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Capa do romance O Preço do Amor Distorcido Dele

O Preço do Amor Distorcido Dele

Há oito anos, Heitor destruiu minha vida para proteger Isabela. Ele me culpou por um acidente que tirou minhas pernas e meu filho, usando minha mãe para me silenciar na prisão. Anos depois, ele confessou tudo em público: a armação das fotos e a culpa de Isabela. Alegando um amor doentio, Heitor revelou ter matado a cúmplice antes de ser condenado à morte. Agora, prestes a ser executado, seu último desejo é um encontro final comigo.
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Capítulo 2

Ponto de Vista: Elenora Queiroz

Kaila, sempre pragmática, já havia pego um pequeno kit de primeiros socorros de sua bolsa lotada. Ela limpou o corte na minha prótese, a testa franzida em concentração. O antisséptico frio parecia estranho contra o metal gelado.

"Pronto", disse ela, finalmente fechando o pequeno frasco. "Novinha em folha. Agora, sobre a minha certidão de casamento..." Ela me olhou, um brilho travesso nos olhos. "Você me deve uma nova, sabe. Aquela era minha única cópia."

Consegui um sorriso fraco.

"Claro. E um suprimento vitalício do que você quiser. Considere feito."

Um pensamento repentino me ocorreu.

"Na verdade, acabei de receber pelo último comercial de balé. Então, o jantar é por minha conta hoje à noite. O champanhe mais caro que eles tiverem."

A expressão de Kaila, que havia se suavizado em um sorriso brincalhão, de repente se fechou. O brilho travesso desapareceu, substituído por uma nuvem de tempestade.

"Elenora", disse ela, a voz baixa e séria. "O que você estava pensando? Aparecendo aqui? Você sabe o que hoje significa para ele."

Dei de ombros, o movimento causando uma dor surda no meu ombro.

"Não importa o que hoje significa para ele. Ele não é mais nada para mim."

"Nada?" Kaila zombou, sua voz se elevando. "Ele é a razão de você estar usando isso." Ela gesticulou enfaticamente para minhas próteses. "Ele é a razão pela qual seus pais se foram. Ele é a razão pela qual você passou três anos naquele inferno."

Suas palavras eram uma batida de tambor da verdade que eu tentava tanto ignorar.

"Eu sei, Kaila." Minha voz era monótona. "Mas eu tenho que viver. E dançar... dançar é viver para mim. É a única coisa que me faz sentir inteira de novo."

Ela passou a mão pelo cabelo, sua frustração evidente.

"Mas a que custo, Elenora? Você dança até desmaiar. Você se leva ao limite. Essa carreira vale mais que a sua vida?"

Encarei seu olhar, minha própria convicção inabalável.

"Essa carreira é a minha vida, Kaila. É o que me fez superar os tempos mais sombrios. É a única coisa que faz a dor fantasma nas minhas pernas parecer menos real."

Os olhos de Kaila se suavizaram, e ela soltou um suspiro longo e irregular. Ela sabia. Ela entendia a profundidade do meu vazio, o buraco que ele havia cavado na minha alma.

"Eu ainda não consigo acreditar", ela sussurrou, a voz embargada de emoção. "Eu me lembro do jeito que ele olhava para você, Elenora. Como se você fosse o sol, a lua e todas as estrelas. Todo mundo via. Ninguém acreditaria que terminaria assim."

Ela estava certa. Ninguém acreditaria. Não depois de tudo.

Fechei os olhos, uma onda de exaustão me invadindo.

"Ele salvou minha vida, Kaila", murmurei, as palavras um sussurro cru. "Mais de uma vez."

Minha mente viajou para trás, puxada à força para o labirinto da memória.

Eu tinha apenas oito anos quando me levaram. O mundo era um borrão de mãos ásperas, uma mordaça sufocante e o cheiro de cigarro velho. Fui parar em um porão escuro e úmido, meu corpo pequeno tremendo de medo. Havia outras crianças lá, magras e pálidas, seus olhos vazios. Elas me ensinaram as regras rapidamente: obedeça, ou sofra.

Eu nunca fui boa em obedecer. Meu espírito, mesmo naquela época, era selvagem demais, desafiador demais. Um dia, um homem corpulento de risada cruel me arrastou para fora, gritando sobre minha "atitude". Ele segurava uma faca enferrujada, sua lâmina brilhando na luz fraca. Eu gritei, mas ninguém se moveu. Estavam todos com muito medo, muito quebrados.

Justo quando a faca desceu, um menino pequeno e magro, não mais velho que eu, se jogou na minha frente. Era Heitor. Ele gritou quando a lâmina cortou seu braço, um rasgo irregular em sua camisa fina. O sangue floresceu como uma flor escura em sua pele.

Eu olhei, minha mente de oito anos incapaz de processar o horror. Então eu gritei, um som gutural que rasgou o silêncio do porão.

Heitor, pálido e tremendo, virou-se para mim. Seus olhos, mesmo através da dor, continham um estranho tipo de proteção feroz.

"Não chore", ele engasgou, a voz mal um sussurro. "Está tudo bem. Eu te protejo."

Anos depois, depois que fomos resgatados, depois que minha família o adotou, eu traçaria a cicatriz irregular em seu antebraço. Era um mapa de seu sacrifício, um lembrete permanente do menino que me escolheu. Eu a beijaria, murmurando desculpas, promessas. Ele apenas sorriria, seus olhos cheios daquele mesmo calor possessivo.

"Qualquer coisa por você, Elenora. Sempre."

Ele era meu protetor. Meu salvador. Minha família. Meu marido.

Meu marido. A palavra parecia uma mentira, uma piada cruel pregada por um deus malicioso.

A voz aguda de Kaila cortou a névoa das minhas memórias.

"Elenora? Você está me ouvindo?"

Olhei para cima, piscando. Ao nosso redor, o corredor movimentado do cartório de repente parecia barulhento demais, claro demais. Notei alguns homens, seus olhares demorando em minhas pernas, depois em meu rosto, uma mistura de pena e algo mais sombrio. Era uma sensação familiar, que eu aprendi a ignorar.

Peguei o copo de água que Kaila me entregou mais cedo e o esvaziei de um só gole. O gelo bateu nos meus dentes.

"Ele disse que me amava mais que a própria vida", murmurei, as palavras com gosto amargo. "Meu pai disse isso também, pouco antes do nosso casamento. Ele me disse que Heitor sempre me colocaria em primeiro lugar. Que eu era o mundo dele."

Uma risada áspera e sem humor escapou dos meus lábios.

"Que piada. O 'amor' dele era apenas mais uma arma, não era? Outra maneira de me controlar. De me destruir."

A memória do vídeo explícito, aquele que destruiu minha reputação, passou pela minha mente. Aquele que ele havia feito.

"O amor dele era uma mentira", repeti, a convicção fria e sólida no meu peito. "Uma mentira cruel e distorcida."

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