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Capa do romance O Recomeço do Nosso Amor

O Recomeço do Nosso Amor

Sofia Almeida vê seu mundo ruir com uma doença terminal. Ao reencontrar Diogo Monteiro, seu grande amor, ele está noivo da ardilosa Leonor. Desesperada, Sofia usa chantagem para tê-lo por perto, mas recebe apenas desprezo e humilhação pública. Após ser traída e morta, ela renasce como Mariana Costa. Enquanto Diogo lida com a culpa e a verdade sobre o passado, o destino os une novamente. Será que esse amor resistirá às cicatrizes de uma vida de dor?
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Capítulo 2

O diagnóstico caiu como uma pedra no meu estômago.

Aplasia Medular Severa.

As palavras do médico, ditas num tom neutro, quase indiferente, ecoavam na sala fria do consultório.

Terminal.

Senti o meu corpo gelar, mas forcei um sorriso cínico nos lábios.

Típico da minha sorte.

Os meus dias estavam contados.

Agarrei no relatório com as mãos trémulas, a fachada de resiliência a começar a rachar.

Mal saí do hospital, a notícia do regresso de Diogo Monteiro a Lisboa apanhou-me de surpresa.

Ele, o meu Diogo.

Ou melhor, o ex-Diogo.

Vinha de Berlim, onde construíra uma carreira de sucesso numa start-up tecnológica.

E não vinha sozinho.

Trazia Leonor Bastos a tiracolo, a noiva perfeita, elegante, de boa família.

A união deles parecia mais um negócio bem calculado do que uma história de amor.

O meu coração afundou-se um pouco mais.

Como se a sentença de morte não bastasse, o universo decidia esfregar-me na cara a felicidade dele.

As revistas sociais já fervilhavam com fotos do casal.

Leonor era tudo o que eu não era.

Sofisticada, discreta, com um ar de quem nunca partiu um prato.

Eu?

Eu era Sofia Almeida, a problemática, a que colecionava boatos sobre relacionamentos fugazes como se fossem selos.

Uma reputação talvez injusta, ou pelo menos exagerada, mas que se colara à minha pele.

Olhei para a minha imagem refletida na montra de uma loja.

Cansada. Pálida.

A doença já começava a deixar as suas marcas.

Ao lado da imagem imaculada de Leonor, eu parecia uma sombra, um farrapo.

Decidi ir ao aeroporto.

Precisava de o ver.

Uma última vez?

Não, eu tinha outros planos.

Vi-o de longe, a caminhar com Leonor.

Ele continuava igual, o mesmo ar charmoso, o sorriso que antes me derretia.

Agora, esse sorriso era para ela.

Leonor agarrava-se ao braço dele, possessiva.

Criei coragem e aproximei-me.

"Diogo?"

Ele virou-se.

Os olhos dele, aqueles olhos que eu conhecia tão bem, encontraram os meus.

Por um instante, vi surpresa.

Depois, a frieza instalou-se.

Como se eu fosse uma estranha, uma pedinte.

"Sofia."

A voz dele era cortante.

Leonor olhou para mim de cima a baixo, com um misto de curiosidade e desdém.

"O que fazes aqui?" perguntou Diogo, a impaciência a tingir-lhe a voz.

"Soube que tinhas voltado. Queria dar-te as boas-vindas." Menti.

Ele arqueou uma sobrancelha.

"Não precisavas de te incomodar."

A crueldade dele era palpável.

O passado entre nós, o amor intenso que tínhamos vivido, parecia ter sido apagado da memória dele.

Ou talvez ele o tivesse enterrado bem fundo.

O escândalo familiar que nos separara ainda pairava entre nós.

A minha mãe, Beatriz, casara-se com o pai dele, Vasco Monteiro.

Tornámo-nos meios-irmãos por afinidade.

Uma piada de mau gosto do destino.

Essa união destruíra o nosso namoro, transformara o nosso amor num tabu.

"Não te preocupes, não vim estragar a tua chegada triunfal," disse eu, o cinismo a proteger-me.

Ele olhou para Leonor, depois para mim.

"Ainda bem que percebes."

Cada palavra dele era uma facada.

O desprezo nos olhos dele era evidente.

Ele já não era o Diogo que eu amara.

Ou talvez fosse, mas escondido debaixo de camadas de ressentimento e conveniência social.

Engoli em seco a humilhação.

Eu tinha um plano.

E precisava dele.

