
O Renascer de Ana Lúcia
Capítulo 3
A decisão se solidificou em minha mente. Um fogo gelado percorreu minhas veias. Não houve mais hesitação. Eu me levantei devagar, minhas mãos tremendo, não de medo, mas de uma raiva contida que finalmente encontrava uma saída. Todos os olhos na sala me seguiram, confusos.
"Ana Lúcia, o que você está fazendo?", perguntou minha mãe, com um tom de irritação.
Eu não respondi. Em vez disso, agarrei a borda da toalha de mesa com as duas mãos. O tecido de linho era grosso sob meus dedos. Com um puxão violento e um grito que rasgou minha garganta, eu virei a mesa.
O som foi ensurdecedor. Pratos de porcelana se estilhaçaram no chão, taças de cristal explodiram em mil pedaços. O peru assado rolou pelo tapete, deixando um rastro de gordura. Garrafas de vinho se quebraram, espalhando um líquido vermelho escuro que parecia sangue sobre o caos de comida e cacos.
Por um instante, um silêncio chocado dominou o ambiente. Ninguém se moveu. Minha mãe, meus irmãos, minhas cunhadas, todos me olhavam com os olhos arregalados, bocas abertas em descrença. Eles pareciam estátuas congeladas em meio à destruição.
Mas a minha fúria não tinha acabado. Aquele ato de destruição não foi suficiente para apagar anos de dor. Peguei uma garrafa de champanhe ainda intacta e a arremessei contra a parede. O "pop" da rolha foi seguido pelo barulho do vidro se quebrando. Pedaços de cristal choveram sobre o aparador.
"CHEGA!", eu gritei, minha voz rouca de emoção. "EU NÃO AGUENTO MAIS!"
Eu olhava para o desastre que eu tinha criado, a comida pela qual trabalhei tanto agora misturada com cacos e sujeira, e eu não sentia nenhum arrependimento. Pelo contrário. Eu sentia um alívio imenso, uma satisfação selvagem. Cada prato quebrado era um dia de humilhação que eu estava destruindo. Cada garrafa estilhaçada era uma promessa não cumprida, uma esperança esmagada.
Eu me virei para eles, meu peito subindo e descendo com a respiração ofegante. Lágrimas de raiva escorriam pelo meu rosto, mas meu olhar era firme.
"Vocês acham que eu sou o quê? Uma empregada? Uma escrava?", minha voz tremia, mas estava cheia de uma força que eu não sabia que possuía. "Vocês dividem tudo, os apartamentos, o dinheiro, as joias... e para mim? Para mim vocês deixam a obrigação de cuidar dela?"
Eu apontei para minha mãe, que agora me olhava com uma mistura de choque e fúria.
"Vocês acham que isso é justo? Depois de tudo que eu fiz? Quem cuidou do pai quando ele estava morrendo? Fui eu! Quem pagou as contas quando o Pedro perdeu todo o dinheiro no jogo? Fui eu! Quem organiza cada festa, cada reunião, quem cozinha e limpa para que vocês possam sentar e aproveitar? FUI EU!"
Minha voz ecoava na sala silenciosa e destruída. Eu não estava apenas gritando. Eu estava exorcizando demônios, colocando para fora todo o ressentimento, toda a mágoa, todo o ódio que eu guardei por tantos anos. A sensação era libertadora. Era como se eu estivesse quebrando as correntes que me prenderam por toda a minha vida. Eu não era mais a filha boazinha, a irmã prestativa. Eu era uma mulher no limite, uma mulher que finalmente tinha encontrado sua voz em meio aos destroços de uma ceia de Ano Novo.
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