
O Roteiro da Redenção
Capítulo 3
O tempo se arrastava no quarto de hospital. Maria continuava em pé no canto, ignorada por todos. João não lhe dirigiu um único olhar, toda a sua atenção focada em Ana, que parecia se deleitar com seu papel de donzela frágil e sofredora. Cada suspiro de Ana, cada gemido baixo, fazia com que João se inclinasse para mais perto, sua voz um sussurro preocupado.
Uma dor aguda começou a se formar na parte inferior do abdômen de Maria. Era uma dor surda e persistente, um lembrete físico do estresse e do trauma. Ela pressionou a mão contra o local, tentando respirar fundo, mas o ar parecia pesado e difícil de inspirar. Ela se encostou na parede, sentindo as pernas fracas. Seu rosto estava pálido e um suor frio brotou em sua testa. Ninguém notou. Para João e Ana, ela era invisível, um pedaço de mobília indesejado.
A dor se intensificou, tornando-se uma pontada aguda que a fez ofegar. Sua visão começou a escurecer nas bordas. Ela deslizou pela parede, caindo no chão sem fazer muito barulho. O impacto de seus joelhos no piso frio de linóleo mal registrou em sua mente enevoada.
João finalmente se virou, não por preocupação, mas pela distração. Seus olhos se estreitaram em aborrecimento.
"O que você está fazendo agora, Maria? Pare de fazer cena", ele disse, sua voz gélida.
Ana, de sua cama, olhou com o que parecia ser preocupação, mas seus olhos continham um brilho de satisfação. "João, talvez ela não esteja se sentindo bem..."
"Ela está bem. Só quer atenção", João descartou, voltando-se para Ana.
Maria tentou se levantar, mas outra onda de dor a atingiu, e ela desmoronou completamente no chão, a consciência se esvaindo na escuridão.
Quando acordou, estava em um quarto de hospital diferente, pequeno e sem adornos. Uma enfermeira estava ajustando seu soro.
"Você acordou", disse a enfermeira, com uma voz profissional, mas sem calor. "Você teve uma queda de pressão e desidratação. O senhor Costa disse que você pode ir embora assim que se sentir melhor. A senhorita Martins já se recuperou do susto."
Recuperou-se do susto. A frase ecoou na cabeça de Maria. Ana caíra "acidentalmente" da escada, mas fora Maria quem acabou desmaiando de dor e estresse, e mesmo assim, a preocupação principal era o "susto" de Ana. A ironia era tão amarga que ela quase riu.
Ela se levantou lentamente, o corpo dolorido e exausto. A enfermeira a ajudou a se vestir e lhe deu alta. Ao sair do quarto, ela passou em frente ao quarto de Ana. A porta estava entreaberta, e ela não pôde deixar de parar e ouvir.
"Você me assustou muito hoje, sabia?", a voz de João era suave, cheia de uma ternura que feria. "Pensei que algo sério tinha acontecido."
"Estou bem agora que você está aqui", respondeu Ana, sua voz doce e melosa. "Mas e a Maria? Onde ela está?"
Houve uma pausa. "Ela está bem. Só um pouco de drama, como sempre", disse João, sua voz carregada de desdém. "Não se preocupe com ela. A única pessoa com quem me importo é você."
Maria sentiu o coração se contrair. Mesmo sabendo que era tudo um roteiro, as palavras ainda doíam, um eco fantasma de uma dor antiga. Ela se lembrou de uma vez, anos atrás, quando João pegara uma pneumonia grave. Ela passara três dias e três noites ao seu lado no hospital, sem dormir, cuidando dele. Quando ele finalmente melhorou, Ana apareceu com uma sopa e ele a apresentou aos amigos como a mulher que o salvara. Ele nunca mencionou Maria.
"João, sua mão está machucada", disse Ana, sua voz agora cheia de preocupação genuína.
"Não é nada. Apenas um arranhão de quando segurei o corrimão para não cair com você." Ele estava mentindo. Maria sabia que ele tinha se machucado ao socar uma parede de raiva, pensando que ela havia empurrado Ana. Ele estava escondendo a verdade para proteger a imagem inocente de Ana.
"Eu quero comer aquele bolo da confeitaria do outro lado da cidade", Ana pediu com uma voz manhosa.
"Claro, meu amor. O que você quiser. Eu vou buscar agora mesmo", João respondeu sem hesitação.
Maria sentiu que já tinha visto o suficiente. Ela se virou para ir embora, mas no final do corredor, João saiu do quarto de Ana. Seus olhares se cruzaram.
O rosto de João se fechou instantaneamente, a ternura que ele mostrava para Ana desaparecendo e sendo substituída por uma frieza hostil.
"O que você ainda está fazendo aqui?", ele perguntou.
"Eu estava de saída", respondeu Maria, sua voz vazia de emoção.
"Ótimo. Espero que você tenha aprendido sua lição. Fique longe da Ana."
Maria respirou fundo. "João, eu assinei os papéis."
Ele a olhou com desconfiança. "Que papéis?"
"O acordo. Eu aceitei. Vou sair da sua vida. Para sempre."
João riu, um som seco e sem humor. "Outro truque, Maria? O que você quer desta vez? Mais dinheiro? Uma casa maior? Acha que eu sou idiota?"
A incompreensão dele era uma parede de tijolos. Ele estava tão acostumado com a "personagem" dela que não conseguia ver a mulher real na sua frente, uma mulher que estava exausta e só queria sua liberdade.
"Não é um truque", disse ela, cansada demais para discutir. "É a verdade."
Ele balançou a cabeça, descrente. "Faça o que quiser. Apenas fique longe de nós."
Ele se virou e se afastou, caminhando apressadamente, provavelmente a caminho da confeitaria para satisfazer o desejo de Ana.
Maria o observou ir. Uma sensação de finalidade a envolveu. Não havia mais nada a ser dito. O João que ela amava, ou que achava que amava, nunca existiu. Ele era o herói desta história, e ela era a vilã. E os vilões nunca têm um final feliz com os heróis.
"Adeus, João", ela sussurrou para o corredor vazio. O adeus não era para ele, mas para a garota tola que ela tinha sido, a garota que desperdiçou dez anos de sua vida perseguindo uma ilusão.
Ela se virou e caminhou em direção à saída do hospital, em direção à sua nova vida, deixando para trás os fantasmas de seu passado.
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