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Capa do romance O Secretário

O Secretário

Débora, uma executiva de sucesso, decide contratar um secretário para gerenciar sua vida pessoal, inspirada por uma ideia divertida. No entanto, sua busca toma um rumo inesperado quando Christopher Traig surge para a vaga. O impacto é imediato e avassalador, transformando a relação profissional em um dilema emocional. Embora ele a trate com extrema dedicação, o amor parece fora de alcance, deixando Débora vulnerável à sedução e aos desejos de seu próprio coração.
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Capítulo 2

O trânsito naquele final de tarde estava péssimo. Débora teve a impressão de que jamais chegaria em casa. Mas não ficou irritada, como sempre acontecia, pois assim ganharia tempo para se acostumar com a idéia de encontrar um homem fazendo as tarefas em sua casa. Quanto mais demorasse, melhor!

De repente, ela sentiu o coração bater mais forte e as palmas das mãos ficaram úmidas, como uma adolescente tola que vai ao encontro do primeiro namorado.

Que tipo de homem seria esse tal Christopher Traig? Certamente um viúvo ou um divorciado que queria continuar aproveitando o conforto de uma casa e de uma companhia feminina, sem qualquer ligação afetiva. Uma pessoa estranha...

Mas não devia entrar em pânico, pensou. Uma vez que havia se arrependido de ter um secretário particular, tudo o que tinha a fazer era desfazer-se dele. Na manhã seguinte, ligaria para Ingrid e inventaria uma desculpa qualquer, para se livrar daquela bobagem.

Quando entrou na rua de sua casa, já estava mais calma, com a mente voltada para o dia seguinte, que seria repleto de compromissos.

Ao se aproximar dos imensos portões de ferro, olhou com orgulho a mansão que pertencia aos Dominick há séculos. Lo¬calizada num dos bairros mais nobres da cidade, destacava-se das demais por estar no topo de uma colina rodeada por um extenso gramado, muito bem cuidado.

A casa, toda revestida de tijolos aparentes, realçados pelas imensas colunas brancas, retratava bem o estilo americano de algumas épocas anteriores; por dentro, a mansão era também magnífica. O chão coberto por tapetes persas, as paredes re¬pletas de telas famosas que fariam inveja a qualquer cole¬cionador.

Débora seguiu pela alameda de ciprestes contemplando o imenso jardim de flores. Era um belo lugar mas lhe parecia gran¬de demais depois que seu pai morrera. Graças ao trabalho que lhe absorvia todo o tempo, não havia se sentido tão sozinha.

E pelo menos naquela noite não estaria sozinha. O novo "se¬cretário", na certa, estaria esperando-a com o jantar pronto e um sorriso nos lábios...

Quando entrou na sala, Débora sentiu o aroma de carne as¬sada vindo da cozinha. Notou que tudo estava limpo e no lu¬gar. "Bem, pelo menos para alguma coisa a brincadeira havia servido", pensou.

Mas, assim que chegou na cozinha, encostou-se na porta, es¬pantada e surpresa ao mesmo tempo. Ela esperava encontrar um homem atarracado, feio, nunca... O rapaz a sua frente pa¬recia ter saído das telas do cinema!

Passado o choque, Débora sentou-se numa cadeira e, respi¬rando fundo, estudou melhor seu novo empregado. Ele vestia uma camiseta listrada, azul e branca, e um jeans justo, que de¬lineava de forma provocante os músculos firmes das coxas.

— A senhorita deve ser Débora Dominíck, não? — pergun¬tou ele, com naturalidade.

— Sim... eu...

Ora, por que estava tão constrangida? Afinal ele era apenas um homem como outro qualquer.

— Eu sou Christopher Traig. Prazer em conhecê-la.

Débora sentiu-se hipnotizada por aqueles olhos azuis quan¬do estendeu-lhe a mão. Christopher tinha uma beleza rara. Os cabelos castanhos tinham, aqui e ali, um brilho dourado que destacava ainda mais o olhar e o sorriso.

— Bem, posso ver que você já está se sentindo em casa — comentou ela, puxando a mão e procurando mostrar-se natural.

