
O Recomeço da Ferida
Capítulo 2
Quando abri os olhos, o cheiro forte de desinfetante invadiu as minhas narinas. Eu estava deitada numa cama de hospital, com o braço esquerdo enfaixado e a latejar de dor.
A minha cabeça também doía.
A televisão na parede do quarto transmitia as notícias da tarde, um repórter falava sobre o terrível acidente de carro na autoestrada.
"Um engavetamento envolvendo mais de dez veículos na A1 deixou três mortos e múltiplos feridos. As autoridades suspeitam que um condutor embriagado tenha sido a causa."
Com a mão direita, procurei o meu telemóvel na mesa de cabeceira. Queria ligar para o meu marido, Pedro.
O meu pai, que estava a dormir numa cadeira ao meu lado, acordou com o meu movimento.
"Mariana, finalmente acordaste! Como te sentes? Vou chamar o médico."
"Pai, eu estou bem. Onde está o Pedro? Ele não veio?"
A expressão do meu pai mudou, uma sombra de raiva passou pelo seu rosto.
"Não menciones esse nome. Quando te encontraram, só tu e eu estávamos no carro. Ele não estava em lado nenhum."
O meu coração gelou.
Não pode ser.
Disquei o número do Pedro. O som da chamada ecoou no silêncio do quarto. Demorou uma eternidade, mas ele finalmente atendeu. A sua voz estava arrastada, impaciente.
"O que foi? Estou ocupado."
Do outro lado da linha, ouvi uma voz feminina, doce e manhosa.
"Pedro, querido, quem é? Diz-lhe para não te incomodar. Os meus pais estão quase a chegar para o jantar. A minha cabeça ainda dói um pouco do susto."
Era a voz da Sofia, a minha "melhor amiga".
"Pedro," a minha voz saiu trémula, "onde estás? Eu sofri um acidente. Estou no hospital."
Houve uma pausa.
"Um acidente? Estás bem? Desculpa, a Sofia assustou-se muito com o trânsito hoje, o carro dela avariou e eu tive de a ir buscar. Ela ficou em pânico, coitadinha. Estou a acalmá-la."
Acalmá-la? O carro dela avariou e ele foi buscá-la?
Nós estávamos no mesmo carro, a caminho de casa, quando o acidente aconteceu. Eu desmaiei com o impacto.
Ele deixou-me inconsciente no carro acidentado para ir socorrer outra mulher?
"Pedro," a minha voz estava fria como gelo, "vamos divorciar-nos."
Ele riu, um som debochado.
"Mariana, para com o drama. Foi só um susto. Eu já estou a caminho do restaurante com a Sofia, os pais dela estão à nossa espera para discutir o nosso casamento."
O nosso casamento?
"O nosso casamento? Pedro, de que estás a falar?"
"Ah, isso. A Sofia está grávida. Vou ser pai. Não é maravilhoso? Sempre quiseste que eu fosse pai, não é? Bem, agora vou ser."
A sua voz era alegre, triunfante.
O meu mundo desabou.
Grávida.
A minha melhor amiga estava grávida do meu marido.
E ele estava a abandonar-me num hospital para ir jantar com a família dela e planear o casamento.
"Tu és um monstro," sussurrei.
"Podes dizer o que quiseres. Pára de ser tão egoísta, Mariana. A Sofia precisa de mim agora. Ela está a carregar o meu filho. Tu és forte, vais superar isso. Agora, se me dás licença, tenho uma família para construir."
Ele desligou.
O telemóvel caiu da minha mão. O meu pai apanhou-o, o seu rosto uma máscara de fúria.
"Aquele desgraçado! Eu vou matá-lo!"
As lágrimas que eu segurava começaram a cair, quentes e silenciosas. Eu olhei para o meu braço enfaixado, para a dor que latejava no meu corpo, mas a dor maior estava no meu peito.
Um buraco.
O Pedro e eu estávamos casados há cinco anos. Cinco anos de promessas, de planos, de vida em comum.
Ele sempre me disse que não queria filhos, que não estava pronto. Eu respeitei, esperei.
Afinal, a verdade era que ele não queria filhos comigo.
A Sofia. Ela vinha a nossa casa quase todos os dias. Jantava connosco. Viajava connosco. Era como uma irmã para mim.
Que tola eu fui.
Enquanto eu estava perdida na minha dor, o telemóvel do meu pai tocou. Ele olhou para o ecrã e atendeu, colocando no altifalante.
Era a mãe do Pedro.
"António! O que se passa com a Mariana? O Pedro acabou de me ligar a dizer que ela quer o divórcio por causa de um pequeno acidente! Ela não tem consideração? O Pedro está a passar por um momento delicado!"
A voz dela era estridente, acusadora.
"Um momento delicado? A vossa família não tem vergonha? O vosso filho abandonou a minha filha inconsciente num acidente de carro para ir ter com a amante! E tu atreves-te a ligar-me para a culpar?"
"Amante? Que disparate é esse? A Sofia é uma rapariga de boa família! E está grávida! Ela vai dar um neto ao meu filho, algo que a tua filha nunca conseguiu fazer! A Mariana devia ter vergonha de si mesma, por ser tão inútil e ainda por cima ciumenta! Ela devia era apoiar o Pedro neste momento feliz!"
Inútil.
A palavra ecoou na minha cabeça.
Então era isso. Eu era a esposa inútil que não podia dar-lhe um filho.
O meu pai desligou o telefone, a sua mão a tremer de raiva. Ele olhou para mim, os seus olhos cheios de uma dor que espelhava a minha.
"Filha, vamos para casa. Nós não precisamos deles."
Eu assenti, as lágrimas a secarem no meu rosto.
Ele tinha razão. Eu não precisava do Pedro. Não precisava da sua família cruel.
A partir daquele momento, eu estava sozinha. E estava tudo bem.
A vingança seria a minha companhia.
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