
O Rei do Meu Bairro
Capítulo 2
Quando Pedro apareceu na porta a sala ficou toda agitada.
Diana o encarou com revolta, mas logo ficou surpresa como os demais. O rosto do garoto estava cheio de hematomas. O olho direito fechado de tão inchado.
Depois do burburinho, veio o silêncio enquanto ele andou devagar até a mesa dela e colocou um livro sobre sua mesa. Diana reconheceu a capa, era o livro que havia tomado de suas mãos...
- Eu... - ele tossiu e pôs a mão no peito como se aquilo doesse - Eu vim pedir desculpas por ter sido um... um...- Pedro hesitou erguendo os olhos para os fundos. - Um filho da puta com você. - completou provocando risos em toda classe. - Um filho da puta e um covarde.
Ele olhou mais uma vez рага os fundos e aparentemente numa relutância interna se ajoelhou diante dela provocando outra agitação de risos. Intrigada com aquela redenção, Diana virou o rosto para trás, o famoso fundão. La ficavam os garotos mais velhos e temidos de sua sala, entre eles, o menino que seu pai não gostava, o jovem sentado despojadamente na penúltima carteira da fileira da parede. Havia sentado ao seu lado no dia anterior, quando ele se dirigiu a ela pela primeira vez perguntando se estava bem. Via agora seus lábios curvados em um sorriso satisfeito, demonstrando que estava se divertindo como o resto da turma. Quando ele encontrou seu olhar, os olhos escuros se concentraram nela de forma intensa e enigmática. Um olhar que sempre lhe provocava arrepios ao cruzar com eles.
Era para ele que Pedro olhava cheio de medo?
Será que...
- Eu peço perdão... Por tudo que fiz. – Pedro disse em tom para que todos ouvissem.
- Seu vacilão... – Marcão gritou aplaudindo junto com os outros alunos. Rapidamente Pedro levantou-se e foi para o seu antigo lugar.
Diana não soube descrever a sensação que sentia no peito, ao mesmo tempo que parecia um alívio, também era algo perturbador. Alguém se vingou por ela. Temia só de imaginar quem seria e a confirmação veio no intervalo. Ela foi rodeada pelas garotas de sua sala. Mirela e Letícia. As duas andavam sempre juntas e pareciam clone uma da outra.
- Menina... Você tem um anjo protetor... E o nome dele é Randal...
Elas estavam eufóricas.
- Randal...
Diana repetiu tentando lembrar da chamada. Era sempre alguém do fundo que respondia.
- Você é muito desligada, cara!
Letícia a fez virar em direção ao palco de eventos, era um elevado que os garotos mais velhos gostavam de sentar e resenhar.
- Aquele lá, o garoto alto, forte, bonito e...
-Bandido.
Mirela completou sarcástica.
-Medalhista de judô, eu ia dizer medalhista! – Letícia esbravejou – O pai dele que é bandido.
- Não se iluda, miga, ele é filho do Rei do tráfico da região, viu o que ele fez com o chato do Pedro? O cara ta só com um olho!
A outra ainda rebateu.
Diana arqueou as sobrancelhas.
-Foi ele... - sussurrou. Seu pai sempre referia àquele garoto como "o filho do bandido".
- Sim, ontem na saída da escola. – Mirela confirmou e Letícia sorriu.
- Bem feito! O Randal disse que arrancará os dentes dele se olhar para você, chegar perto de você, tocar em você... Ele parecia possuído ontem.
-Agora o cara tá lá no banheiro com medo de encarar todo mundo. - Mirela completou aos risos.
No meio daquela conversa, Diana estava presa na vista do rapaz em outra parte do pátio.
Então ele era o Randal... O observou conversar distraidamente com seus colegas de costume. Tentava imaginar aquele garoto batendo em alguém.
Naqueles poucos meses de convivência em sala de aula, ela quase não ouvia sua voz e cruzou poucas vezes com seu olhar. Ele era silencioso demais e ela o ignorou tanto que nem dava conta de sua presença.
- Diana!
As meninas...
Voltou-se para elas.
-Você sabe que ele gosta de você, né?
- Coitada... - Mirela a encarou solidária.
- Quem dera ele gostasse de mim...
- Você é louca, Letícia!
- Vocês duas são loucas, não sou o tipo dele... E mesmo que fosse eu...
- Você... - Mirela a encarou bem - Você nunca notou ele lá atrás, aonde costuma ler né? Sentado do outro lado te observando.
Diana sustentou o olhar de Mirela com estranheza. Nunca percebeu nada daquilo. A única coisa que sabia sobre ele é que deveria evitá-lo.
-Pois então trate de prestar atenção e verá.
As palavras da colega de sala coincidiram com a aproximação de sua irmã, Jéssica na turma de garotos.
- Oi...
A jovem se dirigiu a Randal. De longe, Diana franziu o cenho, estranhando o fato da irmã conhecê-lo.
Randal encarou a garota com curiosidade.
- Oi... - ele respondeu baixo e pensativo - Eu conheço você...
Todas as alunas pareciam iguais de calça jeans e camisa branca, mas para serem diferenciadas elas ousavam na maquiagem e Jéssica gostava de se destacar.
- Eu soube o que você fez pela minha irmã.
O garoto estreitou os olhos com curiosidade.
- E quem é sua irmã?
Jéssica inclinou a cabeça para trás indicando onde estava Diana.
- A Diana da sua sala, a que o Pedro covarde beijou... Ele mereceu ficar com aquela cara amassada, obrigada, por isso...
