
O príncipe da honra e a virgem
Capítulo 3
— Você está prometendo se comportar desde que completou
dezoito anos, Alteza — responde no mesmo tom. Indica com os
olhos para que eu volte a me encaixar no seu braço e retoma a
caminhada. Liam me solta apenas quando alcançamos a porta, para
abri-la e indicar o caminho para mim. — Pronta para conhecer seu
noivo?
Solto uma risada seca e aponto para mim mesma.
— Acha que o principezinho enfadonho que meu pai
encontrou para mim vai gostar de me ver vestida assim?
Liam escaneia meu corpo com os olhos e faz uma careta. Sei
o que ele está vendo: a princesa mais descomposta da história
desse país. Calça jeans, camiseta, cachos cheios e armados.
— Não — ele responde por fim.
— Ótimo — decido. Afasto-me de Liam, seguindo em direção
ao escritório onde sei que meu pai está me esperando.
— Você deveria dar uma chance a ele, ao menos — Liam diz
atrás de mim, seguindo-me pelos corredores. — Nunca se sabe,
talvez seja alguém do seu agrado.
— Vindo de Elijah Denver? — pergunto, olhando-o por sobre o
ombro. — Posso apostar que ele fez questão de escolher o homem
mais entediante do planeta para mim.
Paro em frente à porta do escritório, lábios pressionados.
Envolvo a mão na maçaneta e estou pronta para girá-la quando
ouço vozes masculinas vindo de dentro do cômodo.
Travo no lugar.
Considero me trocar, por um instante. Esse casamento é do
meu interesse, afinal. Preciso que um desconhecido qualquer
coloque um anel no meu dedo antes que eu possa assumir o trono
que um dia vai ser meu. É um preço pequeno a se pagar para
conseguir o que mais quero, para que eu pare de ter que assistir
meu pai arrastar esse país às ruínas. Para que eu possa finalmente
governar.
Seja lá quem foi o homem que Elijah decidiu ser digno da
posição de príncipe consorte de Devondale, posso tolerá-lo. Alguns
herdeiros e sorrisos forçados, é tudo que preciso oferecer a ele.
É apenas o primeiro acordo político de muitos que farei no
decorrer da minha vida. Então por que estou tão nervosa? Por que
me sinto como se estivesse indo para o abate, e não como se
estivesse dando o primeiro passo para o futuro que almejo?
Alguma coisa está errada.
Foi esse mesmo sentimento que me fez fugir desse castelo
ontem, que me fez me vestir com o vestido mais escandaloso que
encontrei no meu armário, na esperança de que qualquer paparazzi
estivesse à espreita e me estampasse em todos os jornais hoje. Na
esperança de que uma noite errática com um completo
desconhecido nas escadas de emergência de um hotel fosse o
suficiente para sabotar esse casamento por conveniência com um
homem que sequer sei quem é.
— Você está tremendo. — A voz de Liam me tira do meu
estupor. Derrubo os olhos à minha mão e vejo o que ele enxergou
primeiro: dedos trêmulos.
— Eu sei — respondo, abrindo e fechando a mão na tentativa
de parar. Não funciona, então trabalho com o que tenho. Sem
permitir outro momento de hesitação, abro a porta.
Quando entro no cômodo, encontro meu pai sentado à mesa,
no lugar em que pouco o vejo e onde deveria estar na maior parte
do seu tempo. Seu olhar se estreita sobre mim, a repreensão
escorrendo pelas íris escuras quando vê como estou vestida. Àsua
frente, de costas para mim, há um homem sentado. Consigo ver
apenas o cabelo castanho daqui e fico onde estou.
— Madelaine — meu pai diz, meu nome saindo da sua boca
como uma maldição. Ele força um sorriso torto; quase posso sentir a
irritação emanando da sua pele. — Finalmente se juntou a nós.
Ele cruza os dedos sobre a mesa e volta sua atenção para o
homem que não se deu ao trabalho de olhar na minha direção.
