
O Roteiro da Redenção
Capítulo 2
A vida de Maria Oliveira se desfazia em fragmentos, como um espelho quebrado. Em seus últimos momentos, as memórias passavam rapidamente, cada uma mais dolorosa que a outra, uma torrente de humilhação e desespero que a consumia. Ela se lembrou do brilho nos seus olhos quando foi aclamada como a mais promissora designer de moda de sua geração, uma paixão que foi brutalmente arrancada dela, seu nome agora manchado e sinônimo de escândalo. Ela se lembrou de João Costa, o famoso e genial chef de cozinha, o homem que ela amou com uma devoção cega, um amor que a transformou em uma piada nacional, uma vilã de novela, a sombra perseguidora em seu romance de conto de fadas com a doce e inocente Ana Martins. Cada manchete, cada foto humilhante, cada olhar de desprezo do público, tudo isso a levou à ruína, culminando naquele momento, em uma cama de hospital fria, onde seu corpo finalmente cedia.
Ela amou João por dez anos. Dez anos de uma perseguição unilateral, de um amor não correspondido que a transformou em uma pessoa ressentida e amarga, irreconhecível para si mesma. Sua carreira foi destruída, sua reputação virou pó, e sua família foi arrastada para a lama por causa de sua obsessão. E por quê? Por um homem cujo olhar nunca a viu de verdade, um homem que só tinha olhos para Ana.
Enquanto a escuridão a envolvia, uma voz fria e mecânica, desprovida de qualquer emoção, ecoou em sua mente.
[Ativação do sistema. O enredo da personagem coadjuvante vilã, Maria Oliveira, foi concluído. Causa da morte: falência múltipla de órgãos. Fim da história.]
A voz era um choque elétrico em sua consciência que se desvanecia. Sistema? Personagem coadjuvante vilã? Enredo? De repente, a névoa de dor e confusão se dissipou, substituída por uma clareza aterrorizante. Sua vida inteira, suas paixões, suas dores, seu amor desesperado, nada daquilo era real, era apenas um papel pré-escrito, um roteiro no qual ela era a vilã destinada a realçar a pureza da heroína e o amor do herói. Ela era um degrau para a felicidade de João e Ana. A percepção a atingiu com a força de um golpe físico, e com esse último pensamento amargo, Maria Oliveira fechou os olhos.
Mas em vez da escuridão eterna, ela foi cegada por uma luz forte. Maria piscou, desorientada. O cheiro de desinfetante do hospital desapareceu, substituído pelo perfume suave de lírios, seu favorito. Ela se sentou, o coração batendo descontroladamente. Ela não estava em um hospital, estava em seu apartamento, o luxuoso apartamento que João lhe dera anos atrás como um prêmio de consolação, uma gaiola dourada. O sol da tarde entrava pela janela, iluminando a poeira no ar. Tudo parecia surrealmente familiar.
Seu olhar caiu sobre a mesa de centro de vidro. Sobre ela, um documento e um cheque. O sangue gelou em suas veias. Ela reconheceu aqueles papéis. Era um acordo de rescisão de relacionamento. Um acordo que João lhe oferecera três anos antes da sua "morte", oferecendo-lhe uma quantia generosa para que ela desaparecesse de sua vida e da de Ana para sempre.
Na sua vida passada, a visão daqueles papéis a tinha levado a um acesso de fúria. Ela os rasgou em mil pedaços, gritou com o assistente de João, atirou o cheque no rosto dele e iniciou uma guerra que só acelerou sua própria destruição.
"Senhorita Oliveira?"
A voz de um homem a tirou de seu transe. Carlos, o assistente leal de João, estava parado perto da porta, com uma expressão cautelosa, esperando a explosão que ele sabia que viria.
Naquele momento, Maria sentiu uma calma gélida tomar conta de si. A raiva, o desespero, o amor obsessivo, tudo parecia ter sido deixado para trás, em outra vida. Ela se levantou, caminhou até a mesa, pegou a caneta e, sob o olhar chocado de Carlos, assinou seu nome na linha pontilhada. Sua caligrafia estava firme.