Randal olhou sobre a cabeça dela e seu rosto suavizou ao ver Diana na outra parte do pátio. Viu seu olhar muito sério sobre eles.
- Você cresceu bem... Seu nome é Jéssica, né?
Ele voltou os olhos divertidos para ela.
-Sabe meu nome? - Jéssica perguntou animada.
-Eu saí daqui e você era só uma pirralha... - Randal olhou mais uma vez na direção de Diana.
-Ela não agradeceu você? - Jéssica acompanhou seu olhar - E nem vai, meu pai falou pra Diana nunca te dar atenção e sentar longe de você.
- Chiii...
Os amigos provocaram Randal que sorriu.
- E você já sabia disso... - Jéssica completou baixinho.
- E ele não disse isso pra você também? Pra ficar longe de mim?
- Sim ... - Jéssica fez uma cara marota - Mas a gente não é da mesma sala ...
Respondeu e virou-se afastando -se.
Randal a acompanhou com o olhar e sob a zombaria dos amigos.
- Essa mina é maluquinha, se o Tio Dito soubesse o que ela apronta por aí...
Um deles comentou.
- Migaaaa.
Uma das alunas alcançou Jéssica, amiga de infância, agora em transição de gênero. Seu nome de nascimento era Josias, mas as pessoas mais próximas a chamavam de Josy.
- O que você foi falar com o bonitão do Randal, eim?- ela perguntou enlaçando-a pelo braço. - Nem me chamou.
Josy usava os cabelos crespos curtos e sempre com uma tiara.
- Fui agradecer a ele por dar uma coça no chato do Pedro.
- O coitado ainda não saiu do banheiro...
- Que cagão! - Jéssica debochou e as duas riram.
- E aí, o que o bonitão disse?
- Nada demais, ué!
- Ele olhou a tua polpa quando se afastou.
Jéssica sorriu.
- Sério?
- Sério.
- Até que em fim me notou...
- Oh só, não quero te desanimar não, mas estão dizendo que ele é a fim da Di... Que gosta dela.
Josy comentou e ela fez uma careta.
- Ele nunca chegou nela... E a Di não faz o tipo dele.
- Todo mundo já percebeu que ele gosta dela, depois daquela surra no Pedro, agora todos tem certeza..
- Isso tudo é conversa, os dois não tem nada a ver.
- Também acho, a Di é a maior princesa... Ah, mudando de assunto, tenho que te contar. Fui convidada pela comissão de formatura do terceiro ano para cantar na festa deles e tu precisa me ajudar, queria ir de Beyoncé.
Josy estava animada.
- É claro que vou, sou sua maquiadora oficial.
- Preciso de uma lace nova.
- Vamos falar com a Carol, quem sabe a mãe dela dá um descontinho, vem!
Jéssica puxou o amigo para a lanchonete, onde a tal Carol era a atendente.
Diana ficou aliviada após a irmã se afastar de Randal e sua turma. Que o pai não soubesse que ela se aproximou do filho do Rei, aquilo ia dar muita confusão.
- Beijada a força!
Dito repetiu olhando para Diana com espanto.
Jéssica...
A própria cara da dissimulação.
-Ah, você não contou pro papai?- ela perguntou parecendo se divertir.
- Amanhã mesmo eu vou até aquela escola e...
-Pra quê? - Jéssica o encarou com estranheza. - Ele já pediu perdão pra Di de joelhos, né mana? Com a cara toda arrebentada...
Diana apertou os lábios, a irmã queria mesmo ver o circo pegando fogo.
- Se a escola não obrigasse a gente a guardar o celular, a essa hora a maninha estava famosa...
- O quê?
- O filho do Rei, foi ele quem deu uma surra no moleque.
Surpreso, Dito encarou Diana.
- Deveria ter me contado que um garoto estava te perturbando...
Diana fitou o pai arrasada.
- Não queria te aborrecer... - disse e virou-se para a irmã - Vocês sempre estão indo lá por causa da Jéssica.
- Ui... - Jéssica desdenhou.
- Esse... Esse filho do Reis, ele...
- Nunca dei motivo pra ele querer me defender...
- O cara só foi legal com ela, pai! Como seria com qualquer outra. - Jéssica interveio - E ele nunca deu em cima dela, a Di não faz o tipo dele.
- Que bom! - Dito a encarou firme - E tomara que nem você faça o tipo dele também, já avisei antes e vou reforçar, não quero nenhuma das duas perto desse cara, ouviram bem?
Na manhã seguinte, Dito estacionou o carro no lado oposto da escola. Os portões estavam abertos. Ainda havia alguns alunos em frente a escola.
- A partir de hoje, eu trago e busco vocês... - Dito olhou para Jéssica no banco detrás - Não quero nada de conversinha mole na entrada, é ir direto pra sala , ouviu Jessi?
- Palhaçada, parece que voltei pro pré!
- Pois será assim de hoje em diante.
As duas saíram do carro sob os olhares dos que ainda estavam por ali. Dito prestou atenção na turma de rapazes próximos ao portão. Todos olharam para suas meninas quando elas entraram na escola. Mas um deles se deteve na sua mais velha. O filho de João Reis. Conhecia o jovem do campo de futebol, onde ele jogava às vezes com seus amigos e de suas caminhadas pelas ruas de Roseiral, muitas vezes na companhia de seu cachorro que levava a todo canto. Diana não olhou em sua direção ao entrar, e aquilo deixou o pai satisfeito. Quando o rapaz virou-se para ele, Dito sustentou impassivelmente seu olhar curioso, deixando evidente sua antipatia pelo filho do Rei.
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