
O Recomeço Amargo
Capítulo 3
O ônibus avançava lentamente, um refúgio seco e quente em meio ao dilúvio lá fora. Cada gota que escorria pelo vidro era como uma lágrima pela Sofia que eu fui, a garota ingênua que acreditava na lealdade e no amor. Ela estudou noites a fio, preparou resumos detalhados e compartilhou todo o seu material com Pedro e os outros, acreditando que o sucesso de um era o sucesso de todos. Que tola ela foi.
Agora, eu observava a cidade passar com uma calma assustadora. Eu não sentia a ansiedade febril da prova, a pressão de ter que vencer para garantir um futuro. Meu futuro já estava selado. Semanas antes, usando o conhecimento da minha vida passada sobre uma oportunidade pouco divulgada, eu havia aplicado e sido aceita com bolsa integral na melhor universidade do país, a mesma que Juliana tanto se gabava de ter conexões para entrar. A carta de aceitação estava guardada em um lugar seguro, um segredo que eu guardava como uma arma.
Meu celular, agora silencioso, era um testemunho da minha decisão. Em algum lugar naquela cidade encharcada, eles estavam presos. Imagino a cena: o carro de luxo de Juliana finalmente chega, ela desce com seu sorriso falso e suas desculpas ensaiadas sobre o trânsito ou um cachorrinho que precisou resgatar. Pedro a receberia com um abraço, os outros a cercariam, aliviados. Todos entrariam nos carros, rindo e conversando, prontos para a "grande aventura".
E então, o trânsito pararia de vez.
O pânico inicial seria substituído pela irritação. Juliana, a rainha do drama, provavelmente começaria a reclamar, culpando a chuva, o governo, qualquer coisa, menos a si mesma. Para manter sua fachada de garota perfeita e prestativa, ela distribuiria garrafas de água de grife e lanches caros que sempre carregava.
"Não se preocupem, pessoal! Vamos conseguir! O importante é que estamos juntos!", ela diria, com aquela voz doce e manipuladora.
E eles, os tolos, acreditariam.
"A Juliana é incrível, não é? Mesmo nessa situação, ela ainda pensa em nós", um deles diria.
"Verdade. Ainda bem que não fomos com a Sofia. Imagina o mau humor dela agora", outro comentaria.
"Ela deve estar se remoendo de raiva sozinha no ônibus, coitada. Tudo por um ataque de ciúmes", Pedro concluiria, selando meu papel de vilã na historinha deles.
Um sorriso frio tocou meus lábios. Deixem que pensem o que quiserem. Sua ignorância era parte do meu plano. Enquanto eles se afundavam em sua própria armadilha, eu estava a caminho da minha liberdade.
O ônibus continuou por ruas secundárias, bairros que eu mal conhecia. O motorista era experiente, conhecia os atalhos. Lá fora, o caos era visível. Sirenes soavam à distância. O trânsito na direção oposta estava completamente parado. Carros buzinavam em um coro de frustração.
Eu podia sentir a mudança no ar, a tensão crescendo. A leve irritação deles no engarrafamento logo se transformaria em ansiedade, depois em pânico. Eles começariam a olhar para os relógios, a fazer contas. O tempo para a inscrição no concurso era limitado e inflexível. Cada minuto preso naquele congestionamento era um prego a mais no caixão de seus sonhos acadêmicos.
Eu não sentia pena. Apenas uma satisfação gelada, precisa. Eles me tiraram tudo. Agora, eu estava apenas observando enquanto eles mesmos destruíam sua única chance. A chuva continuava a cair, forte e implacável, como se a própria natureza estivesse do meu lado, lavando o mundo para que eu pudesse começar de novo. O palco para o primeiro ato da minha vingança estava montado. E eu teria um assento na primeira fila para assistir ao desespero deles.
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