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O príncipe da honra e a virgem

Em um mundo onde a lealdade foi esquecida, o príncipe de Delway vive sob constante desconfiança. Enquanto seus irmãos, Richard e Stephen, subestimam sua paranoia, traidores surgem para cobrar o preço por falsas alianças. Tomado pela fúria da política corrupta, ele busca refúgio no treinamento militar rigoroso. No tatame, entre golpes e correções severas, o príncipe extravasa sua agitação, reafirmando que a disciplina dos soldados é seu único e verdadeiro lar.
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Capítulo 3

— Você está prometendo se comportar desde que completou

dezoito anos, Alteza — responde no mesmo tom. Indica com os

olhos para que eu volte a me encaixar no seu braço e retoma a

caminhada. Liam me solta apenas quando alcançamos a porta, para

abri-la e indicar o caminho para mim. — Pronta para conhecer seu

noivo?

Solto uma risada seca e aponto para mim mesma.

— Acha que o principezinho enfadonho que meu pai

encontrou para mim vai gostar de me ver vestida assim?

Liam escaneia meu corpo com os olhos e faz uma careta. Sei

o que ele está vendo: a princesa mais descomposta da história

desse país. Calça jeans, camiseta, cachos cheios e armados.

— Não — ele responde por fim.

— Ótimo — decido. Afasto-me de Liam, seguindo em direção

ao escritório onde sei que meu pai está me esperando.

— Você deveria dar uma chance a ele, ao menos — Liam diz

atrás de mim, seguindo-me pelos corredores. — Nunca se sabe,

talvez seja alguém do seu agrado.

— Vindo de Elijah Denver? — pergunto, olhando-o por sobre o

ombro. — Posso apostar que ele fez questão de escolher o homem

mais entediante do planeta para mim.

Paro em frente à porta do escritório, lábios pressionados.

Envolvo a mão na maçaneta e estou pronta para girá-la quando

ouço vozes masculinas vindo de dentro do cômodo.

Travo no lugar.

Considero me trocar, por um instante. Esse casamento é do

meu interesse, afinal. Preciso que um desconhecido qualquer

coloque um anel no meu dedo antes que eu possa assumir o trono

que um dia vai ser meu. É um preço pequeno a se pagar para

conseguir o que mais quero, para que eu pare de ter que assistir

meu pai arrastar esse país às ruínas. Para que eu possa finalmente

governar.

Seja lá quem foi o homem que Elijah decidiu ser digno da

posição de príncipe consorte de Devondale, posso tolerá-lo. Alguns

herdeiros e sorrisos forçados, é tudo que preciso oferecer a ele.

É apenas o primeiro acordo político de muitos que farei no

decorrer da minha vida. Então por que estou tão nervosa? Por que

me sinto como se estivesse indo para o abate, e não como se

estivesse dando o primeiro passo para o futuro que almejo?

Alguma coisa está errada.

Foi esse mesmo sentimento que me fez fugir desse castelo

ontem, que me fez me vestir com o vestido mais escandaloso que

encontrei no meu armário, na esperança de que qualquer paparazzi

estivesse à espreita e me estampasse em todos os jornais hoje. Na

esperança de que uma noite errática com um completo

desconhecido nas escadas de emergência de um hotel fosse o

suficiente para sabotar esse casamento por conveniência com um

homem que sequer sei quem é.

— Você está tremendo. — A voz de Liam me tira do meu

estupor. Derrubo os olhos à minha mão e vejo o que ele enxergou

primeiro: dedos trêmulos.

— Eu sei — respondo, abrindo e fechando a mão na tentativa

de parar. Não funciona, então trabalho com o que tenho. Sem

permitir outro momento de hesitação, abro a porta.

Quando entro no cômodo, encontro meu pai sentado à mesa,

no lugar em que pouco o vejo e onde deveria estar na maior parte

do seu tempo. Seu olhar se estreita sobre mim, a repreensão

escorrendo pelas íris escuras quando vê como estou vestida. Àsua

frente, de costas para mim, há um homem sentado. Consigo ver

apenas o cabelo castanho daqui e fico onde estou.

