
O Retorno do Herdeiro Traído
Capítulo 2
A dor veio primeiro, uma explosão de fogo em minhas costas, me jogando com força no chão de paralelepípedos molhados pela chuva. O cheiro de lixo e asfalto úmido invadiu meu nariz. Tentei me levantar, mas outra pancada, desta vez na cabeça, me fez ver estrelas, mesmo com os olhos fechados. Eram homens, eu não conseguia ver seus rostos no beco escuro, mas sentia a presença deles, pesada e ameaçadora.
"É ele mesmo?" uma voz rouca perguntou.
"Sim. O noivo," respondeu outra. "O chefe disse para dar um jeito nele. Para que ele nunca mais se meta onde não é chamado."
Eu era Miguel Silva, um arquiteto. Amanhã seria meu noivado com Ana Clara. Eu tinha um futuro brilhante pela frente, ou pelo menos era o que eu pensava. Tentei gritar, mas um pé pressionou meu peito, me tirando o ar. A dor era insuportável, cada osso do meu corpo parecia se quebrar. Então veio o golpe final, algo pontiagudo e químico atingiu meus olhos. Um grito rasgou minha garganta, um som que eu nem sabia que era capaz de fazer. E depois, apenas escuridão. Uma escuridão absoluta e permanente.
Eu não desmaiei completamente. Fiquei em um estado de limbo, flutuando entre a consciência e o nada. Sentia meu corpo ser carregado, colocado em um carro. O som abafado do trânsito. Horas depois, o cheiro de antisséptico. Um hospital.
Eu estava deitado, imóvel. Não conseguia me mover, não conseguia ver. Mas eu conseguia ouvir. E o que eu ouvi foi pior do que qualquer dor física que eu já senti.
"O médico disse que ele vai ficar cego para sempre," a voz era de Ana Clara. Minha noiva. Havia um tremor nela, mas não era de tristeza. Era outra coisa. Medo?
"É melhor assim," respondeu outra voz. Gelada, controlada. Minha mãe, Sofia Silva. "Um cego não pode administrar uma empresa. Um cego não pode ser o herdeiro dos Silva."
Meu coração, que eu achava que já estava destruído, se partiu em mais um milhão de pedaços. Um zumbido agudo começou em meus ouvidos. Não podia ser. Minha mãe. Minha Ana Clara.
"Mas... mãe, o que vamos dizer a todos? O noivado é amanhã."
"O noivado será de Lucas e você," disse minha mãe, sem hesitação. "Lucas merece isso. Ele é forte, ambicioso. Ele é o filho que eu sempre quis. Miguel era... idealista demais. Fraco demais."
Lucas. Meu irmão adotivo. O filho do ex-amante da minha mãe, Ricardo Almeida. O homem que ela sempre protegeu, sempre preferiu. Eu cresci vendo isso, sentindo a diferença no tratamento, mas nunca, nem nos meus piores pesadelos, eu imaginei isso. Que ela me descartaria como lixo para colocar Lucas no meu lugar.
"Lucas sempre foi o verdadeiro herdeiro em meu coração," Sofia continuou, sua voz baixa, como se compartilhasse um segredo sujo. "Ele tem o sangue e a ambição de Ricardo. Ele sabe lutar pelo que quer. Miguel... ele só herdou a bondade inútil do pai dele."
A menção ao meu pai, Pedro, trouxe uma nova onda de dor. Um homem bom, gentil, que sempre foi pisado pela minha mãe. Onde ele estava agora? Por que ele não estava aqui?
Naquela escuridão, deitado naquela cama de hospital, eu entendi. Minha vida inteira tinha sido uma mentira. O amor da minha mãe era uma farsa. O amor de Ana Clara era uma armadilha. Meu lugar na família, na empresa, tudo era condicional. Eu era apenas um substituto até que o verdadeiro "príncipe", Lucas, estivesse pronto para assumir.
A palavra "família" perdeu todo o significado. A palavra "casa" se tornou um lugar de terror. Eles não me atacaram apenas em um beco escuro. Eles destruíram minha alma. E o pior de tudo? Eles estavam no quarto ao lado, planejando o resto da minha vida como se eu fosse um objeto quebrado a ser guardado em um armário.
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