Seguir
Capítulos
Compartilhar
Capa do romance O Renascer de Ana Lúcia

O Renascer de Ana Lúcia

Na ceia de Ano Novo, Ana Lúcia esperava gratidão, mas recebeu humilhação. Dona Sofia dividiu a herança entre todos, deixando para a filha apenas o fardo de cuidar dela. Após décadas de sacrifícios ignorados, a fúria de Ana explodiu, resultando em um confronto violento com sua família gananciosa. Agredida fisicamente por sua mãe e irmãos, ela decidiu dar um basta. Com o apoio de Ricardo e Lucas, Ana renasce das cinzas, pronta para lutar por quem realmente a ama.
Capítulos
Compartilhar

Capítulo 2

A véspera de Ano Novo sempre foi o dia mais movimentado do ano para mim, Ana Lúcia, e este ano não era diferente. O cheiro de peru assado e de farofa se misturava no ar quente da cozinha, enquanto o som da minha família conversando animadamente na sala de estar chegava até mim. Eu enxuguei o suor da testa com as costas da mão e olhei para a enorme quantidade de comida espalhada na bancada. Eu tinha passado os últimos dois dias cozinhando, limpando e preparando tudo para que a ceia de Ano Novo na casa da minha mãe, Dona Sofia, fosse perfeita, como sempre.

Meu marido, Ricardo, e meu filho adolescente, Lucas, estavam na sala com os outros. Eu podia ouvir a voz do meu irmão mais velho, Carlos, falando alto sobre algum negócio, e a risada do meu irmão mais novo, Pedro. As esposas deles, minhas cunhadas, provavelmente estavam exibindo suas roupas novas. Eu suspirei. Eu amava minha família, mas às vezes sentia que era a única que se esforçava para manter todos unidos, um fardo que carregava desde que meu pai adoeceu e eu tive que cuidar dele por anos, enquanto meus irmãos viviam suas vidas.

"Ana Lúcia, a sobremesa já está pronta?", a voz da minha mãe, Dona Sofia, soou da porta da cozinha. Ela tinha 70 anos, mas sua postura era ereta e seu olhar, afiado.

"Quase, mãe. Só preciso colocar a calda no pudim."

"Anda logo com isso. Estamos todos com fome e eu tenho um anúncio importante para fazer durante a ceia", disse ela, sem oferecer ajuda, e voltou para a sala.

Um mau pressentimento surgiu em meu peito, mas eu o ignorei. Era véspera de Ano Novo, um tempo para esperança. Terminei de arrumar as travessas em uma bandeja grande e, com esforço, levei tudo para a sala de jantar. A mesa estava lindamente arrumada, exatamente como minha mãe gostava. Todos se sentaram, e eu me sentei por último, no único lugar que sobrou, ao lado de Ricardo, que me deu um olhar cansado. Ele e Lucas estavam quietos, quase distantes, um comportamento que se tornara comum nesses encontros familiares. Eu sabia que eles se ressentiam do tempo e da energia que eu dedicava à minha família de origem, muitas vezes em detrimento da nossa.

Depois que todos comeram e elogiaram a minha comida, Dona Sofia limpou a garganta com um ar de importância. O barulho na sala cessou imediatamente. Todos os olhos se voltaram para ela.

"Bom, como todos sabem, eu não estou ficando mais jovem", ela começou, com uma voz calma e controlada. "Eu pensei muito e decidi que é hora de resolver a questão da minha herança. Não quero que vocês briguem por causa disso quando eu me for."

Meu coração bateu um pouco mais rápido. Eu nunca esperei muito, mas talvez... talvez minha mãe finalmente reconhecesse tudo que eu fiz por ela e pelo meu pai.

Dona Sofia continuou. "Carlos, meu filho mais velho, você é o pilar desta família. Para você, eu deixo o apartamento da praia. É seu por direito."

Carlos sorriu, presunçoso, e sua esposa deu um beijo em sua bochecha. Ele nem sequer olhou para mim.

"Pedro, meu caçula", disse minha mãe, virando-se para o meu outro irmão. "Você sabe aproveitar a vida. O apartamento aqui na cidade, onde eu moro, será seu. Assim você pode continuar perto."

Pedro, que vivia de festa em festa e mal parava em casa, abriu um sorriso largo. "Obrigado, mãe! A senhora é a melhor!"

Minha mãe sorriu de volta, satisfeita. "E para o meu único neto, Lucas...", ela disse, olhando para o meu filho. Lucas pareceu surpreso. "Eu sei que sua mãe e seu pai trabalham duro, mas um dinheirinho extra é sempre bom para começar a vida. Deixo para você minha poupança, duzentos mil reais."

Ricardo e eu nos olhamos, chocados. Lucas ficou sem palavras. Duzentos mil reais era muito dinheiro.

"E para minhas queridas noras", continuou Dona Sofia, pegando duas caixinhas de veludo de sua bolsa. "Para que se lembrem de mim." Ela entregou a cada uma uma pulseira de ouro maciço. Até a noiva de Carlos, que estava na família há menos de um ano, recebeu uma. Elas abriram as caixas com gritinhos de alegria.

A sala estava cheia de sorrisos e agradecimentos. Todos tinham recebido algo. Todos, menos eu. Eu fiquei sentada, em silêncio, sentindo um vazio gelado se formar no meu estômago. Minha mãe olhou para todos, seu rosto brilhando de autossatisfação, e então seus olhos pousaram em mim.

