
O Segredo de Joãozinho Revelado
Capítulo 3
O beijo deles terminou, mas eles continuaram abraçados no escuro do meu closet, sussurrando. A voz de Juliana era um veneno sibilante, cheia de desprezo.
"Você viu a cara dele? O idiota do Lucas quase teve um ataque. Tudo por causa daquele pirralho inútil."
Meu corpo inteiro gelou. Pirralho inútil. Ela estava falando de Joãozinho.
A voz de Pedro era baixa, conspiratória. "Temos que ter cuidado, Ju. Se ele descobrir tudo…"
"Descobrir o quê? Que o Joãozinho é o filho biológico dele e não aquela aberração do Daniel?"
A frase atingiu meu cérebro como um raio. Eu cambaleei para trás, batendo na parede do corredor. O som fez com que eles se calassem. Tentei processar a informação. Joãozinho… meu filho biológico? Daniel… não era meu filho?
A porta do closet se abriu de repente. Juliana e Pedro me encararam, os rostos pálidos de choque. O cheiro do perfume dela misturado com o suor dele encheu o ar, me causando náuseas.
"Lucas… o que você está fazendo aí?" Juliana gaguejou, tentando recompor a fachada de esposa inocente.
Mas era tarde demais. O véu da minha ingenuidade tinha sido rasgado para sempre.
"O que você disse?" minha voz saiu como um sussurro rouco. "Repete o que você disse."
Pedro tentou intervir. "Cara, você ouviu errado, você está nervoso por causa do menino…"
"Cala a boca!" eu gritei, uma fúria que eu nunca senti na vida subindo pela minha garganta. "Ela. Eu quero que ela repita."
Os olhos de Juliana se estreitaram, a máscara de medo substituída por um brilho de puro ódio. Ela viu que não havia mais como mentir.
"Você ouviu bem" , ela cuspiu as palavras. "Joãozinho é seu filho. Aquele menino doce e fraco que você tanto defende. E o Daniel? O Daniel é meu. Só meu. Trocamos na maternidade."
Cada palavra era um golpe. Trocados na maternidade. A cena se formou na minha mente: Juliana, Pedro, um hospital, dois bebês. Um plano monstruoso nascido da ambição e da inveja.
"Por quê?" eu consegui perguntar, a dor tão intensa que era física.
"Por que?" ela riu, uma risada sem humor, cruel. "Porque você é fraco, Lucas! Você é um homem complacente, fácil de manipular. Eu precisava garantir que o meu filho, o Daniel, tivesse tudo. A sua fortuna, o seu nome. E o seu filho biológico? Ele era um empecilho. Um erro."
Pedro acrescentou, a inveja pingando de sua voz. "Você sempre teve tudo, Lucas. A carreira, o dinheiro, a vida fácil. Eu merecia um pedaço disso. Juliana e eu planejamos tudo. O teste de DNA falso foi a parte mais fácil. Você acredita em qualquer coisa."
A verdade sobre o tratamento que davam a Joãozinho agora fazia um sentido terrível. Os maus-tratos constantes, o desprezo, a "brincadeira" perigosa. Eles não estavam apenas sendo cruéis com o filho do meu amigo. Eles estavam torturando meu próprio filho. Meu filho biológico.
"E tem mais, meu amor" , Juliana continuou, saboreando cada palavra. "Sabe por que não tivemos mais filhos? Porque eu tenho colocado um remedinho na sua comida há anos. Algo para te deixar estéril. Eu não podia arriscar que você tivesse outro herdeiro legítimo, não é?"
Envenenado. Esterilizado. Enganado. Traído. Cada revelação era uma nova camada de inferno. Olhei para o rosto de Juliana, a mulher com quem eu dividi a cama por dezessete anos, e não vi nada além de um monstro. Olhei para Pedro, o homem que eu chamei de irmão, e vi um parasita venenoso.
Lá embaixo, o choro de Joãozinho tinha parado. Um silêncio mortal tomou conta da casa.
Um pressentimento horrível tomou conta de mim.
Empurrei os dois para o lado e desci as escadas correndo, tropeçando nos degraus.
"Joãozinho?"
Ele não estava no sofá onde eu o deixara. A porta dos fundos, que dava para o quintal, estava aberta. Corri para fora.
E então eu o vi.
Ele estava caído no fundo da piscina.
Daniel estava na beirada, olhando para a água com uma expressão vazia.
Juliana apareceu atrás de mim, no topo da escada da varanda. Ela não gritou. Ela não correu. Ela apenas observou, com uma calma assustadora.
"O que aconteceu?" eu gritei para Daniel.
"Ele… ele disse que queria pegar a bola… e caiu" , Daniel murmurou, sem me olhar nos olhos.
Eu pulei na água sem pensar. A água gelada foi um choque, mas nada comparado ao choque de tocar o corpo pequeno e inerte de Joãozinho. Eu o puxei para fora da piscina, o coloquei na grama.
"Respira, filho, respira!" eu gritava, fazendo massagem cardíaca, tentando desesperadamente soprar vida de volta para aquele peito pequeno. "Papai está aqui, Joãozinho! Papai está aqui!"
Mas não havia resposta. Seus olhos, antes tão grandes e expressivos, estavam vidrados, vazios. Sua pele estava fria.
Foi então que eu vi. Na mãozinha fechada dele, um pedaço de tecido. O mesmo tecido do vestido que Juliana estava usando.
Levantei a cabeça e olhei para ela. Nossos olhares se cruzaram. E no rosto dela, eu não vi pânico ou tristeza. Eu vi triunfo. Um sorriso sutil e vitorioso.
Ela o tinha empurrado.
Depois de tudo, depois de toda a crueldade, ela tinha dado o golpe final. Ela tinha matado meu filho.
Um grito saiu da minha alma, um som animalesco de pura dor e perda. A dor era tão avassaladora, tão completa, que o mundo inteiro se tornou preto. Meu filho, meu verdadeiro filho, estava morto nos meus braços, assassinado pela mulher que eu amava e pelo homem que eu chamava de amigo.
Naquele momento, o Lucas gentil e complacente morreu junto com Joãozinho. E em seu lugar, nasceu um homem consumido por um único propósito: justiça.
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