
O Recomeço Amargo
Capítulo 2
A memória da minha vida passada era um inferno gravado a fogo na minha alma, um grito silencioso que ecoava mesmo depois de eu ter renascido. Lembro-me do gosto amargo do veneno na minha língua, um presente de Juliana na festa que deveria comemorar nosso futuro, um futuro que ela roubou de mim. Lembro-me de Pedro, o homem que eu amava, de pé ao lado dela, seus olhos frios me acusando de ter armado tudo, de ter me envenenado para chamar a atenção.
A pior parte, a ferida que nunca cicatrizou, foi a lembrança da minha mãe. Ela lutou por mim, tentou provar minha inocência, mas o mundo preferiu acreditar na "garota popular". Os fãs de Juliana a caçaram online e na vida real, transformando seu luto em um espetáculo de humilhação pública. Eles a difamaram, a quebraram, até que ela não aguentou mais. O suicídio dela foi o ponto final da minha tragédia.
Mas então, eu acordei.
O som insistente do meu celular me trouxe de volta. A data na tela era o dia do concurso de bolsas, o ponto de virada, o começo do meu fim. O cheiro de chuva enchia o ar, e a voz ansiosa de Pedro soava do outro lado da linha, exatamente como na minha memória.
"Sofia, onde você está? Estamos todos esperando por você. Juliana ainda não chegou, não podemos ir sem ela."
A voz dele, que um dia me trouxe conforto, agora me causava repulsa. Na minha vida passada, eu esperei. Esperei por duas horas sob a chuva, acreditando nas desculpas deles, apenas para chegar atrasada e ser desqualificada. Perdi minha única chance, tudo para que Juliana, que nem precisava da bolsa, pudesse manter sua imagem de líder do grupo.
Desta vez, não haveria espera.
"Eu já estou a caminho", respondi, minha voz fria e sem emoção.
"O quê? Como assim? Você não pode ir sozinha! Temos que ir juntos, somos um time. Juliana vai ficar muito chateada se você for na frente."
"Isso é um problema dela, não meu", eu disse, e desliguei o telefone antes que ele pudesse responder.
Vesti minha capa de chuva, peguei minha mochila e saí do meu apartamento. Minha mãe, viva e preocupada, estava na porta.
"Filha, tem certeza que não quer que eu te leve? A chuva está muito forte."
Seu rosto era a imagem da saúde e do amor, sem as sombras do desespero que a consumiram mais tarde. Eu me aproximei e a abracei com força, inalando seu cheiro familiar, a âncora da minha nova realidade.
"Não se preocupe, mãe. Eu sei exatamente o que estou fazendo. Vou pegar o ônibus. Fique segura em casa."
Ela sorriu, e aquele sorriso era a minha verdadeira vitória. Proteger aquele sorriso era a minha única missão.
No ponto de ônibus, meu celular vibrou sem parar. Mensagens de Pedro, dos meus colegas, todos me acusando.
"Sofia, o que você pensa que está fazendo?"
"Você é tão egoísta!"
"A Juliana está quase chegando, ela só teve um imprevisto."
"Você sempre teve inveja dela, não é? Por isso está fazendo esse drama todo."
A última mensagem era de Pedro. "Se você não voltar agora e esperar com a gente, pode esquecer que um dia fomos namorados."
Eu li cada palavra com um sorriso gelado. Eles não mudaram nada. A mesma crueldade, a mesma cegueira. Bloqueei todos os números, um por um. O ônibus chegou, e eu entrei, sentando-me perto da janela. A chuva batia no vidro, lavando a cidade.
Eu sabia o que estava por vir. Nesta mesma hora, na minha vida passada, um deslizamento de terra bloqueou a estrada principal para o local do concurso. Foi por isso que eles, mesmo saindo duas horas depois, também se atrasaram. Mas eu, desta vez, peguei uma rota alternativa, uma que eu sabia que estaria livre.
Enquanto o ônibus se movia pela cidade adormecida, eu olhei para a colina à distância. Era uma bomba-relógio, e o tempo estava se esgotando para eles. Uma notificação de notícias piscou no meu celular: "Fortes chuvas aumentam o risco de deslizamentos na estrada da serra".
Um sentimento de satisfação sombria me preencheu. Não era alegria, era justiça. A natureza estava prestes a se tornar minha cúmplice. O ônibus virou à esquerda, entrando na rota segura, e eu não olhei para trás. Eu podia quase ouvir o som da terra cedendo, do caos que se instalava, do pânico deles.
Minha vingança estava apenas começando. Eles me impediram de chegar a um concurso que mudaria minha vida. Agora, eu garantiria que eles nunca chegassem ao deles. E a melhor parte? Eu nem precisava mais daquela bolsa. Meu futuro já estava garantido, em um lugar que eles nunca poderiam alcançar.
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