— Bem... estou cumprindo minha obrigação, Débora... Devo chamá-la assim, não? Fui contratado como seu secretário par¬ticular, e, numa relação tão próxima, as pessoas costumam se tratar pelo primeiro nome.

— Eu disse a Ingrid que precisava de um funcionário que resolvesse os problemas aqui em casa. Na realidade, preciso mes¬mo é de uma... empregada.

— Pelo que entendi, você quer um secretário particular muito especial, que cuide de todas as tarefas aborrecidas de uma casa e de você — completou ele. — Não é fácil encontrar alguém assim...

Irritada, ela percebeu que ele se divertia à sua custa. Então resolveu ser tão cínica quanto ele.

— Não seria tão difícil se eu fosse um homem. Não é isso que um homem espera de sua esposa?

— Na minha opinião, um homem espera muito mais do que isso — respondeu ele, com um brilho malicioso no olhar.

Agora ele tinha ido longe demais, Havia chegado o momen¬to de por um ponto final naquela história. Afinal, ele estava ali apenas para servi-la e não para opinar.

— Já lhe disse que me expressei mal quando falei com In¬grid. Estou percebendo que para aceitar um emprego destes, você deveria ter outras coisas em mente.

— Ora, você nem me conhece e já está fazendo suposições! Não se preocupe, não estou com segundas intenções. Vim aqui para trabalhar e é só o que me interessa.

—- Sinto muito se me precipitei. Desculpe. Amigos?

— Amigos — respondeu ele, estendendo-lhe a mão. Christopher Traig provara que, além de ser muito atraente, era inteligente e misterioso. Débora ainda não se convencera de que ele estava mesmo interessado em ser seu secretário par¬ticular. Havia alguma coisa estranha nele, e a razão a aconse¬lhava a manter-se distante.

— Em que está pensando agora?

— Estava apenas imaginando o que o levou a aceitar este emprego.

— Decidi aceitar um desafio.

— E por acaso é um desafio trabalhar para uma mulher?

— Se fosse outra mulher qualquer, não, mas você é diferente.

— Eu? Como você pode saber se acabamos de nos conhecer?

— Acontece que Débora Dominick é uma das mulheres mais famosas no mundo dos negócios. Quando vi a chance de conhecê-la melhor, não quis perdê-la.

— Não me diga que você é um daqueles repórteres bis¬bilhoteiros.

— Não. — Christopher cruzou os dedos sobre os lábios. — Juro que não!

Débora teve vontade de perguntar: "Então quem é você?", mas antes que pudesse falar algo, ele lhe deu as costas, dizendo:

— Vou cuidar do jantar, senão acabarei sendo despedido no primeiro dia.

— Por falar em jantar, gostaria que me servisse antes um drinque no terraço.

— Um martíni seco?

— Como é que você sabe?

— Apenas intuição. Ao sair da cozinha, Débora quase tropeçou em Bosun, que estava adormecido perto do seu pratinho. Bem, mais um pon¬to a favor de Christopher. Pelo menos, ele havia se lembrado de alimentar o cão. Millie jamais teria dado um segundo de aten¬ção a ele.

Dirigiu-se, então, para o quarto e teve outra surpresa.

Seu robe verde escuro e as sandálias baixas estavam perto da cama. Como é que ele havia adivinhado seus hábitos quando chegava em casa?

Millie também deixava o robe para ela vestir e isso nunca a deixara constrangida. Mas pensar em Christopher mexendo em suas roupas não a agradava muito. Mesmo assim, agora que o conhecera, pretendia levar avante aquela idéia maluca.

Christopher preparava os drinques quando ela desceu. E não escondeu a admiração ao vê- Ia vestida mais à vontade, sem ma-quilagem e com parte das pernas bronzeadas à mostra.

— Você não me acompanha? — perguntou ela, quando ele lhe estendeu o copo.

— Obrigado. Preciso terminar os pratos. Não sabia a que horas você costuma jantar, por isso deixei tudo mais ou menos encaminhado. Posso servir às oito?

— Para mim está ótimo.

Débora teria que se habituar com isso também. Desde que seu pai falecera ela deixara de jantar, contentando-se com san¬duíches ou uma carne fria que Millie preparava. Mas não seria nada mal voltar aos velhos hábitos.

