
O Recomeço Inesperado
Capítulo 3
No dia seguinte, Pedro voltou ao hospital. Ele trazia um buquê de rosas, minhas favoritas. Um gesto que, em outros tempos, teria derretido meu coração. Agora, só me causava náuseas.
Ele se sentou ao meu lado, colocando as flores na mesinha de cabeceira. Seus olhos evitaram os meus novamente.
"Alguma notícia?" ele perguntou, a voz tensa. "O médico já veio aqui? Ele disse alguma coisa sobre... sobre o bebê?"
Ele não perguntou como eu estava. Não perguntou se eu sentia dor. Sua prioridade era clara, exposta como uma ferida aberta.
"O médico ainda não veio," eu respondi, minha voz fraca, mas fria.
Naquele momento, um médico entrou no quarto, segurando uma prancheta. O rosto dele era sério. Pedro se levantou de um salto, o corpo rígido de ansiedade.
"Doutor, como está o meu filho?" ele perguntou, antes mesmo que o médico pudesse dizer bom dia. "Ele vai ficar bem, não vai?"
O médico olhou de Pedro para mim, com uma expressão de compaixão. "Senhor Silva, eu sinto muito..."
O rosto de Pedro ficou branco como papel. Ele cambaleou para trás, os olhos arregalados de pânico. "Não... não pode ser. Ela vai ser presa? A Lúcia... ela não pode ir para a cadeia por um acidente!"
O médico franziu a testa, confuso com a reação dele. "Senhor, do que está falando? Não há crime nenhum aqui. Foi uma queda, um acidente trágico."
O alívio que inundou o rosto de Pedro foi a coisa mais nojenta que eu já vi. Foi como se um peso enorme tivesse sido tirado de seus ombros. A preocupação dele não era com o nosso filho. Era com a amante dele. Ele não estava de luto, estava aliviado por Lúcia não enfrentar consequências legais.
Aquela imagem se gravou na minha mente. A máscara de marido amoroso caiu, revelando o homem egoísta e calculista por baixo. Lembrei-me do dia em que descobri que estava grávida. Pedro me levantou no ar, girando pela sala, rindo. Ele beijou minha barriga e sussurrou: "Obrigado, meu amor. Você me deu o maior presente do mundo." Ele parecia tão feliz, tão genuinamente emocionado. Como pude ser tão cega? Como pude confundir a ambição dele com amor? Aquela felicidade não era por mim, ou por nós. Era pelo "herdeiro" que eu estava carregando.
Mais tarde, quando Pedro saiu para "resolver umas coisas", João veio me ver. Ele se sentou em silêncio por um longo tempo, apenas segurando minha mão. Foi ele quem me deu a notícia completa, a verdade que o médico e Pedro estavam evitando.
"Maria," ele começou, a voz pesada. "O médico falou comigo. A queda... foi muito grave." Ele fez uma pausa, engolindo em seco. "Você perdeu o bebê."
Eu já sabia. Eu sentia no vazio dentro de mim. Mas ouvir as palavras em voz alta tornou tudo real. As lágrimas que eu estava segurando finalmente vieram, silenciosas e quentes.
"E tem mais uma coisa," João continuou, apertando minha mão com mais força. "O seu útero sofreu um dano muito severo. Maria... você não vai mais poder ter filhos."
O mundo parou. O som do meu próprio coração batendo nos meus ouvidos era a única coisa que eu ouvia. Infertilidade. A palavra ecoou na minha cabeça, fria e definitiva. Pedro não só tinha me traído, ele e a amante dele tinham me tirado tudo. Meu filho. E a minha capacidade de ser mãe para sempre.
Quando Pedro voltou mais tarde, ele estava estranhamente calmo. Ele não sabia que eu já conhecia toda a verdade.
"Amor, eu estive pensando," ele disse, sentando-se na beira da cama. "Sobre o futuro. Eu sei que foi um choque terrível, mas nós somos fortes. Podemos superar isso. Existem outras maneiras. Podemos contratar uma barriga de aluguel, ou talvez adotar. Teremos nosso herdeiro, de um jeito ou de outro. Eu vou cuidar de tudo."
Ele falava como se estivesse planejando uma fusão de empresas, não discutindo a perda de nosso filho e a destruição do meu corpo. Ele queria me consertar, me substituir, para que seu plano de ter um herdeiro não fosse interrompido.
João, que tinha voltado e estava parado perto da porta, explodiu.
"Você é inacreditável!" ele rosnou para Pedro, avançando na direção dele. "Você está ouvindo o que está dizendo? A mulher que você diz amar acabou de perder o filho e descobriu que nunca mais poderá ter outro, e você está falando de 'barriga de aluguel'? Você é cego ou apenas um monstro completo?"
A fúria de João era um reflexo da minha própria. Mas eu estava vazia demais para gritar. Eu apenas olhava para Pedro, o homem que eu um dia amei, e não via nada além de um estranho frio e calculista.
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