
O Segredo da Cama Deles
Capítulo 3
Ricardo não aceitou o divórcio.
Nos dias que se seguiram, ele agiu como se minha decisão fosse um capricho passageiro, um drama que logo acabaria.
Ele me ligava dezenas de vezes por dia.
Mandava flores para o hospital.
Deixava mensagens de voz longas e chorosas.
Eu não atendi nenhuma ligação, joguei as flores no lixo e apaguei as mensagens sem ouvir.
Quando finalmente tive alta, com as pernas e braços enfaixados, ele estava me esperando na porta do hospital.
"Vamos para casa, meu amor," ele disse, tentando pegar minha bolsa.
Eu me afastei.
"Eu não vou para casa com você, Ricardo. Eu vou para um hotel."
"Um hotel? Não seja ridícula, Laura. Sua casa é comigo."
"Aquela não é mais a minha casa."
A discussão começou ali mesmo, na calçada do hospital.
Ele se recusava a entender.
"Eu não vou te dar o divórcio," ele disse, a mandíbula travada. "Você é minha. Sempre foi."
"Eu não sou um objeto que você possui, Ricardo. Eu sou uma pessoa. E essa pessoa não te quer mais."
"Você está sendo influenciada. Alguém colocou essas ideias na sua cabeça!"
A teimosia dele era inacreditável.
Ele não conseguia conceber um mundo onde ele não estivesse no controle.
Percebendo que a discussão não levaria a lugar nenhum, ele mudou de tática.
"Tudo bem," ele disse, com uma calma forçada. "Se você não quer ir para casa, vamos para a casa dos meus pais. Minha mãe está louca para te ver, para cuidar de você."
Meu estômago gelou.
Ir para a casa dos pais dele era a pior coisa que poderia acontecer.
Sônia, minha sogra, sempre me odiou.
Ela me via como a mulher que roubou seu filho precioso.
"Não, obrigada. Eu prefiro o hotel."
"Laura, por favor. Faça isso por mim. Faça isso pela minha mãe. O coração dela está partido com tudo isso."
Era uma armadilha, eu sabia. Mas eu estava cansada, com dor, e só queria que aquele dia terminasse.
"Tudo bem," eu cedi. "Mas só por hoje."
Um sorriso vitorioso brilhou nos olhos dele.
A casa dos pais de Ricardo era uma mansão opressora, cheia de móveis escuros e retratos de família que pareciam me julgar.
Sônia me recebeu com um abraço frio e um olhar crítico sobre as minhas bandagens.
"Minha pobre menina," ela disse, a voz pingando uma falsa simpatia. "O que aquele monstro fez com você?"
Eu pensei que ela estivesse falando de Ricardo. Eu estava errada.
"Não se preocupe," ela continuou, me guiando para a sala de estar, onde meu sogro, Alberto, lia um jornal e nem levantou a cabeça. "Ricardo já me contou tudo. Aquela vagabunda da sua assistente armou tudo para te separar do meu filho."
Eu parei no meio da sala.
"Com licença?"
"Sim," ela disse, com a maior naturalidade. "É óbvio que foi uma armação. Ricardo te ama mais que tudo. Ele jamais faria algo para te magoar."
Eu olhei para Ricardo, que estava parado perto da porta, evitando meu olhar.
Ele tinha envenenado a mente dos pais contra mim antes mesmo de eu chegar.
"Sônia," eu disse, a voz calma, mas firme. "Ricardo me traiu. Eu vi com meus próprios olhos. Todos viram."
O rosto dela se fechou.
A máscara de simpatia caiu, revelando a mulher dura e controladora que ela realmente era.
"Você não ouse falar assim do meu filho na minha casa! Depois de tudo que ele faz por você! Ele te dá uma vida de rainha, te enche de luxos, e é assim que você agradece? Fazendo um escândalo e o humilhando publicamente?"
A voz dela subiu de tom a cada palavra.
"O escândalo foi ele quem fez, não eu."
"Ingrata! Você sempre foi uma ingrata! Eu disse ao Ricardo desde o início que você não era a mulher certa para ele!"
A raiva me sufocou. Eu não ia ficar ali para ser insultada.
"Chega," eu disse, me virando para sair. "Eu vou embora."
Eu dei um passo em direção à porta, mas uma mão agarrou meu braço com força, bem em cima de uma das queimaduras.
A dor foi como uma facada.
Eu gritei e me virei.
Era Sônia. Seus olhos brilhavam de ódio.
"Você não vai a lugar nenhum!"
No instante seguinte, a mão dela voou e atingiu meu rosto com força.
O tapa estalou no silêncio da sala.
Minha cabeça girou, e por um segundo, tudo ficou escuro.
O choque foi tão grande quanto a dor física.
Uma mãe defendendo o filho traidor a ponto de agredir a nora ferida.
Era doentio.
"Mãe! O que você está fazendo?"
Ricardo correu até nós, finalmente reagindo.
Ele segurou os braços de Sônia, a afastando de mim.
"Ela estava me desrespeitando, Ricardo! Ela estava te acusando!" Sônia gritava, tentando se soltar.
"Eu sei, mãe, eu sei, mas não assim! Se acalme!"
Ele a segurava, mas suas palavras eram para ela. Ele não olhou para mim. Ele não perguntou se eu estava bem.
Ele estava apenas controlando a situação, atuando como o filho apaziguador.
Era tudo um show.
Eu olhei para a cena, para a mãe e o filho, e senti um nojo profundo.
Eles eram a mesma pessoa. Manipuladores, egoístas, cruéis.
Com a mão no meu rosto, que ardia tanto quanto minhas queimaduras, eu me afastei deles.
"Não toque em mim," eu disse, a voz baixa e cheia de repulsa, quando Ricardo tentou se aproximar.
Ele parou, a mão no ar.
"Laura, me desculpe pela minha mãe. Ela está nervosa..."
"Não," eu o cortei. "Não há desculpas para isso. Vocês são doentes."
Eu olhei de Sônia para Ricardo, e depois para Alberto, que finalmente tinha baixado o jornal e nos observava com uma expressão de desinteresse.
Uma família feliz.
Eu dei as costas para eles e caminhei para fora daquela casa, sem olhar para trás.
Cada passo doía, mas cada passo me levava para mais longe daquele inferno.
Eu não peguei um táxi. Eu continuei andando, sem rumo, o som do tapa ainda ecoando nos meus ouvidos.
Eu precisava colocar o máximo de distância possível entre mim e eles.
Eu não tinha para onde ir, mas sabia de uma coisa: eu nunca mais voltaria.
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