— Bem, então com licença. Vou voltar ao trabalho. Débora sentiu a sala estranhamente vazia quando ele saiu.

Estavam juntos há apenas algumas horas, mas tinha a sensa¬ção de que o conhecia há muito tempo.

"Cuidado, Débora!", disse a si mesma. Christopher era um homem surpreendente, capaz de virar a cabeça de qualquer mu¬lher. Contratara-o apenas para simplificar sua vida e não complicá-la ainda mais. Uma paixão inesperada, a essa altura dos acontecimentos, seria o caos!

— Débora, o jantar está servido.

Quando entrou na sala de jantar, viu apenas um prato à me¬sa e protestou!

— Não, senhor, faço questão que se sente à mesa comigo.

— Estava com receio de ter que experimentar minha comi¬da — brincou ele.

— Os falsos modestos são os que cozinham melhor.

Ela não acreditava nos próprios olhos quando Christopher trouxe os pratos. O principal era o seu favorito: escalope de vitela com champignon, aspargos e molho bearnaise, servidos com vinho.

— Arrependo-me de não tê-lo contratado antes — comen¬tou Débora.

— É bom cozinhar para quem gosta de comer.

— Você está sendo delicado, sou muito gulosa.

"Enquanto comiam, os dois conversaram animadamente so¬bre diversos assuntos. E Débora vibrou como uma criança na hora da sobremesa: creme zabaione com licor.

Débora convidou-o para um conhaque no terraço. Já nem se lembrava mais do dia atarefado que teria pela frente. O vi¬nho e a companhia agradável de Christopher a haviam deixado calma e relaxada.

— Diga-me uma coisa: onde aprendeu a cozinhar tão bem?

— Com a minha mãe. Ela sempre achou que eu devia estar preparado para tudo na vida.

— Você teve sorte em contar com alguém que se preocupas¬se tanto com você.

— E você não teve?

— Minha mãe morreu quando nasci e meu pai era um in¬dustrial muito atarefado. Nunca sobrava muito tempo para mim. Nas poucas horas que passávamos juntos, discutíamos os ba¬lanços, analisávamos as tendências do mercado, os investimen¬tos. Com ele, aprendi tudo que conheço hoje sobre os negócios.

— Pobre menina rica...

— Acho que você está enganado. Acho que apenas fui cria¬da de uma forma diferente que a maioria das moças — protestou.

— E você culpa seu pai por isso?

— Não, claro que não. Aliás, nem posso reclamar, sempre tive tudo que quis.

— Inclusive o prêmio Walter Burley Griffin... Débora olhou-o surpresa

— Como é que soube?

— Ora, eu estive viajando, mas nunca deixei de ler os jor¬nais. Sua idéia do Centro Empresarial foi mesmo genial.

— Ainda bem que os juizes acharam o mesmo. Parece que você entende um pouco de tudo isso. Já trabalhou em alguma indústria?

— Sou arquiteto — admitiu ele, meio relutante. Não exerço a profissão há muitos anos. Sempre trabalhei na parte mais... administrativa, digamos. Passei a maior parte da minha vida no exterior.

— Entendo. E quando voltou para a Austrália não conse¬guiu emprego no seu ramo. É isso? Talvez eu possa ajudá-lo.

— Não, obrigado. Não quero que faça nada por mim. De repente, Christopher tornara-se ríspido, mas ela preferiu ignorar aquela reação.

— Ou melhor, você quer dizer que não aceita a ajuda de uma mulher, não é?

— Pode-se dizer que sim — respondeu ele, enchendo de no¬vo os dois copos.

Vendo-o de cabeça baixa, Débora teve uma vontade inespe¬rada de acariciar-lhe os cabelos. De repente ele parecia amar¬gurado, alguém que precisava de conforto. Agora entendia me¬lhor porque ele estava ali. Quando ficara desempregado, Chris¬topher provavelmente resolvera tentar a sorte em outro lugar. E como não dera certo, voltara ao seu país. Numa atitude im¬pulsiva decidiu aceitar o primeiro emprego que lhe ofereceram que, por acaso, tinha sido na casa dela.