— Madelaine — meu pai diz, meu nome saindo da sua boca

como uma maldição. Ele força um sorriso torto; quase posso sentir a

irritação emanando da sua pele. — Finalmente se juntou a nós.

Ele cruza os dedos sobre a mesa e volta sua atenção para o

homem que não se deu ao trabalho de olhar na minha direção.

— Theodore, permita-me apresentar sua noiva.

O homem se levanta, ainda de costas para mim. Toma seu

tempo, como se fosse uma decisão deliberada me evitar. Analiso

suas costas, as tatuagens coloridas pintando a pele clara,

escapando pela gola do uniforme muito parecido com o de Liam,

apenas em outras cores. Um príncipe militar? Isso vai ser um pouco

mais interessante. Um sorriso se forma nos meus lábios com a

perspectiva. Talvez Elijah não tenha me jogado no colo da pior

opção disponível.

O sorriso morre rápido. Dura poucos segundos, somente até

que ele se vire para mim. Empertigo-me, jogando os ombros para

trás, erguendo o queixo ao reconhecer o rosto que vi ontem à noite.

Sobrancelhas grossas emolduram um rosto muito bem

desenhado. Os olhos são azuis, do mesmo tom que vi antes, mas

agora não carregam a cor de um oceano tranquilo em um dia de

verão. O azul é gélido como uma noite fria e mortal de inverno, me

arrepia a espinha, promete caos em silêncio.

Seus olhos expandem-se no que parece surpresa, mas dura

tão pouco tempo que duvido ser o caso. Estreitam-se no instante

seguinte, dando espaço para um sorriso frio. Sua postura, até então

neutra, mostra uma rigidez austera, como se estivesse pronto para

uma batalha. E o alvo sou eu.

— Posso garantir que Madelaine tem mais modos do que isso

normalmente — meu pai diz, quebrando o silêncio sufocante que se

estende do meu noivo para mim. — Ela sabe se apresentar como a

princesa que é.

O homem — Theodore — ri, seco.

— Não tenho quaisquer dúvidas de que ela sabe se

apresentar muito bem.

A frase é ácida, insinuativa. Transborda acusação. A mesma

voz que, há poucas horas, estava quente e desejosa ao pé do meu

ouvido, agora não passa de um corte afiado. Não o ofereço uma

resposta. Desesperado para preencher meu silêncio, meu pai

oferece as apresentações.

— Madelaine é minha filha mais velha, como expliquei antes,

só dois anos mais nova do que você — diz, apontando para mim.

Estende a mão na direção dele e continua: — Theodore Thompson

é o filho mais novo da família real de Delway, general do exército.

Ele vai passar alguns dias conosco. Aproveitem para se conhecer

melhor. Podemos decidir a data do jantar de noivado mais tarde —

sugere no que parece mais uma ordem.

Theodore ergue uma sobrancelha e, tomando seu tempo,

deixa os olhos percorrerem meu corpo de cima a baixo. Sinto-me

exposta sob sua avaliação cirúrgica, mas é o olhar que me destina

ao encarar outra vez meu rosto que me faz estremecer.

Não há nada além de raiva ali.

— Eu não me preocuparia com isso — ele fala, desdenhoso.

— Já sei tudo o que precisava saber sobre ela.

Meus olhos queimam com lágrimas que me recuso a

derramar. É humilhação. O sentimento que corta meu corpo, que

embrulha meu estômago e machuca minha pele, é humilhação.

Como eu sou idiota.

Acreditei mesmo que ele não sabia quem eu era noite

passada? Que estava no lugar certo e na hora certa por acaso? Que

foi por interesse desapegado que me seguiu, que foi apenas

coincidência que fosse o tipo exato que chamaria minha atenção?

Theodore sabia quem eu era naquele bar. Não foi acidente,

nem um acaso infeliz que estivesse.

Mas por quê? O que ele poderia querer com isso?

Uma batida na porta me impede de perguntar. Olho por cima

do ombro a tempo de ver Liam abrindo-a, revelando outro guarda.

