
O Retorno da Vingança Adocicada
Capítulo 2
Ana Clara sentiu o cheiro de mofo do seu pequeno apartamento e a textura áspera do lençol barato, e um calafrio percorreu sua espinha.
Não era um sonho.
Ela olhou para as próprias mãos, jovens e sem calos, e depois para o calendário na parede. A data circulada em vermelho confirmava o pesadelo.
Ela tinha voltado no tempo.
Tinha voltado para o dia em que sua vida começou a desmoronar, tudo por causa de Bruna.
Na sua vida passada, hoje era o dia em que Bruna postaria o primeiro vídeo copiando descaradamente um de seus designs. Ana Clara, na época, era ingênua e tímida, e escolheu ignorar, pensando que era apenas uma coincidência infeliz.
Que grande erro.
Aquela "coincidência" se transformou em um padrão. Bruna se tornou sua sombra, copiando seu estilo de se vestir, sua maquiagem, seu jeito de falar, e até mesmo seus gestos.
Pior do que isso, Bruna a difamava pelas costas, espalhando para todos na faculdade que Ana Clara era a verdadeira perseguidora, uma garota rica e mimada que não suportava ver alguém pobre como ela se dar bem.
A mentira, repetida mil vezes, se tornou uma verdade para muitos.
O ápice da crueldade de Bruna foi na competição de design mais importante da faculdade. A que valia uma bolsa de estudos internacional em Milão, o sonho da vida de Ana Clara.
Na noite anterior à apresentação, Bruna sabotou sua máquina de costura.
Ana Clara passou a noite em pânico, tentando consertar o equipamento, mas foi inútil. Ela não conseguiu terminar sua peça a tempo e foi desqualificada.
Bruna, com um design medíocre que era uma pálida imitação de um trabalho antigo de Ana Clara, acabou ganhando uma menção honrosa. A bolsa principal foi para outra pessoa, mas para Ana Clara, o resultado foi o mesmo, seu sonho foi destruído.
A humilhação, a injustiça e a raiva a consumiram por anos. Agora, de alguma forma, ela estava de volta.
Com os olhos queimando de uma fúria fria, Ana Clara pegou o celular. O aparelho antigo, com a tela levemente trincada, parecia um artefato de um passado doloroso.
Ela abriu a rede social. E lá estava.
O vídeo de Bruna.
Ela desfilava no pátio da faculdade, usando uma réplica malfeita de uma jaqueta que Ana Clara havia customizado com retalhos de um brechó. As costuras eram tortas, o caimento era péssimo, mas a ideia, a essência, era um roubo.
Bruna sorria para a câmera, cercada por um grupo de colegas que a elogiavam.
"Nossa, Bruna, que jaqueta incrível! Você é tão criativa!"
"Onde você comprou?"
Bruna riu, um som que fez o estômago de Ana Clara revirar.
"Eu mesma que fiz! Peguei uma jaqueta velha e dei meu toque."
Então, a facada final. Um dos garotos no vídeo olhou diretamente para a câmera e disse em tom de brincadeira:
"Ana Clara, você está sempre copiando a Bruna, não é? Vocês duas se vestem igual!"
O comentário foi recebido com risadas.
Na vida passada, Ana Clara viu aquilo e sentiu o rosto queimar de vergonha. Ela desligou o celular e chorou.
Desta vez, não.
Com os dedos firmes, Ana Clara abriu sua própria galeria de fotos. Encontrou a foto que havia tirado três semanas antes, usando a jaqueta original. A iluminação era perfeita, o caimento impecável, cada detalhe do seu trabalho manual era visível.
Ela postou a foto.
E escreveu uma legenda, cada palavra pingando veneno.
"Este é o meu design autêntico, criado há três semanas. Se você vai copiar, pelo menos invista em qualidade. Falsificação barata é uma ofensa à criatividade. #MinhaArteMinhasRegras"
Ela não marcou Bruna. Não precisava. Todos saberiam para quem era a mensagem.
Ela mal teve tempo de bloquear a tela do celular antes que ele começasse a vibrar com notificações.
A resposta de Bruna veio em menos de cinco minutos, não no post de Ana Clara, mas em um novo post em seu próprio perfil, com uma foto sua com os olhos marejados.
O comentário era uma obra-prima de vitimização.
"Ana Clara, por que você é tão cruel? Eu só queria me vestir bem, não sabia que era seu 'design exclusivo'. Eu não tenho dinheiro para comprar roupas de marca como você. Pobreza não é crime!"
A seção de comentários explodiu.
"Nossa, que garota mesquinha! Deixa a Bruna em paz!"
"É só uma jaqueta, supera!"
"A Bruna é bolsista, gente, ela luta muito pra estar na faculdade. Um pouco de empatia, por favor."
Amigos de Bruna, e até pessoas que mal a conheciam, correram para defendê-la, pintando Ana Clara como a vilã rica e arrogante.
Ana Clara leu os comentários com um sorriso gelado.
Ela se lembrava de como, no passado, Bruna usava sua condição de bolsista como um escudo para todas as suas atitudes. Qualquer crítica era rebatida com a carta da pobreza, qualquer confronto era transformado em um ataque de uma "rica opressora" contra uma "pobre oprimida".
A melhor amiga de Bruna, uma garota chamada Lúcia, apareceu nos comentários.
"Ana Clara, você não tem vergonha? A Bruna te admira, só isso. Você deveria se sentir lisonjeada, não humilhá-la publicamente. Ela até me mostrou uma bolsa falsificada que comprou na 25 de Março porque era parecida com uma sua. Ela só quer ser como você!"
Ana Clara sentiu uma pontada de náusea. A bolsa. Ela se lembrava daquela bolsa. Era uma imitação barata de uma bolsa de grife que o pai de Ana Clara havia lhe dado de presente. Bruna desfilava com a falsificação para cima e para baixo, e quando alguém apontava a má qualidade, ela dizia que era "inspirada" no estilo de Ana Clara.
Desta vez, Ana Clara não deixaria passar.
Ela respondeu diretamente ao comentário de Lúcia.
"Lúcia, se ela quer ser como eu, deveria começar por ter caráter. E já que você tocou no assunto da bolsa, a minha é uma original de couro italiano. A dela é de plástico e provavelmente vai descascar em duas semanas. Há uma diferença entre inspiração e falsificação patética."
O veneno em suas palavras era palpável.
A resposta chocou a todos. A Ana Clara que eles conheciam era quieta, quase invisível. Essa nova Ana Clara era afiada, direta e implacável.
Bruna, vendo que sua tática de vitimização não estava funcionando tão bem quanto o esperado, surtou.
Ela postou um último comentário, cheio de fúria e ameaças veladas.
"Você vai se arrepender disso, Ana Clara! Vou falar com o Professor Silva! Vou mostrar a ele como você me trata! Você está praticando bullying contra uma aluna bolsista! Isso é grave!"
E com isso, a primeira batalha da guerra estava declarada. Bruna correu para buscar a ajuda da autoridade, exatamente como Ana Clara previu.
Mas desta vez, Ana Clara estava preparada.
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