
O Retorno da Vítima
Capítulo 3
No dia seguinte, mandei chamar Lúcia, minha empregada pessoal.
Na minha vida anterior, Lúcia era minha confidente. Eu confiava nela, contava meus medos e esperanças. E ela me traiu. Lembro-me claramente do dia em que a vi sussurrando com Clara no jardim, recebendo uma bolsa de moedas de ouro. Foi Lúcia quem trocou meus tônicos por veneno, sob as ordens de Clara.
Agora, ela estava diante de mim, de cabeça baixa, parecendo a imagem da lealdade.
"Senhora, mandou me chamar?"
"Sim, Lúcia", eu disse com um sorriso gentil. "Tenho uma tarefa importante para você. Como sabe, estou grávida. O príncipe está muito preocupado com meu bem-estar e quer que alguém de confiança fique de olho em mim o tempo todo."
Os olhos de Lúcia brilharam com uma ganância mal disfarçada. Ela provavelmente pensou que seu status na casa iria aumentar.
"Mas", continuei, fingindo hesitação, "eu me sinto mal em sobrecarregar você. E o príncipe... ele também precisa de cuidados."
Fiz uma pausa, observando-a. O brilho em seus olhos diminuiu, substituído por confusão.
"O príncipe tem trabalhado tanto ultimamente", eu disse, com um suspiro. "Eu estava pensando... talvez você pudesse cuidar dele por mim. Garantir que ele coma bem, que descanse. Você é tão atenta e cuidadosa, Lúcia. Ninguém faria isso melhor."
O queixo de Lúcia quase caiu. Servir ao príncipe diretamente era um salto de status que ela nunca poderia ter sonhado. Significava mais poder, mais influência e, o mais importante para ela, mais dinheiro.
"Senhora... eu... eu não sei se sou digna", ela gaguejou, mas seus olhos famintos contavam uma história diferente.
"Bobagem", eu disse, acenando com a mão. "Eu confio em você. Vá, fale com o príncipe. Diga a ele que foi um pedido meu."
Eu sabia exatamente o que estava fazendo. Estava colocando a cobra no ninho do meu marido. Lúcia, com sua ambição desenfreada, seria facilmente seduzida por Lucas. E Lucas, sempre vaidoso e apreciador de um rosto bonito, não a rejeitaria.
Isso criaria uma pequena distração. Um pequeno caos. E o mais importante, daria a Clara um alvo imediato de ciúmes quando ela chegasse.
Mais tarde naquele dia, encontrei Clara no jardim. Ela estava "visitando" para ver como eu estava. Seus olhos percorreram minha figura, procurando sinais da gravidez, uma pitada de inveja já visível.
"Sofia, querida! Fiquei tão feliz quando soube da notícia!", ela disse, me abraçando. O abraço parecia o de uma serpente.
"Obrigada, Clara", eu disse, sorrindo. "Estou tão feliz. E Lucas está nas nuvens. Ele até me deu uma de suas empregadas mais competentes para cuidar dele, já que eu preciso descansar."
Clara ergueu uma sobrancelha perfeitamente arqueada. "Uma empregada para cuidar dele?"
"Sim, Lúcia. Uma jovem bonita e muito dedicada. Eu mesma a escolhi", falei, com a maior inocência do mundo.
Vi um brilho perigoso nos olhos de Clara. Ciúme. Possessividade. Exatamente como eu planejei.
Clara forçou um sorriso. "Que... atencioso da sua parte, irmã. Mas você não acha que um homem como o príncipe precisa de alguém com mais... experiência? Talvez eu pudesse ajudar. Tenho lido muitos livros de medicina, sabe? Poderia preparar tônicos para vocês dois."
Aí estava. A mesma desculpa da vida passada.
Meu coração gelou, mas mantive o sorriso no rosto. "Oh, Clara, você é tão gentil! Mas não quero sobrecarregá-la. Você é uma convidada. Além disso, a saúde do príncipe e do nosso filho é muito importante. Acho melhor deixar para os médicos reais, não acha?"
Recusei sua "ajuda" de forma educada, mas firme. Desta vez, eu não beberia nenhum tônico preparado por suas mãos.
Mais tarde, a mãe de Lúcia, que também trabalhava na mansão como lavadeira, veio me agradecer. Seus olhos estavam cheios de lágrimas de gratidão e um orgulho presunçoso.
"Senhora, muito obrigada! Você não sabe o que essa oportunidade significa para nossa família. Minha Lúcia vai servi-la e ao príncipe com toda a sua vida!"
Eu sorri para ela, um sorriso que não alcançou meus olhos. "Tenho certeza que sim."
A peça estava no lugar. A primeira de muitas. E eu mal podia esperar para ver o show começar.
Você pode gostar