Não seria isso uma obra do destino? Apesar de ele recusar a sua ajuda, pretendia encontrar uma maneira de fazê-lo vol¬tar a exercer sua profissão. Haveria, com certeza, lugar para mais um arquiteto em sua empresa.

Estranho... Era tão raro sentir uma simpatia tão grande à primeira vista! Mas Christopher parecia especial, próximo, o tipo de pessoa que desperta interesse.

Perdeu-se em seus pensamentos e, quando caiu em si, perce¬beu que ele a fitava intensamente. Sentiu as faces arderem.

— Posso saber no que está pensando?

— Estava só pensando em como as mulheres são injustiçadas — mentiu, disfarçando o embaraço. — Os homens trabalham fora e têm uma esposa para administrar a casa. As mu¬lheres, mesmo trabalhando fora, como eu, precisam ainda pensar nas tarefas de casa, o que é tão árduo e desgastante quanto pre¬sidir uma empresa. Meu pai esqueceu-se de me preparar para este lado da vida...

Ao mencionar o pai, Débora percebeu que Christopher con¬traíra o rosto, desviando o olhar.

__ Você conheceu meu pai, Christopher?

__ Sim, eu o conheci — respondeu, levantando-se quase no mesmo instante. — Acho melhor eu dar um jeito nessa bagun¬ça. Ah, ia me esquecendo, já preparei seu banho.

Débora espantou-se com a mudança brusca no comportamen¬to dele. Christopher deveria ter alguma coisa contra Andrew Dominick. Mas o quê? Se tinha, por que então ele estaria tra¬balhando para ela?

Ansiosa para descobrir o que estava por trás daquele olhar misterioso, ela o seguiu até a cozinha.

— Você tem alguma coisa contra meu pai? — insistiu.

— Seu pai? Não é claro que não. Por que a pergunta?

— Oh, esqueça. Foi só uma idéia tola que me passou pela cabeça.

Apesar da negativa, Débora sentiu que Christopher escon¬dia alguma coisa. Na manhã seguinte, telefonaria para Ingrid e obteria todas as informações possíveis sobre o misterioso Chris¬topher Traig.

No momento, não iria se preocupar com mais nada, para não estragar a hora do banho relaxante.

A suíte de Débora era a maior da casa. No primeiro cômo¬do, uma cama de casal ocupava o centro. Para completar a de¬coração havia a pequena mesa de cabeceira e uma penteadeira antiga, que pertencera à sua bisavó. Entre o quarto e o banhei¬ro, ficava um closet, com armários de portas de vidro. Os sa¬patos tinham lugar de destaque numa sapateira com divisões também de vidro.

Débora havia mandado reformar o banheiro. O ambiente moderno, com uma enorme banheira de hidromassagem e um pe¬queno jardim de inverno, contrastava com o estilo conserva¬dor do resto da casa.

Com os cabelos presos num coque, Débora deixou cair o robe no chão e foi se afundando lentamente na água espumante e cheirosa, deixando apenas os ombros de fora.

Aos poucos a tensão abandonava o corpo de Débora, que relaxava sob a ação dos jatos de água quente. Estava quase dor¬mindo, quando Christopher entrou no banheiro com uma es¬ponja e um vidro de óleo na mão.

Sem dizer nada, ele ajoelhou-se ao lado da banheira e dimi¬nuiu a intensidade dos jatos de água. Assustada, Débora abriu a boca para repreendê-lo, mas emsudeceu ao sentir a pele arder ao toque das mãos dele.

Ele lhe massageava as costas com o óleo, que escorria como água gelada na pele em chamas. Como Christopher conseguia se manter tão indiferente, enquanto ela sentia o desejo invadi-la de forma avassaladora?

— Acho que você está levando esta brincadeira longe demais — comentou ela, nervosa. — Que óleo é este?

— É um composto de ervas e serve para relaxar músculos tensos.

Débora jamais sentira sensações como aquelas. As mãos de¬le deslizavam em suas costas, despertando o prazer contido ha¬via muito tempo. Esforçou-se para permanecer indiferente àque¬les toques, mas seu corpo a traía, estremecendo por inteiro. Quando ele tomou-lhe os seios, ela não resistiu e soltou um ge¬mido de prazer, afastando-se em seguida.

