
O Recomeço Inesperado
Capítulo 2
A dor aguda na minha barriga foi a primeira coisa que senti. Depois veio o frio do chão do hospital, um frio que parecia subir pelos meus ossos e se instalar no meu coração. Eu estava grávida de cinco meses, esperando um menino, e tudo que eu conseguia pensar era nele. A queda tinha sido rápida, um empurrão vindo do nada, seguido pelo som do meu próprio grito e pelo impacto surdo do meu corpo no chão.
Quando abri os olhos, a luz branca do teto do hospital me cegou por um instante. Pedro, meu marido, estava ao meu lado, segurando minha mão. Seu rosto estava contorcido numa máscara de preocupação.
"Maria, meu amor, você acordou," ele disse, a voz soando rouca. "Eu fiquei tão preocupado. Como você está se sentindo?"
Sua preocupação parecia real, palpável. Mas algo estava errado. Seus olhos, que eu conhecia tão bem, não focavam nos meus. Eles desviavam para a minha barriga, para a porta, para qualquer lugar menos para mim. Era um detalhe pequeno, mas foi o suficiente para acender um alarme dentro de mim. Fingi estar mais sonolenta do que realmente estava, fechando os olhos novamente, mas mantendo meus ouvidos atentos.
O telefone dele vibrou. Ele se afastou um pouco da cama, achando que eu estava dormindo. Sua voz era um sussurro baixo, mas no silêncio do quarto particular, cada palavra era clara como cristal.
"Lúcia, já te disse para não me ligar aqui," ele disse, irritado. "Sim, ela acordou... Não, ainda não sei do bebê. É isso que importa, não é?"
Um calafrio percorreu meu corpo, mais intenso que o frio do chão. Lúcia. A mulher que me empurrou. A amante do meu marido.
Houve uma pausa. Eu podia imaginar Lúcia do outro lado da linha, com sua voz chorosa e manipuladora.
"Eu sei que você não queria," Pedro continuou, sua voz suavizando um pouco. "Foi um acidente. Mas você precisa entender, Lúcia, esse filho é importante para mim. É o meu herdeiro. Sem ele, tudo fica mais complicado. A Maria é ingênua, ela vai superar. O que importa é garantir que o menino nasça saudável."
As palavras dele me atingiram como socos. Herdeiro. Complicado. Ingênua. Ele não estava preocupado comigo. Ele não estava preocupado com nosso filho por amor. Era um plano. Um negócio. E eu era apenas uma peça nesse tabuleiro doente.
A porta do quarto se abriu e João, o melhor amigo de Pedro e meu confidente, entrou. Ele viu Pedro ao telefone e sua expressão se fechou.
"O que você está fazendo?" João perguntou, a voz baixa e tensa, apontando para o telefone. "Com quem você está falando? Com ela?"
Pedro desligou o telefone rapidamente, o rosto pálido. "João, não é o que você está pensando."
"Não é?" João riu, um som sem humor. "Eu vi, Pedro. Eu vi Lúcia perto da sua casa hoje. Eu vi o jeito que ela olhou para a Maria. E agora você está aqui, sussurrando com ela ao telefone enquanto sua esposa, que acabou de sofrer uma queda grave, está deitada numa cama de hospital. Você perdeu a noção? Onde está sua decência?"
A condenação na voz de João era clara e cortante. Ele sempre desconfiou de Lúcia, sempre me alertou sobre a ambição dela, mas eu, cega de amor por Pedro, nunca quis ver.
Pedro tentou se recompor, forçando um ar de autoridade. "Olha, João, foi um acidente terrível. Lúcia está arrasada. Eu vou cuidar de tudo. Vou dar à Maria o melhor tratamento, a melhor recuperação. Nós vamos superar isso, como uma família."
Suas promessas soavam vazias, falsas. Cuidar de mim? Ele estava cuidando dos próprios interesses.
Deitada na cama, imóvel, eu sentia a dor física na minha barriga se misturar com uma dor muito maior, uma que rasgava minha alma. A dor da traição. A dor de perceber que o homem com quem eu dividi minha vida, meus sonhos, era um estranho. Um monstro. E o nosso filho, o pequeno ser que crescia dentro de mim, era apenas um prêmio para ele. Naquele momento, com o som das vozes deles ao fundo, eu senti algo se quebrar dentro de mim. Não era apenas o meu corpo que estava ferido. Era a minha vida inteira. E eu sabia, com uma certeza terrível, que nada mais seria como antes. O nosso filho... ele se foi. Eu podia sentir. Um vazio gelado tomou conta do lugar onde antes havia vida e calor.
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