
O Segredo da Cama Deles
Capítulo 2
A música alta do salão de festas parecia vibrar dentro da minha cabeça, mas o meu mundo estava em silêncio.
No telão gigante, onde deveria passar um vídeo comemorativo dos dez anos da empresa de Ricardo, meu marido, a imagem era outra.
Era Ricardo, sim, mas não comigo.
Ele estava na nossa cama, a mesma cama onde dormíamos todas as noites, e nos braços dele estava Júlia, minha assistente.
A cena era explícita, vergonhosa.
Os sussurros começaram imediatamente, se espalhando pelo salão como um incêndio.
Todos os olhos, antes no telão, agora estavam em mim.
Eram olhares de pena, de zombaria, de curiosidade mórbida.
Eu senti o rosto queimar. Humilhação. Era isso que eles queriam que eu sentisse.
Fiquei parada, segurando a taça de champanhe, e meus dedos ficaram brancos de tanta força que eu fazia.
Eu não tremi. Eu não chorei.
Apenas observei a cena no telão, o rosto de Ricardo contorcido de prazer, os sons que saíam da boca dele.
Girei o corpo lentamente, procurando por ele no meio da multidão.
Ele estava perto do palco, o rosto pálido como um fantasma, os olhos arregalados de pânico.
Ele me viu.
Ele começou a andar na minha direção, abrindo caminho entre os convidados, a boca se movendo sem som.
Eu levantei a mão, um gesto simples para que ele parasse.
Ele parou.
Eu caminhei com calma até a mesa de bebidas, ignorei os olhares e os murmúrios.
Peguei a garrafa mais cara de uísque, uma que Ricardo guardava para ocasiões especiais.
Andei até o centro do salão, bem debaixo do telão onde a traição dele ainda passava em loop.
Abri a garrafa.
O cheiro forte do álcool invadiu o ar.
Sem dizer uma palavra, derramei o líquido dourado sobre o meu vestido de alta-costura, o mesmo que ele elogiou tanto antes de sairmos de casa.
O tecido caro ficou encharcado, pesado.
Então, peguei um isqueiro do bolso de um garçom que passava assustado.
Eu o acendi.
A pequena chama dançou na frente dos meus olhos.
Olhei diretamente para Ricardo, que agora corria desesperadamente na minha direção, gritando meu nome.
"Laura! Não!"
Eu sorri, um sorriso frio, e deixei o isqueiro cair.
O fogo subiu pelo meu vestido instantaneamente, uma labareda laranja e azul que me abraçou.
O calor era intenso, mas a dor da queimadura não era nada comparada à dor que eu sentia por dentro.
Gritos de pânico encheram o salão.
As pessoas correram, tropeçando umas nas outras.
Ricardo finalmente me alcançou, tentando apagar o fogo com o próprio paletó, o rosto desfigurado pelo terror.
"Você ficou louca? Laura, o que você fez?"
Eu o empurrei para longe com toda a força que me restava.
"Fique longe de mim."
Seguranças chegaram com extintores e um jato de pó químico branco cobriu meu corpo, apagando as chamas.
A fumaça tinha um cheiro horrível.
Meu vestido estava destruído, minha pele ardia.
Mas eu estava de pé. E eu estava livre.
No hospital, horas depois, o cheiro de antisséptico era quase tão ruim quanto o da fumaça.
Ricardo estava sentado ao meu lado, segurando minha mão. Eu a puxei de volta.
Ele não pareceu notar.
"Laura, me perdoa. Aquilo... aquilo não foi nada. Foi um erro, um momento de fraqueza."
A voz dele era um sussurro, cheia de uma falsa sinceridade que me dava náuseas.
"Não foi nada?"
Minha voz saiu rouca, arranhada.
"Você estava com a minha assistente, na nossa cama, Ricardo. E o mundo inteiro viu. Você chama isso de 'nada'?"
"Júlia me seduziu, ela armou tudo isso! Você não vê? Ela queria nos destruir!"
Ele tentava se justificar, colocar a culpa em qualquer um, menos nele mesmo. A mesma história de sempre.
Eu olhei para o teto branco do quarto do hospital.
Meu corpo doía, mas minha mente estava clara pela primeira vez em muito tempo.
"Eu não me importo com as desculpas dela, ou com as suas."
"Laura, por favor. Pense em tudo que construímos juntos. Dez anos. Você vai jogar tudo fora por causa de um deslize?"
Ele tentou usar a chantagem emocional, o peso dos anos que passamos juntos.
Mas esse peso tinha acabado de virar cinzas junto com o meu vestido.
"Um deslize?"
Eu ri, um som seco e sem alegria.
"Não, Ricardo. Isso não foi um deslize. Foi uma escolha. E agora eu estou fazendo a minha."
Ele continuou falando, implorando, prometendo mundos e fundos.
Dizia que me amava, que eu era a única mulher da vida dele, que Júlia era uma ninguém, um passatempo insignificante.
Cada palavra era como veneno.
Ele se humilhava, chorava, mas eu não sentia nada.
Nenhuma pena. Nenhuma raiva. Apenas um vazio gelado.
Ele era patético.
"Ricardo," eu o interrompi, minha voz firme.
Ele parou de falar, os olhos vermelhos e inchados fixos em mim, cheios de uma esperança desesperada.
Eu olhei diretamente para ele, para o homem com quem dividi minha vida por uma década.
"Acabou."
A palavra ficou suspensa no ar, pequena, mas com o peso de uma sentença final.
Ele ficou pálido, a boca se abriu e fechou.
"O quê? Não... você não pode estar falando sério. Laura, é o choque, a dor... você não está pensando direito."
"Pelo contrário. Estou pensando com mais clareza do que nunca."
Ele se levantou, andando de um lado para o outro no pequeno quarto.
"Isso é ridículo! Você queimou um vestido de cinquenta mil reais! Você fez um escândalo na frente de todos os meus sócios! E agora quer terminar? Por quê? Para me punir?"
A raiva dele estava vindo à tona, a verdadeira face dele aparecendo por trás da máscara de arrependimento.
Ele não estava triste por ter me traído. Ele estava furioso por ter sido pego.
"Eu não estou te punindo, Ricardo. Estou me libertando."
Eu me ajeitei na cama, a pele das minhas pernas e braços protestando com uma dor aguda.
Ignorei a dor.
"Eu quero o divórcio."
A frase final. O ponto final.
Ele parou de andar e me encarou, uma expressão de pura incredulidade no rosto.
"Divórcio? Você só pode estar brincando."
Ele riu, um som sem humor.
"Nós não vamos nos divorciar. Você é minha esposa."
"Não por muito tempo."
Eu fechei os olhos, sinalizando que a conversa havia terminado.
Eu podia ouvi-lo respirando pesadamente, uma mistura de raiva e pânico.
Depois de um longo silêncio, ouvi seus passos se afastando e a porta do quarto se fechando.
Sozinha, eu finalmente deixei o ar sair dos meus pulmões.
Não era um suspiro de tristeza.
Era um suspiro de alívio.
A guerra estava apenas começando, eu sabia. Mas eu já tinha vencido a primeira batalha.
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