— Theodore, permita-me apresentar sua noiva.
O homem se levanta, ainda de costas para mim. Toma seu
tempo, como se fosse uma decisão deliberada me evitar. Analiso
suas costas, as tatuagens coloridas pintando a pele clara,
escapando pela gola do uniforme muito parecido com o de Liam,
apenas em outras cores. Um príncipe militar? Isso vai ser um pouco
mais interessante. Um sorriso se forma nos meus lábios com a
perspectiva. Talvez Elijah não tenha me jogado no colo da pior
opção disponível.
O sorriso morre rápido. Dura poucos segundos, somente até
que ele se vire para mim. Empertigo-me, jogando os ombros para
trás, erguendo o queixo ao reconhecer o rosto que vi ontem à noite.
Sobrancelhas grossas emolduram um rosto muito bem
desenhado. Os olhos são azuis, do mesmo tom que vi antes, mas
agora não carregam a cor de um oceano tranquilo em um dia de
verão. O azul é gélido como uma noite fria e mortal de inverno, me
arrepia a espinha, promete caos em silêncio.
Seus olhos expandem-se no que parece surpresa, mas dura
tão pouco tempo que duvido ser o caso. Estreitam-se no instante
seguinte, dando espaço para um sorriso frio. Sua postura, até então
neutra, mostra uma rigidez austera, como se estivesse pronto para
uma batalha. E o alvo sou eu.
— Posso garantir que Madelaine tem mais modos do que isso
normalmente — meu pai diz, quebrando o silêncio sufocante que se
estende do meu noivo para mim. — Ela sabe se apresentar como a
princesa que é.
O homem — Theodore — ri, seco.
— Não tenho quaisquer dúvidas de que ela sabe se
apresentar muito bem.
A frase é ácida, insinuativa. Transborda acusação. A mesma
voz que, há poucas horas, estava quente e desejosa ao pé do meu
ouvido, agora não passa de um corte afiado. Não o ofereço uma
resposta. Desesperado para preencher meu silêncio, meu pai
oferece as apresentações.
— Madelaine é minha filha mais velha, como expliquei antes,
só dois anos mais nova do que você — diz, apontando para mim.
Estende a mão na direção dele e continua: — Theodore Thompson
é o filho mais novo da família real de Delway, general do exército.
Ele vai passar alguns dias conosco. Aproveitem para se conhecer
melhor. Podemos decidir a data do jantar de noivado mais tarde —
sugere no que parece mais uma ordem.
Theodore ergue uma sobrancelha e, tomando seu tempo,
deixa os olhos percorrerem meu corpo de cima a baixo. Sinto-me
exposta sob sua avaliação cirúrgica, mas é o olhar que me destina
ao encarar outra vez meu rosto que me faz estremecer.
Não há nada além de raiva ali.
— Eu não me preocuparia com isso — ele fala, desdenhoso.
— Já sei tudo o que precisava saber sobre ela.
Meus olhos queimam com lágrimas que me recuso a
derramar. É humilhação. O sentimento que corta meu corpo, que
embrulha meu estômago e machuca minha pele, é humilhação.
Como eu sou idiota.
Acreditei mesmo que ele não sabia quem eu era noite
passada? Que estava no lugar certo e na hora certa por acaso? Que
foi por interesse desapegado que me seguiu, que foi apenas
coincidência que fosse o tipo exato que chamaria minha atenção?
Theodore sabia quem eu era naquele bar. Não foi acidente,
nem um acaso infeliz que estivesse.
Mas por quê? O que ele poderia querer com isso?
Uma batida na porta me impede de perguntar. Olho por cima
do ombro a tempo de ver Liam abrindo-a, revelando outro guarda.
— Majestade, desculpe interromper. Temos um problema na
ala sul.
— Agora? — meu pai pergunta irritado. — Estou no meio de
algo importante.
