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Capa do romance O príncipe da honra e a virgem

O príncipe da honra e a virgem

Em um mundo onde a lealdade foi esquecida, o príncipe de Delway vive sob constante desconfiança. Enquanto seus irmãos, Richard e Stephen, subestimam sua paranoia, traidores surgem para cobrar o preço por falsas alianças. Tomado pela fúria da política corrupta, ele busca refúgio no treinamento militar rigoroso. No tatame, entre golpes e correções severas, o príncipe extravasa sua agitação, reafirmando que a disciplina dos soldados é seu único e verdadeiro lar.
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Capítulo 2

Arranco a camiseta e jogo-a no chão, preparando-me para o banho.

Meu olhar cai para uma das muitas tatuagens que carrego pelo tronco, e

trinco os dentes ao ver as inscrições em persa que significam honra. Não

desvio meus olhos ao puxar o celular do bolso e discar o número de

Richard, mas o faço quando ele atende, encarando o teto ao invés.

— E então? — meu irmão pergunta do outro lado da linha,

apressado. Ouço uma conversa ao fundo, que diminui após alguns

instantes quando se afasta dos demais.

Digo para ele o que aprendi nos últimos dias, nada que fosse

inédito para nós dois, mas que é pior do que antecipei.

— Vou me encontrar com Elijah amanhã — digo quando termino o

relato conciso.

— Tem certeza disso? — questiona, a insatisfação palpável na voz.

— Tenho — garanto. — Vou aproveitar a noite hoje para repassar

algumas informações. Recebi o dossiê que pedi ao nosso detetive que

preparasse sobre Madelaine, ainda não tive tempo de abrir a pasta e…

— Você vaitirar a noitede folga — Richard interrompe. Solto uma

risada seca com a sugestão absurda em um momento crítico. — Seu rei

está te dando uma ordem, general — completa, prevendo meu protesto.

— Meu rei é um pau no cu — respondo, esfregando o rosto. A

resposta malcriada arranca uma risada dele, a primeira que ouço desde

que o problema começou, e é fácil me lembrar que é isso que estou

tentando garantir.

— Vou contatarElijah e programara reunião de vocês dois.

Confirmamosos detalhesde tudo quando acordar, mas, por hoje,você e

seus homens vão se divertir um pouco.

— Sim, senhor — respondo com ironia e posso visualizar Richard

revirando os olhos.

Despeço-me, mas, antes que desligue, ouço sua voz de novo.

— Você vai ficar bem?

— Já sobrevivi a guerras, irmão. Acho que consigo sobreviver a um

casamento indesejado.

Nego o copo de bebida que é estendido na minha direção. Estou

de folga, é verdade, mas a última coisa que preciso é estar de ressaca

pela manhã quando me encontrar com o rei. O bar do hotel não está

cheio — a combinação de ser dia de semana com o fato de o

estabelecimento ser conhecido por ser um lugar discreto ideal para

figuras públicas permite isso. Não tenho qualquer interesse em ficar aqui

por muito tempo, mas vim porque sei que meus homens precisam disso.

Deus sabe que eles precisam de um descanso depois dos últimos

meses.

— O senhor tem certeza de que não quer vir com a gente? — um

deles pergunta. Por cima do seu ombro, vejo os outros quatro

conversando animados como garotinhos sobre a boate para onde

querem ir, pela primeira vez em muito tempo.

— Não a menos que eu tenha uma arma apontada para a minha

cabeça — respondo. — Divirtam-se. Estejam prontos para sair às oito

amanhã.

Ele assente e se despede, depois de conferir muitas vezes que é

uma boa ideia me deixar sozinho.

— O que você tem contra diversão?

Sentado em uma cadeira alta do bar, os antebraços apoiados sobre

o balcão, viro o rosto em direção à voz feminina que vem de algum ponto

à minha esquerda. Encontro uma mulher sentada ao meu lado, a

algumas banquetas de distância, uma taça de vinho pela metade e olhos

travessos na minha direção.

— Nada. Só tenho um conceito diferente de diversão — respondo,

tomando alguns segundos para analisá-la com atenção quando ri.

O vestido curto deixa à mostra sua perna quase inteira, em um rosa

delicado contra a pele preta. Um colar cai pelo seu colo, indicando o

caminho pelo decote. O cabelo cai em ondas pelos ombros, um sorriso

malicioso contorna os lábios quando minha inspeção finalmente alcança

seu rosto.

— E você é…? — pergunto. Um brilho de diversão cruza as íris

escuras diante da pergunta. Suas feições são familiares, mas não

consigo associar um nome ao rosto. Não é de se estranhar; é provável

que todas as pessoas hospedadas nesse hotel sejam conhecidas por

alguma coisa. Talvez seja alguma atriz ou modelo de quem

definitivamente não vou me lembrar.

Sem pressa, ela apanha a taça sobre o balcão e a leva à boca.

Demora alguns segundos antes de dar um gole minúsculo. Acompanho

com interesse o movimento da língua pescando uma gota no lábio

inferior.

— Isso importa? — responde por fim, apoiando a taça no balcão

antes de se voltar a mim de novo.