— Não seja boba, estou apenas tentando fazê-la relaxar um pouco — disse e, afastando-lhe as mãos com que Débora ten¬tava proteger o corpo, continuou com a massagem.

— Este óleo não sai na água? — perguntou, para disfarçar o embaraço.

— Não, foi feito especialmente para ser usado na água. Como que hipnotizada, ela recostou a cabeça na banheira e permitiu que Christopher continuasse. Mas seria impossível re¬laxar- pelo contrário, ele a estava deixando ainda mais tensa.

Débora fechou os olhos, como se assim fugisse um pouco da situação. Mas sua atenção acabou se concentrando ainda mais naquelas mãos deslizando suavemente sobre ela, num ritmo cal¬culado, profissional.

Será que ele não sentia nada ao acariciá-la daquela forma? Perguntou-se ela, perturbada. "Claro que não" — respondeu a si mesma, compreendendo que ele cumpria o seu papel: agia como um profissional. Ela é que não estava encarando as coi¬sas com naturalidade.

__ Quando ele passou a esponja em suas coxas, movendo-a com movimentos circulares bem lentos, Débora resolveu dar um basta naquilo. Não conseguiria representar mais.

— Acho que já estou mais relaxada. Podemos parar com isso.

— Você está corada! Talvez a água esteja muito quente. Christopher não era tão ingênuo a ponto de não desconfiar do que estava acontecendo. E, se aquilo era um jogo, ela não entregaria os pontos logo na primeira partida.

— Você está fazendo isso de propósito, não é?

— Não, estou só cumprindo a minha obrigação.

— Ora, não seja cínico. Você está querendo provar seu po¬der sobre mim. — Débora saiu da banheira e vestiu o robe, não se importando nem um pouco em aparecer nua diante dele. — Quer saber de uma coisa? Estou cansada de você. Saia da¬qui, por favor.

Para seu espanto, Christopher nada respondeu. Virou as cos¬tas e saiu sem dizer nada. Se ao menos ele tivesse tentado se defender, poderiam ter discutido e ela descobriria por que ele a provocava daquela maneira.

Mas o silêncio de Christopher havia sido calculado. Reafir¬mava a segurança dele e negava-lhe a chance de sair de sua po¬rção, naquele momento, vulnerável demais!

Na manhã seguinte, Débora não teve tempo de investigar a respeito de Christopher, como pretendia. E nem nas semanas seguintes, pois as obras do Centro Empresarial tomaram-lhè todo o tempo.

Durante esse período, Christopher comportou-se de manei¬ra impecável, sem criar situações embaraçosas. Agia como um simples empregado, respeitando a privacidade da patroa.

E ele provou ser tão útil que Débora não conseguia imaginar como sobrevivera tanto tempo sem ele. Christopher era perfei¬to em tudo. A casa estava sempre impecável, com rosas espa¬lhadas pelos vasos, alegrando o ambiente. E a comida era deli¬ciosa. O mais importante é que dedicava-se a ela em tempo in¬tegral. Pela primeira vez na vida, alguém se preocupava tanto com ela. Era confortante saber que, ao chegar em casa, ele a estaria esperando com um drinque antes do jantar. Freqüente¬mente ela se flagrava ansiosa por deixar o trabalho e ir para casa.

Desde a primeira noite, quando ela insistira em que ele a acom¬panhasse nas refeições, Christopher fazia-lhe companhia. As¬sim, mesmo após um dia estafante, Débora sentia-se feliz com a perspectiva de horas de agradável conversa e distração.

Naquela noite, Christopher estava muito atraente, com uma calça de linho branco e uma camiseta azul-marinho.

— E então, Débora, como foi seu dia?

— Você me pergunta isso todas as noites. É por obrigação ou quer mesmo saber?

— Mas é lógico que quero. Tudo que lhe diz respeito me in¬teressa — ele respondeu sem titubear e Débora não duvidou de sua sinceridade. Contou-lhe, então, os progressos das obras do Centro Empresarial, o maior projeto que já havia realizado. Um sonho que se tornava realidade.