Decidi visitar Constança, a mãe de Diogo.

Ela vivia numa clínica psiquiátrica nos arredores de Lisboa.

A depressão crónica consumia-a há anos, desde que Vasco a deixara por Beatriz.

Sofia era uma das poucas pessoas que ainda se importava com ela, que lhe levava flores e conversava.

Encontrei-a no jardim da clínica, sentada num banco, a olhar o vazio.

"Olá, Constança."

Ela sorriu debilmente ao ver-me.

"Sofia, querida. Que bom ver-te."

Conversámos um pouco, sobre trivialidades.

Tentei animá-la, mas era difícil.

A tristeza dela era um poço sem fundo.

De repente, a voz de Diogo cortou o ar.

"O que é que estás aqui a fazer?"

Ele estava parado atrás de mim, a fúria a deformar-lhe as feições.

Leonor observava de longe, com ar de quem assiste a um espetáculo desagradável.

"Vim visitar a tua mãe, Diogo. Alguém tem de o fazer."

"Não te metas onde não és chamada!" Ele agarrou-me o braço com força. "Deixa a minha mãe em paz!"

A dor física misturou-se com a dor emocional.

"Larga-me, Diogo! Estás a magoar-me."

Constança começou a chorar baixinho.

"Não discutam, por favor."

Ele largou-me o braço, mas a raiva ainda lhe queimava os olhos.

"Ela não precisa da tua falsa compaixão."

"Falsa compaixão?" Ri sem vontade. "Eu gosto genuinamente da tua mãe, Diogo. Ao contrário de outros."

Ele tirou um maço de cigarros do bolso.

Um gesto antigo, que eu conhecia bem.

Quando ele estava nervoso, fumava.

Instintivamente, levei a mão ao meu bolso e tirei o isqueiro.

Um hábito nosso, do tempo em que o mundo parecia girar à nossa volta.

Acendi-lhe o cigarro.

Os nossos dedos roçaram-se por uma fração de segundo.

Ele olhou para mim, surpreendido pela minha ação reflexa.

Por um instante, a máscara dele caiu.

Vi o Diogo antigo, o meu Diogo.

Mas foi só por um instante.

Ele recompôs-se rapidamente, a frieza de volta.

Saí da clínica a sentir-me esmagada.

A rejeição dele, a doença, tudo era demais.

Precisava de um escape.

Fui para um bar no Bairro Alto, um sítio sombrio e barulhento.

Pedi um whisky. Depois outro. E mais outro.

A bebida não aliviava a dor, apenas a entorpecia ligeiramente.

O álcool era um velho amigo nestas alturas.

Ou um inimigo disfarçado.

Um vulto aproximou-se da minha mesa.

Levantei os olhos, a visão turva.

Por um momento, pensei que era Diogo.

Os traços físicos eram semelhantes. O cabelo escuro, os olhos penetrantes.

Mas não era ele.

Era Rui Tavares.

O jovem artista de rua a quem eu tinha ajudado no passado.

A semelhança dele com Diogo sempre me confortara, de uma forma doentia.

Mas Rui tornara-se um problema.

Viciado em jogo online, vivia a pedir-me dinheiro.

"Sofia. Que surpresa desagradável."

A voz dele era arrastada, os olhos injetados.

"Rui. O que queres?"

"O mesmo de sempre, querida Sofia. Um pequeno empréstimo."

"Não tenho dinheiro para ti, Rui. Já te disse."

Ele riu, um som desagradável.

"Ah, tens sim. Sempre tens. Para os teus caprichos, para os teus amantes."

Algumas pessoas no bar viraram-se para nós, curiosas.

Senti o meu rosto corar de vergonha.

"Não fales do que não sabes, Rui."

"Oh, eu sei muita coisa, Sofia. Sei dos teus podres. Sei como gostas de brincar com os homens."

Ele estava a falar alto de propósito, a querer causar um escândalo.

A minha reputação já era má. Ele só a estava a piorar.

"Pára com isso, Rui!"

"Ou o quê? Vais chamar outro dos teus protetores?"

Levantei-me, a cabeça a andar à roda.

Precisava de sair dali.

Ele agarrou-me o braço.

"Ainda não acabámos."

"Larga-me!"

Empurrei-o com a força que me restava e saí a cambalear do bar, deixando para trás os olhares de julgamento e os sussurros.

A noite estava apenas a começar.

E a minha vida, a terminar.

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