
O Retorno da Ex-Namorada Vingativa
Capítulo 2
A umidade fria do ar da manhã me fez estremecer, um calafrio que não vinha só da temperatura, mas da memória vívida e aterrorizante da queda, do vento gritando em meus ouvidos, da dor excruciante quando meu corpo se chocou contra o chão.
Mas eu não estava morta.
Abri os olhos e a primeira coisa que vi foi o teto familiar do meu quarto de adolescente, com adesivos de estrelas que brilhavam no escuro, hoje amarelados pelo tempo. Sentei-me na cama, o coração martelando contra minhas costelas. Minhas mãos, meus braços, meu corpo... tudo estava intacto. Não havia ossos quebrados, não havia o cheiro de antisséptico de um hospital.
Olhei para o calendário na parede. A data marcada em um círculo vermelho me encarava: 15 de setembro. Três meses antes do vestibular, o exame de admissão para a universidade. O mesmo exame que, em minha vida passada, destruiu todos os meus sonhos.
"Sofia, está acordada? O café está na mesa!" A voz da minha mãe veio do andar de baixo, quente e cheia de vida.
Uma lágrima escorreu pelo meu rosto. Na minha vida anterior, depois que perdi a vaga na universidade de design de moda, fui forçada a trabalhar em uma fábrica de roupas clandestina para ajudar minha família. As condições eram desumanas, o trabalho interminável. Minha mãe, consumida pela preocupação e pelo excesso de trabalho, adoeceu e faleceu pouco tempo depois.
Eu tinha voltado. Tinha voltado ao ponto de partida, antes que tudo desmoronasse.
A traição de Lucas, meu namorado de infância, e sua nova parceira, Camila, foi o que iniciou meu pesadelo. Eles armaram para que eu perdesse a vaga na universidade, uma vaga que eu desejava mais do que tudo. Enquanto eu sofria, eles subiam na vida, desfrutando de um sucesso construído sobre a minha ruína. Anos depois, um reencontro humilhante terminou comigo sendo empurrada do terraço de um prédio por eles.
A raiva queimou em meu peito, mas eu a forcei para o fundo. Desta vez, seria diferente. Eu não era mais a garota ingênua e apaixonada. A dor e a humilhação me forjaram em algo mais duro, mais focado.
Levantei-me, vesti meu uniforme escolar e desci as escadas. O cheiro de café fresco e pão na chapa encheu a casa. Minha mãe estava na cozinha, sorrindo. Meu pai lia o jornal na mesa. Era uma cena de paz doméstica que eu pensei que nunca mais veria.
"Bom dia, querida. Dormiu bem?" perguntou minha mãe.
"Sim, mãe. Dormi muito bem." A voz saiu um pouco rouca.
Na escola, o ar estava carregado com a ansiedade pré-vestibular. Todos andavam com livros nas mãos, rostos tensos. Eu me sentia estranhamente calma. Eu já tinha vivido o pior.
Então, eu os vi.
No pátio principal, Lucas estava em pé sobre um banco, segurando um buquê de rosas tão grande que mal conseguia equilibrá-lo. Camila estava ao lado dele, com um sorriso presunçoso no rosto, usando um vestido de marca que custava mais do que o salário de um mês do meu pai.
Lucas gritou para que todos ouvissem: "Camila, meu amor! Cada uma destas 99 rosas representa a eternidade do meu amor por você!"
Alguns alunos mais novos aplaudiram, achando a cena romântica. Os mais velhos, focados nos estudos, apenas reviravam os olhos para o espetáculo.
Meu sangue gelou. Aquele gesto, aquela ostentação... era exatamente como na minha vida passada. A única diferença era que, antes, ele fazia isso depois do vestibular, para comemorar sua "vitória" . Agora, ele estava fazendo isso três meses antes.
Isso só podia significar uma coisa. Eles também voltaram. Lucas e Camila também haviam renascido.
Uma onda de náusea me subiu pela garganta. A ideia de reviver a mesma tortura, de lutar contra os mesmos inimigos que já sabiam meus pontos fracos, era apavorante.
