
O Retorno da Fênix
Capítulo 2
A última coisa que Maria se lembrava era do silêncio do convento, um silêncio pesado que ecoava o vazio em sua alma. Sua carreira, sua fé, sua vida... tudo havia se transformado em pó, levado por uma tempestade de mentiras e traição. O golpe final não veio dos tabloides ou dos críticos, mas do rosto sorridente de sua própria irmã, Joana, que a visitou no convento para se gabar de seu novo contrato com a gravadora, o mesmo contrato que um dia fora de Maria. Naquele dia, o coração de Maria finalmente parou de lutar, e ela se entregou à escuridão.
Mas agora... agora havia luz.
Uma luz suave e familiar entrava pela janela, dançando sobre a colcha branca de sua cama. Sua cama. A cama de seu antigo quarto na casa da família.
Maria sentou-se de repente, o coração batendo descontroladamente. O ar cheirava a lavanda, o perfume favorito de sua mãe. Ela olhou para as próprias mãos, jovens, sem as calosidades do trabalho na horta do convento. No espelho do guarda-roupa, viu um rosto que não via há anos, um rosto cheio de vida, sem as marcas profundas da dor e do desespero.
Um calendário digital na mesa de cabeceira brilhava com a data.
15 de outubro.
O dia do lançamento de seu álbum. O dia em que tudo ruiu.
Ela não estava morta. Ela havia voltado.
A porta do quarto se abriu suavemente.
"Maria? Você já acordou? Mamãe fez seu café da manhã favorito."
Era Joana. A mesma voz doce e melodiosa que sussurrava mentiras. Ela usava um vestido florido, parecendo a imagem da inocência. Em sua mão, ela segurava uma pequena caixa de presente.
"Eu mal consegui dormir de tão animada, irmã. Hoje é o seu grande dia! O mundo inteiro vai ouvir seu novo álbum!"
Na vida passada, Maria teria abraçado a irmã, agradecido pelo apoio. Mas agora, tudo o que via era a cobra escondida atrás do sorriso. Ela se lembrou de cada detalhe: a sabotagem do áudio, as mensagens subliminares inseridas na faixa principal, a forma como Joana fingiu choque e tristeza enquanto a carreira de Maria era destruída publicamente.
Maria levantou-se da cama, seu olhar frio e penetrante. Ela não disse uma palavra. Apenas caminhou em direção a Joana.
Joana, sentindo a mudança na atmosfera, recuou um passo, seu sorriso vacilando.
"O que foi, Maria? Você parece... diferente."
"Onde está?" A voz de Maria era baixa, quase um rosnado.
"Onde está o quê? Seu presente? Está aqui!" Joana estendeu a caixa.
Maria ignorou o presente. Ela agarrou o pulso de Joana com uma força que surpreendeu a ambas.
"Não o presente. A cópia mestre. O pen-drive com o áudio que você sabotou."
O rosto de Joana ficou pálido. O medo brilhou em seus olhos antes de ser rapidamente substituído por uma falsa indignação.
"Do que você está falando? Sabotagem? Maria, você deve ter tido um pesadelo! Você está nervosa por causa do lançamento, é só isso."
"Não me chame de louca, Joana."
Maria apertou mais o pulso. Ela sabia que Joana, por vaidade e arrogância, guardaria a prova de seu "gênio" destrutivo consigo, provavelmente no bolso do vestido. Com a outra mão, Maria enfiou a mão no bolso de Joana e puxou um pequeno pen-drive prateado. O mesmo pen-drive que um perito de áudio, contratado secretamente por ela na vida passada, confirmou ter sido usado para alterar os arquivos.
"Isso", disse Maria, erguendo o pen-drive. "É disso que estou falando."
Joana tentou arrancar o pen-drive da mão de Maria, seu rosto agora uma máscara de pânico.
"Me devolva! Isso não é nada! Você está delirando!"
O barulho da briga atraiu a atenção da mãe delas, que apareceu na porta.
"Meninas? O que está acontecendo aqui? Joana, por que você está chorando?"
Joana correu para os braços da mãe, as lágrimas escorrendo pelo rosto.
"Mamãe, a Maria está me acusando de coisas horríveis! Ela pegou minhas coisas! Eu acho que a pressão do sucesso subiu à cabeça dela!"
A mãe olhou para Maria com preocupação e uma ponta de decepção.
"Maria, peça desculpas à sua irmã. Hoje é um dia importante para você, não vamos estragá-lo com brigas."
Na vida passada, Maria teria cedido, confusa e culpada. Mas não desta vez.
Ela olhou para a mãe, depois para a irmã soluçando, e desceu as escadas, ignorando os chamados delas. A sala de estar estava cheia de parentes e amigos próximos, todos ali para celebrar o lançamento. Era o palco perfeito.
Maria caminhou até o centro da sala, segurando o pen-drive no alto para que todos pudessem ver.
"Eu quero a atenção de todos, por favor."
O falatório cessou. Todos se viraram para ela, curiosos. Joana e a mãe desceram as escadas, parando no último degrau, observando com apreensão.
"Hoje seria o dia mais feliz da minha carreira", começou Maria, sua voz firme e clara, a voz de uma cantora acostumada a comandar multidões. "Mas eu descobri uma traição terrível. Minha própria irmã, Joana, a quem eu amei e apoiei, tentou destruir tudo pelo que trabalhei."
Um murmúrio chocado percorreu a sala.
"Ela sabotou a faixa principal do meu novo álbum", continuou Maria, "inserindo mensagens que me associariam a coisas obscuras, tudo por inveja. E aqui", ela balançou o pen-drive, "está a prova do crime dela."
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