
O Príncipe Coreano
Capítulo 2
São Paulo, janeiro de 2018
A secretária, depois de confirmar que o presidente estava disponível, sorriu para Mel e disse:
― Seu pai a aguarda.
Mel também sorriu para ela e agradeceu. Renata era secretária de seu pai desde o momento em que ele assumiu a presidência da VCA veículos. Nunca aceitou nenhuma das oportunidades de promoção. Se não fosse apaixonada por sua namorada, com a qual estava há quase catorze anos, Mel cogitaria a possibilidade de acreditar nas fofocas de que seu pai e ela eram amantes. Mas isso era algo que ela sabia não ser verdade. Seu pai amava sua madrasta e Renata amava a namorada. Se ela gostava de ser secretária, as pessoas deviam simplesmente aceitar.
Assim que abriu a porta do escritório do pai, anunciou:
― Senhor Carlos Bittencourt, hora de descansar e curtir um almoço com sua filha.
― Não estou atrasado ainda – o belo homem moreno de porte severo, que ainda não tinha chegado aos cinquenta anos, teve seu rosto transformado por um sorriso. Sempre que via a filha não conseguia conter o sorriso. Ela era praticamente uma cópia de sua mãe. — Tenho que ler e assinar esse contrato. Pode me dar vinte minutos?
― Sim, chefe. Vou buscar um café expresso para o senhor e um chocolate para sua filha faminta aguentar esperar – teatralmente fez uma referência antes de sair sob a risada do pai.
Poucos minutos depois ela voltou, colocou a xícara de café na mesa dele e se sentou em silêncio em uma poltrona saboreando o chocolate quente e observando seu pai ler atentamente cada página do contrato.
Era a cena que mais gostava; ver seu pai concentrado em sua imensa sala decorada sobriamente; pintada em tons pasteis e com móveis predominando a cor grafite.
Enquanto esperava, vagava por lembranças como o quanto ele se desdobrava para cuidar dela sozinho até a chegada de Jocasta e seus dois filhos em suas vidas.
Sua mãe morreu por causa de complicações no parto ao dar à luz a ela. A conhecia apenas através de fotografias. E foi através de fotografias que soube que a cada ano ficava mais parecida com ela; os cachos negros que desciam até abaixo do ombro, a pele cor de chocolate e os olhos castanhos expressivos; até mesmo os seios pequenos e a cintura fina lembrava a mulher das fotos.
Sentia-se muito triste por não ter chegado a conhecê-la. Por isso a chegada de Jocasta foi o paraíso. Ganhou irmãos e mãe em um pacote único.
Jocasta Castilho chegou na vida deles quando Mel tinha cinco anos. Encontraram-se em um shopping por acaso quando Carlos lutava para manter Mel quieta enquanto sua secretária escolhia alguns vestidos e calçados para a menina.
Jocasta estava comprando na mesma loja para sua filha Vanessa. As duas crianças se viram e em instantes já estavam brincando juntas. Jocasta ajudou a secretária a escolher os produtos. Logo os adultos estavam conversando enquanto as crianças brincavam de se esconder entre as araras de roupas. Renata partiu quando o chefe e a nova amiga decidiram levar as meninas para o parquinho do shopping.
Jocasta e Carlos conversaram sobre várias coisas, inclusive sobre o fato de serem viúvos e em como era complicado criar os filhos sozinhos. Ela contou que tinha mais um filho, dois anos mais velho que Vanessa, chamado Lucas.
Carlos pediu que ela visitasse sua casa com os filhos para que eles brincassem com Mel. E ela passou a visitá-los todo fim de semana.
Com o tempo o relacionamento dos dois mudou e decidiram se casar.
Mel passou a ter uma família completa. E com o passar dos anos desenvolveu um amor platônico por Lucas.
***
Ela voltou ao presente quando seu pai anunciou que estava pronto para partir.
Se despediram de Renata ao passarem por ela, mas não foram muito longe. Não foram a nenhum restaurante chique. O refeitório da empresa no quarto andar era o local escolhido por eles.
Como tinha passado um pouco do horário de almoço havia muitas mesas vazias. Eles se serviram, cumprimentaram os conhecidos e se sentaram.
¬― Estou muito animada com a proximidade do dia da viagem. Só fico triste que Vanessa não possa ir – Mel comentou enquanto almoçavam.
― Ela escolheu um curso bem difícil, mas percebo que está apaixonada por ele. Quer aprender mais do que aparece nas aulas e quer 100% em todos os testes – Carlos demonstrava todo orgulho que sentia de sua filha de criação.
― Sua filha mais inteligente – Mel sorriu. — Enquanto Vanessa se esforça para ser uma grande cirurgiã, uma tal de Mel vive dentro dos doramas .
Não havia ciúmes ou inveja em seu tom de voz. Mel desejava coisas diferentes das que Vanessa buscava. Ela cresceu apaixonada por doramas, desde os seus doze anos, e baseou todo seu futuro neles. Seu objetivo estava traçado desde muito cedo: realizar todos os itens de sua lista das coisas que faria em Seul. Lista que criou a partir dos doramas que assistia.
