
O Retorno da Musa Traída
Capítulo 3
Eu olhei para o dinheiro na mão de Pedro, depois para o rosto presunçoso dele. Minha voz saiu calma e firme, cortando o murmúrio ao nosso redor.
"Guarde seu dinheiro, Pedro. Eu não preciso dele."
Ele pareceu genuinamente surpreso com a minha recusa. A sobrancelha dele se ergueu.
"Não seja orgulhosa, Lívia. Não há vergonha em admitir que as coisas não deram certo para você."
Sofia interveio, sua voz pingando falsa simpatia.
"Isso mesmo, querida. Nós só queremos ajudar. Afinal, você dedicou tanto tempo da sua vida ao Pedro. É o mínimo que podemos fazer."
Ela enfatizou a palavra "dedicou" com um tom que a fazia soar como "desperdiçou" .
"É uma pena que sua carreira de designer não tenha decolado. Mas nem todo mundo nasceu para o sucesso, não é mesmo?"
Alguns dos nossos antigos colegas, que agora formavam um pequeno círculo ao nosso redor, concordaram com a cabeça, ansiosos para ficar do lado do casal famoso.
"A Sofia tem razão, Lívia. Aceite a ajuda" , disse um deles. "É uma grande oportunidade."
Pedro, sentindo o apoio da multidão, deu o golpe final. Seu tom era de um rei dispensando um plebeu.
"Tudo bem. Eu tentei. Se você prefere se afogar no seu próprio orgulho, a escolha é sua. Algumas pessoas simplesmente não conseguem superar o passado."
Ele se virou para ir embora, satisfeito por ter me colocado no meu "devido lugar" . A humilhação estava completa, pelo menos para eles.
Eu me virei para sair também, querendo apenas respirar um ar que não estivesse contaminado pela arrogância deles. Mas, ao passar por um grupo de convidados, um homem visivelmente bêbado tropeçou e agarrou meu braço, me puxando com força.
"Ei, gatinha, por que a pressa? Fica aqui comigo."
Antes que eu pudesse reagir, uma figura passou por mim como um borrão. Pedro tinha se virado e empurrado o homem com força, fazendo-o cambalear para trás.
"Tire as mãos dela" , Pedro rosnou, uma fúria protetora e possessiva brilhando em seus olhos. Era um vislumbre do Pedro que eu conheci na vida passada, o homem que, em raros momentos, parecia se importar.
O homem bêbado resmungou algo e se afastou, intimidado.
O momento ficou suspenso no ar. Pedro me olhou, seu rosto uma confusão de emoções. Raiva, orgulho... e algo mais, algo que eu não conseguia decifrar.
Sofia correu para o lado dele, claramente irritada com a distração. Ela não gostou que a atenção de Pedro, mesmo que por um segundo, tenha se voltado para mim de uma forma que não fosse para me humilhar.
Para quebrar o clima, ela apontou dramaticamente para a entrada da galeria, sua voz alta e estridente.
"Olhem! Acho que o Sr. Santos chegou! Gabriel Santos, da Construtora Santos!"
O nome agiu como mágica. A atenção de todos se voltou para a porta, ansiosos para ver o lendário magnata do mercado imobiliário. Sofia sorriu, satisfeita por ter retomado o controle da narrativa. Ela queria impressionar a todos, mostrando que eles se moviam em círculos onde nomes como "Gabriel Santos" eram comuns.
Ela não fazia ideia do que estava prestes a acontecer.
Eu também olhei para a entrada. Meu coração, que tinha se mantido tão calmo, agora batia um pouco mais rápido, mas não de medo ou ansiedade.
Era de antecipação.
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