"Está feito", disse ela, sua voz soando estranhamente calma aos seus próprios ouvidos. Ela empurrou o contrato assinado e o cheque de volta para ele. "Eu não preciso do dinheiro. Apenas diga a ele que eu concordo. De agora em diante, não temos mais nada a ver um com o outro."
Carlos ficou boquiaberto, incapaz de formular uma resposta. Ele esperava gritos, lágrimas, ameaças, mas não aquela aceitação fria e decisiva.
Maria o ignorou. Ela pegou seu celular, as mãos tremendo levemente, não de raiva, mas de urgência. Ela discou o número do seu pai. Na sua vida anterior, uma semana depois daquele dia, João, irritado com sua persistência, usou seu poder para levar a empresa de sua família à falência, como um aviso.
"Pai", disse ela assim que ele atendeu, sua voz firme. "Venda todas as ações da empresa. Agora. Não me pergunte o porquê, apenas confie em mim e faça. Liquide tudo o que puder."
Antes que seu pai pudesse protestar, a porta do apartamento se abriu com um estrondo. João Costa entrou como um furacão, seu rosto bonito contorcido em uma máscara de fúria. Seus olhos escuros a fuzilaram, ignorando completamente o assistente chocado ou os papéis sobre a mesa.
"Maria, o que você fez com a Ana desta vez?", ele rosnou, sua voz cheia de acusação.
Ele nem sequer esperou por uma resposta. Atravessou a sala em passadas largas e a agarrou pelo braço, seu aperto forte e doloroso.
"Venha comigo. Você vai se desculpar com ela agora mesmo."
Ele a arrastou para fora do apartamento, ignorando seus protestos. A força dele era esmagadora. Ele a empurrou para dentro de seu carro esportivo e acelerou pelas ruas da cidade em direção ao hospital. A cena era terrivelmente familiar, um eco de inúmeras outras vezes em que ela fora arrastada para limpar uma bagunça que não criara, para ser a vilã da história de outra pessoa.
No quarto do hospital, Ana estava deitada na cama, pálida e frágil, com um acesso intravenoso no braço. Ao ver Maria sendo arrastada por João, seus olhos se encheram de lágrimas e ela encolheu-se como um animal assustado.
"João... não a culpe... fui eu que caí da escada... foi um acidente", ela sussurrou, sua voz fraca, mas cada palavra calculada para inflamar a raiva de João contra Maria.
O rosto de João suavizou instantaneamente ao olhar para Ana, mas endureceu novamente quando se virou para Maria. "Fique aqui", ele ordenou, empurrando-a para um canto do quarto como se ela fosse uma criminosa. "Não se atreva a sair até eu dizer que pode."
Ele então se sentou ao lado da cama de Ana e começou a descascar uma maçã para ela com uma ternura que Maria nunca recebera. Seus movimentos eram cuidadosos e cheios de devoção. A cena era tão perfeitamente doméstica, tão cheia de um amor que a excluía, que era quase ridícula.
Maria ficou parada junto à porta, uma espectadora forçada daquela peça. Ela ouviu duas enfermeiras sussurrando do lado de fora.
"É ela, a noiva do Chef Costa. Tão malvada, sempre machucando a pobre da Ana."
"E a Ana é um anjo. Ele a ama tanto. Que pena que ele está preso a essa mulher terrível."
As palavras, que antes a teriam apunhalado no coração, agora flutuavam sobre ela sem causar dor. Elas eram apenas a confirmação. A confirmação do seu papel, do seu roteiro. Ela era a vilã. Eles eram o casal principal. Era simples assim.
Observando João colocar um pedaço de maçã na boca de Ana, um cansaço profundo, vindo de uma vida inteira de luta inútil, a dominou. A luta tinha acabado. Ela não queria mais participar daquele jogo. Desta vez, ela não iria lutar, não iria gritar, não iria chorar.
Ela iria sair do palco.
"Eu desisto", ela sussurrou para si mesma, uma promessa silenciosa. "Desta vez, eu vou escrever minha própria história."
Você pode gostar





