro. Ele entrou com um sorriso largo no rosto, um sorriso que nunca alcançava seus olhos invejosos.
"E aí, família! Vim ver meu campeãozinho!"
Ele bagunçou o cabelo de Daniel, que sorriu de volta. A cumplicidade entre os dois era evidente e me causava um desconforto que eu não sabia explicar. Joãozinho, que estava encolhido no sofá da sala, se encolheu ainda mais ao ver Pedro.
Pedro se aproximou de mim, colocando a mão no meu ombro.
"Cara, me desculpa mais uma vez por todo esse transtorno. Eu juro que estou tentando arrumar um emprego, um lugar pra gente ficar. Você é o melhor amigo que um homem poderia ter."
Suas palavras eram melosas, ensaiadas. Eu apenas assenti, engolindo o meu descontentamento. Eu queria acreditar nele, queria manter a paz.
"Tudo bem, Pedro. Fiquem o tempo que precisarem."
Mais tarde, naquele mesmo dia, a tragédia anunciada aconteceu. Eu estava no meu escritório, no segundo andar, tentando me concentrar em um projeto, quando ouvi a risada alta de Daniel vindo do quintal, seguida por um choro baixo e assustado de Joãozinho.
"Vamos, Joãozinho! Voa! Você não é um super-herói?"
Desci as escadas correndo. A cena que vi congelou o sangue nas minhas veias. Daniel e Pedro estavam perto da velha casa na árvore que eu construíra anos atrás. Eles tinham amarrado uma corda improvisada em Joãozinho e o incentivavam a pular.
"Pula, garoto! Seja homem!" Pedro gritava, rindo.
O menino tremia, o rosto banhado em lágrimas.
"Eu tô com medo…"
Antes que eu pudesse gritar, Daniel empurrou o menino. A corda não aguentou. Ouvi o som surdo do corpo pequeno batendo no chão, seguido por um grito de dor lancinante que rasgou o ar.
Corri até ele. Joãozinho estava caído, o braço torcido em um ângulo estranho, o choro agora um gemido fraco.
"O que vocês fizeram?" eu gritei, a fúria tomando conta de mim.
"Foi só uma brincadeira, pai! Ele que é mole!" Daniel disse, sem um pingo de remorso.
Pedro deu um passo para trás, as mãos levantadas. "Calma, Lucas, foi um acidente."
Eu peguei Joãozinho no colo com cuidado. O menino se agarrou a mim, soluçando de dor. "Me desculpa, papai… me desculpa…"
Meu coração se quebrou. Ele estava pedindo desculpas.
Subi as escadas correndo para pegar a chave do carro e a carteira para levá-lo ao hospital. Juliana estava no corredor, no celular.
"O que foi essa gritaria?" ela perguntou, entediada.
"Daniel e Pedro machucaram o Joãozinho. Gravemente. Preciso levá-lo ao hospital."
Passei por ela e entrei no nosso quarto. A porta do closet estava entreaberta. Quando fui pegar minha carteira na cômoda, ouvi vozes baixas vindo de lá. A voz de Juliana e a de Pedro.
Parei, o coração martelando no peito. O que eles estavam fazendo juntos no meu closet?
Aproximei-me em silêncio, o corpo tenso. A fresta da porta me dava uma visão parcial. Juliana estava nos braços de Pedro. Seus corpos estavam pressionados um contra o outro, e eles se beijavam. Não era um beijo simples. Era um beijo desesperado, faminto, cúmplice.
Fiquei paralisado, o ar faltando nos meus pulmões. O som do choro de Joãozinho, lá embaixo, parecia vir de outro mundo. Minha esposa e meu melhor amigo. No meu quarto. Enquanto uma criança, meu suposto filho, estava com o braço quebrado no andar de baixo por culpa deles.
O mundo girou. A traição era uma faca cravada no meu peito, torcendo lentamente. E eu tive a terrível sensação de que aquele beijo era apenas a ponta de um iceberg de mentiras e crueldade que estava prestes a afundar a minha vida.
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