O silêncio pesou na sala. Todos olharam para mim, esperando.

"E para a Ana Lúcia...", disse Dona Sofia, sua voz suave, mas com um tom final que não admitia discussão. "...ela não precisa de bens materiais."

Ela fez uma pausa, saboreando o momento.

"Ana Lúcia vai cuidar de mim na minha velhice. É o dever de uma filha. Ela terá a honra de me ter em sua casa."

O mundo pareceu parar. O som das risadas, o cheiro da comida, tudo desapareceu. A única coisa que eu ouvia era o sangue pulsando nos meus ouvidos. Não era um pedido. Era uma ordem. Depois de me excluir de tudo, de me deixar sem nada, ela ainda me jogava o maior fardo de todos, como se fosse um prêmio. A injustiça era tão grande, tão esmagadora, que algo dentro de mim se partiu.

Anos de sacrifício, de noites mal dormidas cuidando do meu pai, de abrir mão dos meus próprios sonhos para sustentar os caprichos deles, de ser sempre a última da fila... tudo veio à tona em uma onda de fúria. Eu olhei para o rosto sorridente da minha mãe, para os olhares presunçosos dos meus irmãos e para a indiferença das minhas cunhadas.

Eu senti uma raiva tão pura, tão intensa, que me assustou. Uma revolta que vinha do fundo da minha alma, uma dor acumulada por quarenta anos. Eles não tinham me deixado nada. Eles tinham me deixado a responsabilidade, a obrigação, o trabalho. E ainda esperavam que eu agradecesse.

Naquele momento, eu soube. Eu não ia mais aceitar. Eu não ia mais ser a boba útil, a filha obediente. A Ana Lúcia que eles conheciam tinha acabado de morrer ali, naquela mesa de Ano Novo. Uma nova mulher estava nascendo, uma mulher que não ia mais tolerar a exploração e a humilhação. Eu olhei para a toalha de mesa de linho branco, para os pratos caros e as taças de cristal. E uma ideia terrível e libertadora tomou conta de mim.

Você pode gostar

Capa do romance 8 Segundos - A Cowgirl e o Doutor
9.2
Oito segundos definem o destino entre o fracasso e a glória. Rayka, uma cowgirl destemida, está disposta a arriscar tudo para honrar o legado do pai, mesmo carregando traumas de uma traição passada. Em meio ao desafio épico de domar um touro invicto, seu caminho cruza com o de Gael. Ele é um médico dedicado que, em uma viagem despretensiosa, pode finalmente encontrar o amor que o trabalho sempre impediu. Descubra esse encontro intenso entre o dever e a paixão.
Capa do romance A Esposa Indesejada: O Remorso do Mafioso
8.0
Beatriz foi usada por anos como substituta de sua irmã, Helena. Quando a gêmea retorna fingindo um câncer, Beatriz é vítima de uma armação cruel. Traída por seus irmãos e por João Pedro, o subchefe que amava, ela sofre torturas físicas e psicológicas. No auge do desespero, escolhe o abismo em vez da humilhação. Após sua suposta morte, a verdade sobre Helena surge. Agora, os monstros que a destruíram buscam por uma mulher que não existe mais.
Capa do romance A filha do meu inimigo
8.2
Henrico Zattani foi preso injustamente e, durante o cárcere, alimentou um desejo implacável de revanche contra quem o traiu. Prestes a conquistar a liberdade, ele refina sua estratégia de vingança focando em um novo alvo: Amélia Leal. Ela é a filha caçula do seu maior rival e irmã da sua ex-mulher. Agora, o ex-membro da família retorna para destruir o inimigo através da pessoa que ele mais ama, transformando a vida de Amélia em um jogo de poder.
Capa do romance ALMA QUEBRADA
8.7
Com um olhar vazio marcado pela amargura e insanidade, carrego uma alma despedaçada. Após forjar minha própria morte para recomeçar, meu passado ressurge quando ela me encontra. As mentiras profundas que escondi foram expostas, revelando que o homem que todos conheciam sumiu. Agora, o tempo urge para reconquistá-la. Em uma corrida contra o relógio, enfrentarei uma batalha real, onde meus inimigos conhecerão meu lado mais sombrio. Preparem-se para o caos.
Capa do romance Meu Instrutor
9.6
Adotada pelos Evans, uma jovem vive sob regras rígidas e treinos constantes de autodefesa, sentindo-se uma fugitiva sem saber o motivo. O mistério sobre seu passado gera medo, enquanto ela lida com seu instrutor, o único filho da família. Ele é um homem autoritário e rude, tornando a convivência impossível. Entre conflitos e a falta de explicações, ela tenta entender por que sua segurança exige tanto sacrifício e qual perigo a aguarda no futuro.
Capa do romance Minha Protegida
8.8
Criado para servir à família Macenna, aceitei o dever de protegê-los com minha vida. O destino, porém, me designou para a pior missão: ser o guarda-costas de Ávila. A modelo vive escândalos com o namorado Michael Muller, sendo um pesadelo para qualquer um. O maior desafio não é o perigo externo, mas esconder o que sinto por ela. Desde aquele dia amaldiçoado, nutro um sentimento secreto por quem deveria apenas ser meu objeto de proteção.