
O Recomeço do Nosso Amor
Capítulo 3
No dia seguinte, sentia-me como se um camião me tivesse atropelado.
A ressaca era brutal, mas a dor emocional era pior.
Decidi ir a uma galeria de arte no Chiado, precisava de me distrair.
Enquanto observava um quadro abstrato, senti um olhar sobre mim.
Virei-me discretamente.
Diogo.
Ele estava do outro lado da sala, a observar-me.
Sozinho.
O coração deu um salto no peito.
Ele desviou o olhar rapidamente quando os nossos olhos se encontraram.
Mas eu tinha visto. Ele estava a observar-me.
Isso significava alguma coisa? Ou era só a minha imaginação fértil?
Criei coragem e fui até ele.
Se queria executar o meu plano, precisava de ser ousada.
"Perdido em pensamentos, Diogo?"
Ele sobressaltou-se ligeiramente.
"Sofia. Outra vez?" Havia um tom de cansaço na voz dele.
"Parece que Lisboa é pequena demais para nós os dois."
Ele não sorriu.
"O que queres?"
"Precisamos de conversar. A sós."
Olhei em volta. A galeria estava relativamente calma.
"Há um gabinete privado ali," apontei. "Podemos falar lá."
Ele hesitou por um momento, depois anuiu com relutância.
"Cinco minutos. É tudo o que tens."
Entrámos no pequeno gabinete.
O ar ficou pesado, carregado de tensão.
"Então?" disse ele, cruzando os braços.
Respirei fundo. Era agora ou nunca.
Tirei o telemóvel da mala.
Abri a galeria de fotos.
Mostrei-lhe.
Eram as nossas fotos. Íntimas. Da época em que namorávamos.
Sorrisos, abraços, beijos.
Momentos de felicidade pura, congelados no tempo.
E depois, o vídeo.
Um vídeo que ele certamente não gostaria que viesse a público.
Um vídeo que podia arruinar a imagem dele, os negócios do pai dele.
"O que é isto?" A voz dele era um sussurro rouco.
Os olhos dele estavam fixos no ecrã, a incredulidade a dar lugar ao pânico.
"Chantagem, Sofia? É a isto que te rebaixaste?"
A voz dele voltou, agora carregada de desprezo.
"Desespero, Diogo. Chama-lhe o que quiseres."
O meu coração batia descontroladamente. Eu estava a jogar com fogo.
"És nojenta." Ele cuspiu as palavras.
Aquelas palavras doeram. Mais do que eu gostaria de admitir.
Mas mantive a minha postura.
"Podes achar o que quiseres. Mas sabes que isto pode destruir muita coisa. A tua reputação. O teu noivado com a menina Leonor. Os negócios imobiliários do teu pai, que dependem tanto da imagem da família Monteiro."
Eu sabia onde lhe tocar.
Vasco Monteiro era obcecado com a imagem pública.
Um escândalo destes seria devastador.
Ele passou as mãos pelo cabelo, um gesto de frustração.
"O que é que tu queres?" perguntou, finalmente.
"Quero que passes os meus últimos meses comigo."
Ele olhou para mim, confuso. "Últimos meses? Estás a gozar, certo?"
"Não estou a gozar, Diogo. Estou doente. Muito doente."
Decidi omitir a gravidade. Não queria a pena dele. Queria o tempo dele.
"Quero reviver o que tivemos. Quero que me dês isso."
Ele riu, um riso amargo. "E achas que te vou dar isso por causa disto?" Apontou para o telemóvel.
"Sim. Acho."
Ele ficou em silêncio por um longo momento, a ponderar.
Finalmente, suspirou.
"Está bem, Sofia. Tu ganhaste."
Um alívio agridoce percorreu-me.
Eu tinha conseguido. Mas a que custo?
"Mas que fique bem claro," continuou ele, os olhos frios. "Isto não significa nada. Faço-o para proteger a minha família e a Leonor. Não por ti."
Assenti. Era o que eu esperava.
Aproximei-me dele.
O cheiro dele, o mesmo cheiro que me assombrava os sonhos.
Levei a mão ao rosto dele, acariciando-lhe a barba por fazer.
"Senti a tua falta," sussurrei.
Ele afastou-se bruscamente.
"Não te atrevas, Sofia. Combinámos uma coisa. Não tentes transformar isto noutra."
A rejeição dele era como um murro no estômago.
De repente, uma dor aguda atravessou-me o abdómen.
Curvei-me, a mão a pressionar a barriga.
A aplasia medular. Os seus sintomas cruéis.
"O que foi?" perguntou ele, um laivo de preocupação na voz.
