
O Retorno da Estilista Ignorada
Capítulo 2
O ar no salão nobre da universidade estava pesado, carregado com o cheiro de livros antigos e o perfume caro dos ex-alunos bem-sucedidos.
Era a celebração do centenário, um evento grandioso que reunia as maiores mentes e as famílias mais influentes que já haviam passado por aqueles corredores.
Eu, Maria Clara, estava ali, de volta ao país depois de sete longos anos.
Recebi o convite no meu ateliê em Paris, um envelope grosso com o selo dourado da universidade. Minha primeira reação foi jogá-lo no lixo, mas algo me fez parar. Voltar não era sobre perdoar, era sobre provar a mim mesma que eu tinha vencido.
Agora, parada perto de uma das colunas de mármore, eu me sentia uma estranha. As pessoas passavam, sorriam, conversavam em grupos animados, mas eu não pertencia mais àquele lugar. Aquele lugar que um dia chamei de lar, que me acolheu e depois me cuspiu para fora sem a menor cerimônia.
Então, eu o vi.
Pedro Henrique.
Ele estava no palco, posicionado sob a luz forte do holofote principal. O tempo tinha sido bom para ele, o que me encheu de uma raiva silenciosa. O mesmo cabelo escuro perfeitamente arrumado, o mesmo terno caro que parecia ter sido feito sob medida para seu corpo. Ele era o herdeiro do império dos Vasconcelos, e agia como tal, com uma confiança que beirava a arrogância.
Ele era o representante dos ex-alunos escolhido para o discurso da noite. Uma piada de mau gosto.
Meu coração deu uma batida forte e dolorosa, um eco do passado que eu lutei tanto para silenciar.
Sua voz preencheu o salão, amplificada pelos microfones. Ele falou sobre legado, sobre futuro, sobre as memórias construídas naqueles corredores. E então, seu discurso tomou um rumo pessoal.
"Muitas vezes, na vida, tomamos decisões erradas" , ele disse, e seus olhos, de alguma forma, encontraram os meus na multidão. "Impulsionados pelo orgulho, pela imaturidade ou pela influência de pessoas erradas, deixamos o amor verdadeiro escapar por entre os dedos."
Um murmúrio percorreu o público.
Eu senti um calafrio. Eu sabia onde aquilo ia dar.
"Mas o tempo nos ensina. E nos últimos sete anos, eu aprendi. Aprendi que não há nada mais valioso do que a mulher que eu deixei ir."
Ele desceu os degraus do palco lentamente, sem nunca desviar o olhar do meu. O silêncio no salão era total, todos os olhos agora estavam em nós. Ele caminhou até parar na minha frente.
"Eu sei que errei, Maria Clara. Errei de uma forma imperdoável."
Ele se ajoelhou.
Um suspiro coletivo ecoou pelo salão. Câmeras de celulares foram erguidas.
Do bolso do paletó, ele tirou uma pequena caixa de veludo preto. Abriu-a, revelando um anel de diamante que brilhava de forma obscena sob as luzes.
"Eu esperei sete anos por este momento. Para te pedir perdão e para te pedir que me dê uma segunda chance. Casa comigo, Maria Clara?"
O mundo ao meu redor desapareceu. O barulho, as luzes, os olhares curiosos. Tudo o que eu via era o rosto dele, o anel, e tudo o que eu sentia era o gosto amargo da traição.
Minha mente me jogou de volta no tempo, para a pior noite da minha vida. A noite da minha formatura.
Eu estava no auge, meu trabalho de conclusão de curso, uma coleção de moda inteira, estava sendo aclamado como genial. O prêmio de melhor aluna do ano era meu. E então, o mundo desabou.
A acusação de plágio.
Sofia, a filha de um dos sócios do pai de Pedro Henrique, apareceu com rascunhos grosseiros, alegando que eu havia roubado suas ideias. Era uma mentira descarada, uma armação tão óbvia, mas ela chorou, se fez de vítima, e as pessoas acreditaram.
Eu procurei Pedro Henrique, meu namorado, o homem que eu amava mais do que a mim mesma.
"Você sabe que é mentira, Pedro. Você me viu passar noites em claro desenhando cada peça."
Ele me olhou com uma frieza que eu nunca tinha visto.
"Sofia me mostrou as provas, Maria Clara. O pai dela é importante para os negócios da minha família."
E com isso, ele me virou as costas. Não apenas me virou as costas, ele usou sua influência para me difamar. Ele confirmou a história de Sofia para a imprensa e para o conselho da universidade. Ele me pintou como uma ladra, uma fraude.
Fui humilhada publicamente. Perdi meu prêmio, meu diploma foi suspenso, e meu nome foi manchado de tal forma que nenhuma empresa de moda no Brasil sequer aceitava olhar meu portfólio. Fui banida da indústria que era a minha vida.
E ele, o homem que agora estava ajoelhado aos meus pés, foi o arquiteto da minha ruína.
A realidade voltou com a força de um soco.
Bruno, o melhor amigo de Pedro Henrique, se aproximou de mim, falando baixo, com urgência.
"Maria Clara, por favor" , ele sussurrou. "Ele está sofrendo. Ele se arrepende de verdade. Ele te esperou todos esses anos, nunca se envolveu com ninguém."
A obsessão dele não era meu problema. O arrependimento tardio dele não apagava a dor.
Eu olhei para Bruno, meus olhos secos e frios.
"Isso não muda nada."
Minha voz saiu firme, sem um pingo de hesitação.
Eu me virei, pronta para deixar aquele circo para trás. Pronta para deixar Pedro Henrique ajoelhado no chão, com seu anel e seu arrependimento inútil. Eu não era mais a garota que ele destruiu. Eu era outra pessoa agora. Uma pessoa que ele não conhecia e que nunca mais teria.
Você pode gostar





