
O Retorno da Vítima
Capítulo 2
A dor aguda na minha barriga me acordou.
Abri os olhos e a primeira coisa que vi foi o teto familiar do meu quarto na Mansão do Príncipe. A luz do sol entrava pela janela, suave e quente.
Por um momento, fiquei confusa. Eu não deveria estar morta?
A lembrança da minha vida anterior me atingiu como um maremoto, fria e avassaladora. Lembrei-me do fogo, da fumaça que sufocava, e da dor lancinante quando meu corpo foi consumido pelas chamas. Lembrei-me do meu filho, ainda não nascido, morrendo comigo.
E lembrei-me de Clara.
Minha irmã adotiva, com seu rosto lindo e distorcido pelo triunfo, olhando para mim enquanto eu morria.
"Como posso deixar uma bastarda me dominar?" A voz dela ecoou na minha cabeça, cheia de veneno. "A culpa é dela e daquele bastardo por estarem no meu caminho!"
O ódio me sufocou. Cerrei os punhos com tanta força que minhas unhas cravaram na palma da minha mão.
Clara. A irmã que minha família adotiva acolheu, a quem dei tudo, me apunhalou pelas costas. Ela recusou o casamento arranjado com o Quarto Príncipe, Lucas, porque dizia estar apaixonada por outro homem, Miguel.
Eu, a filha adotiva sem importância, fui forçada a casar em seu lugar.
Para a surpresa de todos, engravidei logo depois. O que deveria ter sido uma bênção se tornou minha maldição. Clara, vendo o status e o poder que eu havia conquistado, se arrependeu. Ela voltou, fingindo ter conhecimentos médicos para me "ajudar" na gravidez.
Ela usou essa desculpa para se aproximar do meu marido, Lucas. E ele, o homem ambicioso e superficial, caiu em sua armadilha. Eles me traíram, juntos. Aquele "remédio" que Clara me dava todos os dias não era para proteger meu filho. Era veneno.
Minha mão foi instintivamente para minha barriga. Estava lisa. Plana.
Então, a porta do quarto se abriu. Meu marido, Lucas, o Quarto Príncipe, entrou com um sorriso radiante no rosto. Ele segurava um papel nas mãos.
"Sofia! O médico acabou de confirmar!" ele disse, com uma alegria que agora eu sabia ser completamente falsa. "Você está grávida! Vamos ter um filho!"
Olhei para ele, para o sorriso em seu rosto, e meu estômago se revirou. Este era o dia. O dia em que descobri a gravidez. O dia em que minha tragédia começou.
Mas desta vez... desta vez seria diferente.
Um sorriso lento se formou em meus lábios. A dor e o desespero da minha vida passada se transformaram em uma calma gelada. Eu não ia mais ser a vítima subestimada. Eu seria a caçadora.
O que não se tem é sempre o mais desejado, não é? Na vida passada, Clara desejava Lucas porque ele era meu e representava poder. E Lucas desejava Clara porque ela era a beleza inatingível que ele não podia ter.
Pois bem. Nesta vida, eu daria a eles exatamente o que eles queriam. Eu os uniria. E assistiria de camarote enquanto eles se destruíam.
"Que notícia maravilhosa, meu príncipe", eu disse, minha voz soando doce e submissa, escondendo a tempestade dentro de mim.
Lucas se aproximou, seu rosto exultante. "Precisamos contar a todos! Vou convocar toda a casa, anunciar a boa nova!"
"Espere", eu o interrompi suavemente.
Ele parou, surpreso. "O que foi?"
"Eu gostaria de contar a notícia para minha irmã Clara primeiro", eu disse, mantendo meu olhar baixo e humilde. "Ela... ela sempre foi tão próxima de mim. Quero compartilhar minha alegria com ela antes de qualquer outra pessoa."
Lucas pareceu um pouco decepcionado com o atraso na ostentação pública, mas a ideia de agradar Clara pareceu suavizar sua expressão. Ele nunca conseguiu esquecê-la.
"Ah, claro. Uma ótima ideia. Sua irmã ficará muito feliz por você", ele disse, sem perceber a ironia cortante em suas palavras.
"Sim", eu murmurei, um sorriso sombrio brincando em meus lábios. "Tenho certeza que sim."
Eu não ia apenas sobreviver. Eu ia virar o jogo. E desta vez, o fogo consumiria eles, não a mim.
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