De vez em quando ele a interrompia para discutir sobre um detalhe ou outro.

— Gosto de estar aqui com você — comentou ela pouco de¬pois, sorrindo. — Principalmente porque entende o que estou dizendo e não está me ouvindo apenas para ser simpático.

— Débora,preciso lhe contar uma coisa... — ele falou de repente, com expressão séria.

— Você não está em nenhuma encrenca, não é? — Ela tomou-lhe a mão, num sinal de solidariedade.

— Não é nada disso. Acontece que eu sou... Nesse momento, o telefone tocou, interrompendo-o.

— Acho melhor eu ir atender. — Instantes depois ele voltou anunciando: — É Garth Dangerfield.

— Garth, o que aconteceu? — perguntou ela impaciente que¬rendo retomar logo a conversa com Christopher.

— Estou interrompendo alguma coisa?

— É claro que não. Estava apenas... Ghristopher e eu está¬vamos conversando.

— A voz dele não me é estranha. Eu o conheço?

— Acho que não. Ele acabou de chegar da Europa e veio trabalhar para mim. Mas, o que você queria falar comigo?

Garth falou durante intermináveis minutos sobre um orça¬mento e outros assuntos, que poderiam muito bem ter sido tra¬tados na manhã seguinte. Certamente, ele havia ligado para convidá-la para um drinque, mas desencorajado com a indife¬rença dela devia ter desistido. Estava na hora de Garth parar de se iludir, decidiu ela. Davam-se muito bem profissionalmente, mas... era só.

Ainda pensando numa maneira de desencorajar o colega, vol¬tou à mesa. Christopher já estava tirando os pratos.

— Por que não deixa isto para depois? Estou curiosa para saber o que você ia me contar.

— Não era nada importante, — disse ele, dirigindo-se pa¬ra a cozinha.

Será que ele estava com ciúme? Esse seria um sinal de que começava a gostar dela, e a idéia não a desagradava de forma alguma.

Talvez ela também estivesse apaixonada por ele, embora pre¬terisse não pensar muito nisso. No entanto, tinha de admitir ele a fazia sentir-se diferente e lhe despertava sentimentos que Jamais sentira por alguém.

Minutos depois ele voltou à sala, trazendo o café, mas so¬mente uma xícara.

— Você não vai tomar?

— Não, ainda tenho muito o que fazer.

Antes que ele saísse, Débora levantou-se rápido e segurou-o pelo braço.

— Espere um minuto. Preciso lhe falar a respeito de uma festa... uma festa que pretendo dar daqui a uma semana.

Christopher sentou-se frente a ela e esperou. Seu rosto per¬maneceu impassível, enquanto ela discorria sobre os planos para a reunião.

— Acho que não comemoramos direito o recebimento do prê¬mio. Por isso, gostaria de convidar todos que colaboraram nessa nossa vitória, além de alguns amigos.

— Não tem problema. Quantas pessoas virão? Eu cuido do cardápio.

— Oh, não, você não vai precisar cozinhar. Contratei um bufê e você vai apenas supervisionar o trabalho. Aliás, gosta¬ria que participasse como meu convidado.

Débora esperou ansiosa que ele aceitasse o convite. Seria uma ótima oportunidade para apresentá-lo a alguns empresários que poderiam oferecer-lhe emprego. Além disso, gostava da idéia de estar acompanhada por um homem como Christopher Traig.

— Sinto muito, mas não vou poder ficar.

— Oh, que pena! Posso saber por quê?

— Preciso rever alguns amigos e já que você estará na festa, não vai precisar dos meus serviços.

— Entendo... Você merece uma folga, não posso forçá-lo a participar da festa.

— Obrigado por sua compreensão.

Embora tivesse apresentado um motivo plausível, Débora pro¬gramara a festa com um único intuito: apresentá-lo socialmen¬te. Será que ele tinha percebido e por isso recusara o convite?

Trabalhar para ela já era um emprego incomum, mas apare¬cer em público como uma espécie de marido contratado deve¬ria ser demais para seu orgulho.

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