Camila me viu olhando. Seu sorriso se alargou, tornando-se malicioso. Ela sussurrou algo no ouvido de Lucas, e ele se virou. Seu olhar encontrou o meu, e por um segundo, vi um brilho de ódio e triunfo em seus olhos antes que ele o disfarçasse com um sorriso charmoso para a multidão.
Mas eu vi. Ele sabia. Ele se lembrava de tudo.
Camila, por outro lado, parecia diferente. Enquanto Lucas se exibia, ela mantinha o sorriso no rosto, mas seus ombros estavam tensos. Seus dedos apertavam a alça de sua bolsa de grife com força. Havia uma ansiedade em seus olhos que não combinava com a pose de vencedora. Talvez ela estivesse apenas desconfortável com a atenção, ou talvez... talvez ela não se lembrasse de tudo com a mesma clareza que Lucas.
Ignorei-os. Caminhei direto para a minha sala de aula, a cabeça erguida. O show deles não importava. O que importava era o que eu faria a seguir.
Sentei-me em minha carteira, no fundo da sala, e abri meus livros. Física. Química. História. Eu precisava revisar tudo. Na minha vida passada, eu era uma aluna talentosa, especialmente em artes e design, mas negligenciei as matérias gerais por causa da minha paixão. Foi por pouco que não passei. Desta vez, não haveria margem para erro.
Para minha surpresa, as fórmulas e os conceitos voltaram para mim com uma clareza inesperada. A memória muscular dos anos de estudo forçado ainda estava lá, enterrada sob as cicatrizes. Eu podia fazer isso. Eu podia não apenas passar, mas se saísse muito bem.
O dia passou em um borrão de aulas e anotações. No intervalo, minha amiga Ana se sentou ao meu lado.
"Você viu o show do Lucas e da Camila hoje de manhã? Que ridículo," ela disse, revirando os olhos. "Quem faz uma coisa dessas antes do vestibular?"
"Algumas pessoas gostam de atenção," respondi, sem tirar os olhos do meu caderno.
"Ele costumava ser seu namorado, não é? Sinto muito, Sofia. Ele é um idiota."
"Está tudo bem, Ana. É passado." E era mesmo. O garoto que eu amava tinha morrido há muito tempo, talvez nunca tivesse existido.
No final do dia, enquanto eu arrumava meu material para ir embora, Lucas e Camila passaram pela minha carteira. Eu senti a presença deles antes mesmo de olhar para cima.
"Ora, ora, se não é a Sofia," disse Lucas com uma voz falsamente amigável. Ele se inclinou, fingindo pegar algo no chão. Com um movimento "acidental" , seu cotovelo bateu na minha pilha de livros e cadernos, espalhando tudo pelo chão.
"Ops, foi mal," ele disse, sem um pingo de remorso.
Camila riu, um som agudo e desagradável. "Cuidado, Lucas. Não queremos sujar as mãos com o lixo de uma nerd."
A sala inteira ficou em silêncio. Todos os olhos se voltaram para nós. A humilhação era pública, calculada. Na minha vida passada, eu teria ficado vermelha, gaguejado um pedido de desculpas e recolhido minhas coisas o mais rápido possível, fugindo das risadas.
Mas eu não era mais aquela garota.
Lentamente, levantei meu olhar do chão e o fixei em Lucas. Mantive minha voz calma e firme.
"Tudo bem, Lucas. Acidentes acontecem."
Então, olhei para Camila.
"Mas da próxima vez que quiser me insultar, pelo menos tente ser um pouco mais criativa. 'Nerd' é tão clichê."
Abaixei-me com calma, juntei meus livros um por um, sem pressa. O sorriso de Camila vacilou. Lucas parecia surpreso com a minha falta de reação. Eles esperavam lágrimas, raiva, desespero. Eu não lhes daria essa satisfação.
Com meus livros nos braços, levantei-me e passei por eles, saindo da sala sem lhes dirigir outro olhar. Eu podia sentir seus olhos queimando em minhas costas, mas não me virei. A primeira batalha havia sido travada, e eu não havia recuado. A guerra, no entanto, estava apenas começando.
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