— Nem um pouco.

Ela sorri, levantando-se da banqueta. Alisa o vestido devagar,

concedendo-me a visão do seu corpo por completo. Tomba a cabeça

para o lado, piscando devagar. Enrosca os dedos ao redor da alça da

bolsa pendurada nas costas da cadeira. Tira os olhos de mim apenas

para mexer no celular. Ela franze o nariz, insatisfeita com o que quer que

veja na tela.

— Sentiram minha falta — diz com um suspiro, guardando o

aparelho de novo na bolsa. — Tenho alguns minutos.

— E o que você quer fazer nesses minutos? — pergunto,

desligando a voz que pergunta quem sentiu sua falta e o que vai

acontecer depois desses minutos. Estou de folga. A última para sempre,

já que amanhã serei um homem prometido a alguém.

Ela abre um sorriso de puro deleite e tomba a cabeça para o lado.

— Por que você não me mostra o seu conceito de diversão?

Solto uma risada, balançando a cabeça.

Quem é essa mulher? Sei que não vou ter a resposta para essa

pergunta quando ela vira as costas para mim, andando em direção à

saída do bar. Repreendendo-me pelo comportamento errático que não é

do meu feito, eu a sigo. Espero encontrá-la perto dos elevadores e me

surpreendo ao vê-la seguir em direção às escadas da saída de

emergência. Com a mão na porta, ela me olha por cima do ombro. Ergo

as sobrancelhas em uma pergunta silenciosa, e a mulher revira os olhos.

— Está louco se acha que vou me trancar em um quarto com um

homem desconhecido — diz, condescendente.

— Certo — concordo, estreitando os olhos para o tom que diz que

me acha um idiota por precisar de explicação para isso. — E como aí é

mais seguro?

Ela dá de ombros.

— Posso sempre te empurrar escada abaixo — explica,

empurrando a porta e entrando no lugar escondido.

Sorrio, surpreso e entretido. Sigo-a sem mais perguntas, sem dizer

que ameaças aos príncipes de Delway não costumam ser lidadas com

essa leveza toda. Abraço a anonimidade oferecida e fecho a porta atrás

de nós dois. Longe do luxo ostensivo do hotel, estamos cercados de

degraus de cimento e luzes fracas. Ela solta a bolsa no chão e apoia as

costas na parede. No rosto, um convite. Um que aceito com prazer.

Cubro seu corpo com o meu, apoiando uma mão na sua cintura e a

outra na parede ao seu lado. Minha boca paira sobre a sua, sua

respiração quente contra o meu rosto, os lábios entreabertos roçando na

minha pele. Escorrego a mão pela lateral do seu corpo, sinto seu sorriso

quando enfio a mão por baixo do tecido do vestido.

Hesito, confuso pela situação tão fora do meu normal. Tão fora do

meu controle. Então ela suga meu lábio inferior, eu aperto sua coxa

quente e meu juízo tira folga por alguns minutos.

Engulo o gemido de surpresa quando tomo sua boca. Sinto as

unhas na minha pele, dolorosas em meu pescoço quando puxa meu

rosto para mais perto do seu. Não sei o que ela está buscando de um

desconhecido, mas procura com afinco na minha boca. Agradeço por não

ter raspado o cabelo de novo quando os dedos afoitos buscam pelos fios.

Imito seus gestos, entregando a ela o que tenta tomar de mim, minha

mão puxando seu cabelo, conduzindo o beijo no ritmo que ela dita.

Prenso-a contra o cimento, puxo sua coxa para cima e encaixo-me

entre suas pernas. Sorrio satisfeito na sua boca quando ofega no mesmo

instante em que me esfrego contra ela. Repito o movimento, recebendo a

mesma reação.

Solto sua boca para descer ao seu pescoço, sugando a pele macia.

Subo os dedos pela parte de dentro da sua coxa e estou a centímetros

da sua calcinha quando o toque estridente do seu celular me para.

Ela solta um palavrão e escorrega as mãos pelos meus ombros.

Solto-a devagar, apoiando seu pé de novo no chão, mas volto a boca à

sua garganta depois que pega o celular de dentro da bolsa jogada ao

chão.

— Pois não? — diz para quem quer que esteja do outro lado da

linha em uma voz doce que não parece pertencer a ela. Ela suspira e me

aperta por cima da camiseta, eu subo a mão pela frente do vestido em

direção aos seus seios. Aperto um, subo a boca pelo seu queixo. Encaro

os olhos escuros nublados e desejosos. — Tudo bem, me dê um

instante, chego em alguns minutos.

Com um suspiro frustrado, encerra a ligação. Morde o lábio, as íris

dançando pelo meu rosto.

— Preciso ir — diz contrariada.

— Uma pena — sussurro em resposta, roubando um último beijo

antes de soltá-la.

Descolo meu corpo do seu, sentindo a frente da calça apertada e

dolorida. Recosto-me na parede onde ela estava, braços cruzados na

frente do peito enquanto a assisto arrumar o cabelo e limpar o batom

borrado. Pendura a bolsa no ombro e vai até a porta. Para com a mão no

puxador e me olha por cima do ombro.