"Nada. Apenas uma cólica." Menti.
Ele olhou para mim com desconfiança.
"Tenho de ir. A Leonor está à minha espera."
Ele virou-se e saiu do gabinete, deixando-me sozinha com a minha dor e a minha vitória amarga.
O meu plano estava em marcha.
Mas eu sabia que o caminho seria doloroso.
Uns dias depois, recebi um telefonema de Beatriz, a minha mãe.
A voz dela era tensa, como sempre que falava comigo.
"Sofia, o Vasco vai dar um jantar cá em casa no sábado. Para apresentar oficialmente a Leonor à família. Tens de vir."
Um convite que soava mais a uma ordem.
"Mãe, não sei se é boa ideia."
"Não discutas, Sofia. É importante para o Vasco. E para mim. Comporta-te."
Desligou sem esperar pela minha resposta.
A relação com a minha mãe sempre fora distante.
Ela priorizava a estabilidade financeira e o estatuto social acima de tudo.
Casar com Vasco Monteiro fora a sua maior conquista.
Pouco importava o sofrimento que isso causara a mim e a Diogo.
O jantar foi tão tenso como eu esperava.
A casa dos Monteiro era luxuosa, mas fria.
Vasco, o meu padrasto e pai de Diogo, era um homem pragmático, focado nos negócios.
A conversa à mesa era superficial, cheia de falsas cortesias.
Diogo estava sentado à minha frente, ao lado de Leonor.
Ele evitava o meu olhar.
Leonor, por sua vez, analisava-me com um sorriso dissimulado.
Beatriz tagarelava sobre futilidades, tentando manter uma aparência de normalidade.
Constança não estava presente, claro.
Durante o jantar, Diogo fez algo inesperado.
Eu tinha um pedaço de marisco no prato que parecia duvidoso.
Ele esticou o garfo e removeu-o discretamente.
"Este não parece bom," murmurou, sem me olhar nos olhos.
Um pequeno gesto. Quase impercetível.
Mas o meu coração acelerou.
Seria um resquício do antigo Diogo?
Ou apenas educação?
A minha tia Amélia, irmã de Beatriz, uma solteirona amarga, decidiu animar a noite.
"Então, Sofia, querida," disse ela, a voz estridente. "Ainda não arranjaste um marido? Com essa tua reputação, não deve ser fácil. Dizem por aí que colecionas homens como quem coleciona cromos."
Senti o sangue a subir-me ao rosto.
Todos na mesa ficaram em silêncio.
Beatriz fuzilou Amélia com o olhar.
Vasco pigarreou, desconfortável.
"Tia Amélia, por favor," disse eu, tentando manter a calma.
"O quê? Só estou a dizer a verdade. Uma rapariga precisa de assentar. Talvez devêssemos arranjar-te um bom partido. Alguém que não se importe com o teu... passado."
A humilhação era pública.
Olhei para Diogo.
Ele observava Leonor, que lhe sussurrava algo ao ouvido.
Ela sorria, divertida com a situação.
O meu sofrimento era entretenimento para ela.
"Na verdade, tia," disse eu, com um sorriso forçado. "Estou a pensar seriamente em aceitar um arranjo. Talvez um viúvo rico? Ou um estrangeiro desesperado?"
O sarcasmo era a minha única defesa.
Diogo finalmente olhou para mim.
Havia algo indecifrável no olhar dele.
A noite arrastou-se.
Quando finalmente terminou, senti-me exausta.
No hall de entrada, enquanto esperava pelo meu táxi, Diogo aproximou-se.
"Precisamos de falar sobre o nosso... acordo," disse ele, em voz baixa.
"Claro."
Segui-o até ao jardim.
A lua cheia iluminava o céu.
"Não gostei do que aconteceu lá dentro," disse ele.
"Acredita, eu também não."
"A minha tia é uma idiota."
"Concordo."
Um silêncio constrangedor instalou-se entre nós.
"Então," disse eu, quebrando o silêncio. "Quando começamos a reviver o passado?"
Aproximei-me dele, o meu corpo quase a tocar o dele.
"Sofia..." A voz dele era um aviso.
Mas eu vi o desejo nos olhos dele.
A atração entre nós ainda existia, por mais que ele tentasse negá-la.
"Não tenhas medo, Diogo."
Levei os meus lábios aos dele.
Ele hesitou por um instante, depois correspondeu ao beijo.
Um beijo faminto, desesperado.
Carregado de anos de saudade e ressentimento.
De repente, ele agarrou-me os braços com força, empurrando-me contra a parede.
A expressão dele era sombria, quase ameaçadora.
"O que é que tu queres realmente, Sofia?"
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