
O Recomeço da Ferida
Capítulo 3
Dois dias depois, recebi alta do hospital.
O meu pai levou-me para a casa onde eu cresci. O meu antigo quarto estava exatamente como eu o deixara, limpo e arrumado.
Senti um alívio imenso por não ter de voltar ao apartamento que partilhava com o Pedro. Cada canto daquela casa estava agora manchado pela traição.
Liguei o meu computador portátil e comecei a procurar advogados de divórcio. Eu queria o melhor. Queria alguém que o destruísse.
Enquanto pesquisava, recebi um email.
Era da Sofia.
O assunto era: "Precisamos de conversar".
Abri a mensagem. Havia uma única fotografia anexada. Era ela e o Pedro, a sorrirem, na sala de estar da minha casa. A mão dele estava pousada de forma protetora na barriga dela, que já tinha um volume pequeno, mas visível.
Por baixo da foto, uma curta mensagem.
"Ele nunca te amou, Mariana. Ele só estava contigo por pena. Agora que vou dar-lhe uma família de verdade, ele não precisa mais de ti. Aceita e segue em frente. Será melhor para todos."
Senti o meu sangue ferver.
Pena?
Eu não respondi. Apaguei o email e bloqueei o endereço dela.
Não lhe daria a satisfação de uma reação.
No dia seguinte, encontrei-me com um advogado, Dr. Almeida. Ele era um homem mais velho, com um olhar perspicaz e uma reputação de ser implacável no tribunal.
Mostrei-lhe o email da Sofia e contei-lhe tudo. O acidente, o abandono, a gravidez, a chamada da mãe do Pedro.
Ele ouviu-me em silêncio, tomando notas. Quando terminei, ele olhou para mim por cima dos óculos.
"Sra. Costa, o seu marido não só cometeu adultério, como também a abandonou num local de acidente, o que é crime. Temos um caso muito forte."
"Eu não quero apenas o divórcio," disse eu, a minha voz firme. "Eu quero tudo o que tenho direito. E quero que ele pague pelo que fez."
"Compreendo perfeitamente," disse o Dr. Almeida com um sorriso fino. "Vamos começar por reunir as provas. Preciso de extratos bancários, registos de propriedade, tudo o que tiverem em comum. E vamos pedir uma ordem de restrição para que ele não a possa contactar."
Senti uma onda de poder. Pela primeira vez desde o acidente, não me sentia como uma vítima. Sentia-me como alguém que estava a lutar de volta.
Quando saí do escritório do advogado, senti-me mais leve.
O meu telemóvel tocou. Era um número desconhecido. Hesitei, mas atendi.
"Mariana?"
Era a voz do Pedro. Soava estranha, quase nervosa.
"O que queres?"
"Recebi uma carta do teu advogado. Divórcio? Ordem de restrição? Estás a falar a sério? Mariana, não podemos resolver isto como adultos?"
"Um adulto não abandona a esposa ferida para ir ter com a amante, Pedro."
"Eu sei, eu errei. Fiquei em pânico. A Sofia estava tão assustada, e com a gravidez... Eu não pensei direito."
Ele estava a tentar manipular-me, a usar a sua desculpa esfarrapada.
"Guarda as tuas desculpas para o juiz," respondi friamente.
"Mariana, por favor. Pensa em tudo o que passámos. Cinco anos... Vais deitar tudo fora por causa de um erro?"
"Um erro? Tu chamas a isto um erro? Tu destruíste a nossa vida, Pedro. Tu humilhaste-me. E agora queres a minha compaixão?"
"Eu dou-te o que quiseres," a sua voz tornou-se desesperada. "Dinheiro? O apartamento? Fica com tudo. Apenas não faças isto. Não me leves a tribunal."
Ah, então era isso. Ele estava com medo. Medo de que a sua imagem de homem de negócios bem-sucedido fosse manchada. Medo de que os pais ricos da Sofia descobrissem que o seu futuro genro era um criminoso.
"É tarde demais para isso, Pedro. Vemo-nos no tribunal."
Desliguei antes que ele pudesse responder.
Senti um prazer sombrio na sua voz desesperada. Era o som do seu mundo perfeito a começar a ruir.
E eu estava apenas a começar.
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