— Majestade, desculpe interromper. Temos um problema na

ala sul.

— Agora? — meu pai pergunta irritado. — Estou no meio de

algo importante.

Algo no rosto do homem mostra a urgência necessária para

que meu pai pragueje, mas se levante da cadeira.

— Perdoe-me pela interferência, volto logo — diz, dirigindo-se

a Theodore, porque sei que a mim não se daria ao trabalho de

justificar.

Não olho na sua direção, minha atenção ainda presa a

Theodore.

— Liam, pode nos dar um minuto, por favor? — peço assim

que meu pai sai. Ele hesita antes de obedecer, mas não demora

muito para que a porta se feche atrás de nós dois e estejamos

sozinhos aqui.

Umedeço os lábios, avaliando sua postura com atenção. Dou

poucos passos para trás, o suficiente para que eu recoste na porta,

usando-a como apoio. Cruzo os braços e espero. Não sei pelo que

estou esperando: se por uma explicação, por um ataque, por um

deboche. Mas espero. Quase um minuto inteiro se passa antes que

eu receba alguma coisa.

— Achei que falta de caráter dessa famíliase restringisse a

Elijah — diz, a voz rouca acusatória enquanto dá um passo firme na

minha direção. Não preciso conhecê-lo bem para saber que cada

traço seu externa uma irritação mal contida. — Qual é a verdade

aqui, Madelaine? Você é traiçoeira como ele ou apenas segue as

ordens do papai?

— Alteza — corrijo.

É a primeira vez que digo algo desde que cheguei aqui. Não

sei se o simples fato de eu ter respondido é o que o trava no lugar

ou se é a firmeza na minha voz que o pega desprevenido.

— A menos que não ensinem como respeitar hierarquia de

seja lá onde você vem, eu não deveria precisar lembrá-lo de se

referir a mim pelo meu título — completo.

— Madelaine… — ele quase rosna.

— Alteza — repito entredentes. — Se dê por satisfeito por eu

não exigir uma reverência, soldado.

Seus olhos pegam fogo. É com fogo que sei que estou

brincando aqui. Não conheço esse homem. Não sei nada dele.

Nada, além do fato de ter se colocado no meu caminho sabendo

quem eu era. Se esse casamento for para frente, é com ele que vou

precisar lidar ao meu lado no trono, e enquanto eu não descobrir

quais as suas intenções com aquele encontro de ontem, preciso

mantê-lo em rédea curta.

— Soldado? — pergunta e estala a língua.

Não respondo. Se sei alguma coisa sobre todos os generais

com quem tive contato, é que rebaixar sua patente é uma ótima

forma de atingir o ego frágil que o sexo masculino carrega.

Ou deveria ser assim, porque tudo o que ele faz é sorrir. Não

com o mesmo escárnio de antes, mas com uma incredulidade que

parece o divertir.

— Eu poderia me recusar a me dirigir a você a menos que

estivesse de joelhos — tento de novo, e dessa vez atinjo um nervo.

Ele respira fundo, joga os olhos para o teto e estampa um

sorriso impaciente no rosto.

— De joelhos? Para você? Nunca.

Theodore se aproxima um pouco mais, dando os passos que

precisa até me alcançar. Estamos de novo na mesma posição de

ontem, seu corpo pairando sobre o meu sem me tocar, a mão

apoiada na parede ao lado da minha cabeça. Travo os dentes

quando ele pousa a boca na minha orelha.

— Deixe-me ser claro, Alteza — diz, usando o pronome de

tratamento correto, e desejo que não o tivesse feito. O título sai

como um xingamento da sua boca, cuspido com desdém, diminuído

a uma pirraça. — Eu não sei o que você e seu pai estão planejando,

mas vou descobrir. E se você acha que tentar me seduzir…

— Te seduzir? — interrompo com uma risada involuntária pelo

ridículo que é sugerir isso.

Sua voz cai algumas oitavas, ainda mais grave quando volta a

falar.

— Preciso admitir que fizeram o dever de casa com afinco —

fala, o hálito quente correndo a minha pele.

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