Algo no rosto do homem mostra a urgência necessária para
que meu pai pragueje, mas se levante da cadeira.
— Perdoe-me pela interferência, volto logo — diz, dirigindo-se
a Theodore, porque sei que a mim não se daria ao trabalho de
justificar.
Não olho na sua direção, minha atenção ainda presa a
Theodore.
— Liam, pode nos dar um minuto, por favor? — peço assim
que meu pai sai. Ele hesita antes de obedecer, mas não demora
muito para que a porta se feche atrás de nós dois e estejamos
sozinhos aqui.
Umedeço os lábios, avaliando sua postura com atenção. Dou
poucos passos para trás, o suficiente para que eu recoste na porta,
usando-a como apoio. Cruzo os braços e espero. Não sei pelo que
estou esperando: se por uma explicação, por um ataque, por um
deboche. Mas espero. Quase um minuto inteiro se passa antes que
eu receba alguma coisa.
— Achei que falta de caráter dessa famíliase restringisse a
Elijah — diz, a voz rouca acusatória enquanto dá um passo firme na
minha direção. Não preciso conhecê-lo bem para saber que cada
traço seu externa uma irritação mal contida. — Qual é a verdade
aqui, Madelaine? Você é traiçoeira como ele ou apenas segue as
ordens do papai?
— Alteza — corrijo.
É a primeira vez que digo algo desde que cheguei aqui. Não
sei se o simples fato de eu ter respondido é o que o trava no lugar
ou se é a firmeza na minha voz que o pega desprevenido.
— A menos que não ensinem como respeitar hierarquia de
seja lá onde você vem, eu não deveria precisar lembrá-lo de se
referir a mim pelo meu título — completo.
— Madelaine… — ele quase rosna.
— Alteza — repito entredentes. — Se dê por satisfeito por eu
não exigir uma reverência, soldado.
Seus olhos pegam fogo. É com fogo que sei que estou
brincando aqui. Não conheço esse homem. Não sei nada dele.
Nada, além do fato de ter se colocado no meu caminho sabendo
quem eu era. Se esse casamento for para frente, é com ele que vou
precisar lidar ao meu lado no trono, e enquanto eu não descobrir
quais as suas intenções com aquele encontro de ontem, preciso
mantê-lo em rédea curta.
— Soldado? — pergunta e estala a língua.
Não respondo. Se sei alguma coisa sobre todos os generais
com quem tive contato, é que rebaixar sua patente é uma ótima
forma de atingir o ego frágil que o sexo masculino carrega.
Ou deveria ser assim, porque tudo o que ele faz é sorrir. Não
com o mesmo escárnio de antes, mas com uma incredulidade que
parece o divertir.
— Eu poderia me recusar a me dirigir a você a menos que
estivesse de joelhos — tento de novo, e dessa vez atinjo um nervo.
Ele respira fundo, joga os olhos para o teto e estampa um
sorriso impaciente no rosto.
— De joelhos? Para você? Nunca.
Theodore se aproxima um pouco mais, dando os passos que
precisa até me alcançar. Estamos de novo na mesma posição de
ontem, seu corpo pairando sobre o meu sem me tocar, a mão
apoiada na parede ao lado da minha cabeça. Travo os dentes
quando ele pousa a boca na minha orelha.
— Deixe-me ser claro, Alteza — diz, usando o pronome de
tratamento correto, e desejo que não o tivesse feito. O título sai
como um xingamento da sua boca, cuspido com desdém, diminuído
a uma pirraça. — Eu não sei o que você e seu pai estão planejando,
mas vou descobrir. E se você acha que tentar me seduzir…
— Te seduzir? — interrompo com uma risada involuntária pelo
ridículo que é sugerir isso.
Sua voz cai algumas oitavas, ainda mais grave quando volta a
falar.
— Preciso admitir que fizeram o dever de casa com afinco —
fala, o hálito quente correndo a minha pele.
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