
O Retorno da Vingança Adocicada
Capítulo 3
Como um relógio, Bruna correu para a sala do Professor Silva na manhã seguinte, com o rosto inchado de tanto chorar falsas lágrimas.
Ana Clara observou de longe, escondida atrás de uma pilastra no corredor. Ela viu Bruna entrar na sala, gesticulando dramaticamente, apontando para o celular.
Ela podia imaginar perfeitamente o discurso.
"Professor, a Ana Clara está me perseguindo! Ela me humilhou na frente de toda a faculdade só porque eu não tenho dinheiro para comprar as roupas que ela usa! Ela disse que minhas roupas são falsificações baratas! Isso é bullying, professor! Ela está me oprimindo por eu ser pobre!"
Na vida passada, funcionou como um encanto.
O Professor Silva, um homem de meia-idade que se orgulhava de ser um "defensor dos menos favorecidos", caiu na história de Bruna sem pestanejar. Ele chamou Ana Clara em sua sala e lhe deu uma bronca memorável, acusando-a de ser elitista, insensível e de não ter empatia.
Ele nunca a deixou explicar seu lado da história. Para ele, era simples: a menina rica estava errada, a menina pobre estava certa.
Lembrar daquele dia ainda fazia o sangue de Ana Clara ferver.
Mas a Ana Clara de hoje não era a mesma garotinha assustada.
Meia hora depois, a secretária do Professor Silva a chamou.
"Ana Clara, o Professor Silva quer falar com você. Agora."
Ana Clara caminhou lentamente até a sala. Quando entrou, encontrou Bruna sentada em uma cadeira, soluçando baixinho, enquanto o Professor Silva a consolava, passando a mão em seus ombros.
A cena era tão ridícula que Ana Clara quase riu.
"Ana Clara, sente-se," disse o Professor Silva, com um tom severo. "Preciso ter uma conversa muito séria com você."
Ele começou o mesmo discurso da vida passada, palavra por palavra. Falou sobre empatia, sobre privilégio, sobre a importância de apoiar os colegas em desvantagem.
"A Bruna é uma de nossas alunas mais esforçadas," ele disse, com a voz carregada de falsa emoção. "Ela luta todos os dias para estar aqui. O mínimo que você pode fazer é mostrar um pouco de respeito, em vez de humilhá-la por causa de roupas!"
Bruna, no canto, fungou alto para dar ênfase.
"Ela até me acusou de usar uma bolsa falsificada, professor! Eu comprei na 25 de Março com o pouco dinheiro que eu tinha! É crime agora ser pobre?"
Ana Clara ouviu tudo em silêncio, o rosto impassível. A raiva que sentia era fria e cortante. Dessa vez, ela não ia se defender. Ela ia atacar.
Quando o Professor Silva finalmente terminou seu sermão, Ana Clara o encarou diretamente nos olhos.
"Professor," ela começou, com a voz calma, mas firme. "O senhor sabe quem é o maior patrocinador desta faculdade?"
A pergunta pegou o professor de surpresa. Ele franziu a testa.
"O que isso tem a ver com o assunto? Estamos falando do seu comportamento inaceitável..."
"Responda à minha pergunta, por favor," Ana Clara insistiu.
"É o Grupo Almeida, claro. Eles doam milhões todos os anos. O que..."
"Exato," Ana Clara o cortou. "E o senhor sabe quem é o CEO do Grupo Almeida?"
"Claro que sei, é o senhor Roberto Almeida. Uma figura muito respeitada. Mas eu não estou entendendo onde você quer chegar com isso."
Bruna também parecia confusa, olhando de um para o outro.
Ana Clara deu um pequeno sorriso, um sorriso que não alcançou seus olhos.
"Roberto Almeida é o meu pai."
O silêncio na sala foi absoluto.
O Professor Silva piscou, incrédulo. Ele olhou para Ana Clara, para suas roupas simples de brechó, seu estilo discreto. Não havia nada nela que gritasse "herdeira milionária".
"Isso é... isso é uma piada? Que tipo de brincadeira de mau gosto é essa, Ana Clara? Você está tentando me intimidar?" ele gaguejou, o rosto começando a ficar vermelho.
Bruna soltou uma risada de escárnio.
"Patético, Ana Clara. Agora você inventa que é rica para tentar se safar? Você não tem limites?"
Ana Clara ignorou Bruna completamente. Ela pegou seu celular, discou um número e colocou no viva-voz.
"Pai?"
A voz do outro lado era forte e imponente. "Clarinha? Aconteceu alguma coisa? Você nunca me liga neste horário."
"Está tudo bem, pai. Só preciso de um pequeno favor. O senhor poderia ligar para o reitor da minha faculdade, o senhor Martins, e confirmar que eu sou sua filha? Parece que há uma certa confusão por aqui."
"Confusão? Que tipo de confusão? Alguém está te incomodando?" a voz de Roberto Almeida ficou instantaneamente mais séria.
"Nada com que o senhor precise se preocupar. Apenas um mal-entendido que estou resolvendo. O senhor pode ligar para ele agora?"
"Claro, minha filha. Ligo imediatamente. Me retorne se precisar de mais alguma coisa."
"Obrigada, pai. Te amo."
"Também te amo, querida."
Ela desligou.
A sala continuava em um silêncio mortal. O rosto do Professor Silva passou de vermelho para branco. Bruna parecia ter visto um fantasma.
Menos de um minuto depois, o telefone na mesa do Professor Silva tocou, estridente.
Ele atendeu, a mão tremendo.
"Alô? Sim, senhor Reitor... Sim, ela está aqui... O quê? Ah... Sim, senhor... Claro, senhor... Entendido... Desculpe, senhor... Sim, farei isso imediatamente."
Ele desligou o telefone e olhou para Ana Clara como se ela fosse a rainha da Inglaterra. A arrogância e a severidade em seu rosto tinham desaparecido, substituídas por um pavor abjeto.
"Senhorita... Senhorita Almeida," ele gaguejou, levantando-se. "Houve um... um terrível mal-entendido. Eu peço mil desculpas. Eu não fazia ideia..."
Bruna estava paralisada na cadeira, a boca aberta em um "O" perfeito. O sangue havia sumido de seu rosto.
Ana Clara se levantou, ajeitando a mochila no ombro.
"Mal-entendido? Não, professor. Foi um pré-julgamento. O senhor assumiu que, por eu me vestir de forma simples, eu era insignificante. E assumiu que, por ela" - Ana Clara apontou a cabeça na direção de Bruna - "se fazer de vítima pobre, ela era a santa."
Ela se virou para Bruna, que agora tremia incontrolavelmente.
"E você," disse Ana Clara, a voz baixa e perigosa. "Você achou que podia me usar como escada, me copiar, me sabotar, e se esconder atrás da sua 'pobreza'. Acontece que o jogo virou. Eu estava apenas tentando ter uma vida normal na faculdade, mas pessoas como vocês tornam isso impossível."
Ela se virou e caminhou até a porta.
"Ah, e Professor Silva," ela disse, parando com a mão na maçaneta. "Estou me mudando do meu apartamento hoje. Meu pai insistiu que eu me mude para uma cobertura que ele tem perto da faculdade. Aparentemente, a segurança lá é melhor. Vejo vocês na aula."
Ela saiu da sala, deixando para trás um professor em pânico e uma rival em estado de choque.
A vingança de Ana Clara estava apenas começando.
Você pode gostar