— Você não me disse seu nome — diz. Distraio-me da pergunta,

encarando os lábios inchados que sei que vão atormentar meus sonhos

essa noite por todas as promessas não cumpridas.

— Isso importa? — devolvo a provocação, arrancando um sorriso

dela.

É um sorriso lindo.

Ela meneia a cabeça, usa a mão livre para brincar com o colar.

Atrai meus olhos para os seios, deslizando os dedos pela borda do

decote. Respiro fundo, sentindo meu corpo esquentar ainda mais.

— Faz com que seja mais fácil te achar — responde por fim, e volto

minha atenção para o seu rosto.

Nego com a cabeça devagar, sabendo que essa não é uma

possibilidade.

Ela franze os lábios.

— Uma pena — diz também, e concordo em silêncio. — Boa noite,

estranho.

Ela não olha para trás de novo; abre a porta e sai, deixando-me

sozinho aqui.

Percorro os dedos pela minha boca, ainda sentindo seu gosto aqui.

Arrependo-me imediatamente por não ter insistido em descobrir quem ela

é.

capítulo três

Ajusto os óculos de proteção no rosto e aperto o botão

vermelho ao meu lado, que faz com que um novo alvo de papel seja

colocado na minha frente, a muitos metros de distância. Recarrego

a arma e tomo meu tempo mirando à frente antes de disparar.

Erro. De novo. Hoje o dia não está bom para mim.

O estande de tiro que existe em algum lugar dos muitos

hectares que formam o jardim do castelo não está cheio hoje,

porque escolho vir em horários em que sei que os soldados não

estão treinando. Não importa que eu venha aqui há anos, eles

nunca se acostumam com a minha presença. Há apenas meia dúzia

de pessoas aqui que sei que estão usando seu dia de folga para

fazer o mesmo que eu: descontar a raiva em um objeto inanimado.

Disparo mais alguns tiros, o suficiente para esvaziar a arma,

sentindo o impacto de cada um nos pequenos solavancos que meu

corpo dá. Com um suspiro frustrado, aceito que não vou conseguir

fazer progresso hoje.

Retiro todo o equipamento de proteção e sigo todos os

procedimentos de segurança ao travar a arma e devolvê-la ao lugar

certo. Mesmo contrariada, aceito a ajuda de um dos guardas que

sempre me seguem por todos os lugares e deixo que abra a porta

para que eu saia da área de treinamento, passe pela segurança e

siga para fora do centro de treinamento.

Sou recepcionada por um sol brilhante demais. Parece

deboche do universo, considerando o quão sombrio é o dia que me

aguarda.

Caminho sem pressa pelo jardim, em direção ao castelo.

Imponente ao longe. Opressor. Apenas para postergar ainda mais a

chegada ao meu destino, desvio o caminho pelo labirinto criado com

arbustos pelo time de paisagistas que cuida de tudo por aqui. Não

me perco por entre os corredores, já sabendo de cor onde preciso

virar a cada curva, conhecendo em detalhes esse lugar desde que

eu era criança.

— Já se perdeu? — pergunto alto, sorrindo ao não ver Liam

atrás de mim. Tenho certeza de que ele não está longe. Posso não o

ver, mas seus olhos sempre estão sobre mim. Fiz do meu guarda-

costas um dos meus melhores amigos e confidente, mas isso não o

impede de levar seu trabalho muito a sério. Então sei que a minha

implicância não vai obter resposta porque ele ainda está furioso pela

minha escapada na noite passada. — Vamos lá, Liam. Quanto

tempo você vai ficar sem falar comigo?

Assim que termino de atravessar o labirinto e estou de volta

ao jardim, ele aparece atrás de mim. O semblante ainda está

fechado, a postura estoica dentro do uniforme oficial.

Imito sua pose, que aprendi há muitos anos, quando ele se

rendeu aos meus apelos e concordou em me treinar. Minha postura

é tão boa quanto a de qualquer um dos nossos soldados, e isso o

faz deixar escapar um sorriso pequeno. Liam suspira e passa a mão

pelo rosto.

— Você podia ter me avisado, Maddy — diz contrariado.

Ergo as sobrancelhas.

— Você teria tentado me impedir — aponto. Ele revira os

olhos e bufa. Ofereço o meu braço, e ele balança a cabeça em

repreensão antes de aceitá-lo e prendê-lo ao seu, conduzindo-me

pelo caminho que estou evitando cortar.

— É claro que eu teria tentado te impedir — diz, lançando um

olhar julgador sobre mim. — É meu trabalho garantir que você

continue viva.

— Eu estou viva.

— Por sorte! Francamente, Madelaine.

A repreensão está de volta à sua voz, o vinco profundo entre

suas sobrancelhas pouco tem a ver com as rugas trazidas pelos

seus quarenta anos que se aproximam. É apenas preocupação

genuína. Solto-me do seu braço e me coloco de frente para ele.

— Eu prometo que não vai mais acontecer — garanto com

uma voz doce que não me pertence.

Ele finalmente ri.

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