― Ambas são inteligentes. Você vai seguir os passos de seu pai e administrar a nossa empresa. É uma grande responsabilidade, por isso aproveite bem esse tempo de férias que tirou antes de começar o curso de administração.
Carlos sabia que sua filha tinha consciência do quanto era amada. Tinha tanto orgulho do interesse dela em ajudar as pessoas, em aprender sobre o negócio da família e, principalmente, se orgulhava de como sua vida era organizada. Aprovou quando ela terminou o ensino médio e decidiu tirar um ano de férias antes de começar a fazer faculdade.
Sua filha sempre foi responsável e, apesar de nunca contar para ela, adorava o fato dela se manter focada em seguir os passos das mocinhas dos doramas, pois não corria o risco de vê-la se envolvendo em coisas erradas ou com pessoas de má índole. Para ela o primeiro beijo tinha que ser com a pessoa que seria sua para sempre e a primeira vez só depois de casados. Que pai não amaria isso?
― Tão compreensivo esse meu pai. Só não sei o motivo pelo qual não permite que eu faça o curso em uma universidade da Coreia do Sul.
― Sabe sim. É o mesmo motivo que te dei ontem quando pediu pela enésima vez. Você precisa trabalhar comigo e colocar em prática seus aprendizados. Se estiver longe não vai acompanhar tão bem o desenvolvimento da empresa.
― Eu sei, mas é tão difícil não pedir – ela riu. Seu pai tinha razão como sempre. Em vez de aprender em uma empresa estranha o melhor seria aprender na empresa onde trabalharia ao lado dele.
― Eu sei – riu também. — Você devia ir conhecer Seul de uma vez. Satisfazer sua curiosidade. Aproveite para conhecer pessoalmente Sun-hee. Já faz mais de três anos que se comunicam e ainda não se viram pessoalmente.
Mel colocou um pedaço da torta de chocolate na boca e fechou os olhos sentindo o sabor, como sempre fazia. Depois de instantes, comentou:
― Realmente pretendo fazer isso antes das minhas férias de um ano terminar. Mas vamos mudar de assunto. Quero falar sobre o senhor – sua expressão ficou séria.
― Não tenho nada de novo para contar – Carlos sabia qual o assunto e queria evitar.
― Eu sei que passou mal ontem no escritório. Não tente esconder isso de mim.
― Foi só um mal-estar – tentou esconder a verdade atrás de um sorriso. Não queria que a filha soubesse que teve um princípio de infarto. Havia proibido o Dr. Anderson, médico da família, de falar sobre isso com qualquer pessoa. Somente Jocasta sabia.
― Papai, está trabalhando demais. Não vai conseguir fazer muita coisa se ficar doente. Precisa cuidar da sua pressão.
― Estou me esforçando mais do que de costume por causa do contrato que estamos prestes a assinar com a K1 Corporation. É um contrato que pode significar uma parceria por anos. Se esse novo modelo de carro sair como eu quero, e conseguirmos esse contrato, vamos trabalhar com uma corporação sul coreana – tentou justificar usando a fraqueza dela por qualquer coisa que envolva a Coreia do Sul.
― Não vai me tranquilizar usando uma corporação coreana. Nada vale mais que sua saúde – parecia uma mãe repreendendo o seu filho malcriado. Carlos ocasionalmente se esquecia de tomar a medicação que se tornou parte do seu cotidiano depois que se descobriu com hipertensão arterial poucos anos atrás. Mel se mantinha sempre atenta para lembrá-lo quando necessário.
― Mas posso te tranquilizar dizendo que em no máximo duas semanas tudo estará resolvido. Inclusive gostaria de ser convidado por uma certa filha para uma pequena férias em Seul.
― Jura? – seu rosto se iluminou em um imenso sorriso. Quase esqueceu que estavam falando sobre a saúde dele. Quase. Ainda estava em alerta e ficaria de olho se ele passava mais tempo que o necessário trabalhando e se estava tomando seus remédios corretamente.
― Sim. Gostaria de viajar com seu velho pai? – perguntou satisfeito por ter feito a filha sorrir.
― Adoraria. Só não sei se Jocasta vai ficar animada. Ela prefere viagens que envolvam praias ou compras – Mel decidiu aceitar sua tentativa de mudar de assunto. Uma viagem com a família seria algo que faria bem a saúde dele.
― Se ela não quiser ir, iremos apenas nós dois – apesar de usar a possibilidade de uma viagem como meio para desviar do assunto incomodo, Carlos percebeu que realmente desejava férias com a filha.
― Combinado, mas isso não significa que pode descuidar da saúde.
― Combinado.
Terminaram o almoço e cada um seguiu seu caminho. Carlos voltou para o escritório onde teria uma pequena reunião e Mel seguiu para a casa de sua melhor amiga, Sara, onde marcaram de se encontrar para tratar da viagem ao Rio de Janeiro.
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