
O Preço do Amor Distorcido Dele
Capítulo 3
Ponto de Vista: Elenora Queiroz
O frenesi da mídia após meu sequestro foi avassalador. A família Queiroz, uma dinastia da tecnologia, raramente ficava fora das manchetes, mas isso era diferente. Todos os canais de notícias, todos os jornais, gritavam meu nome. Os sequestradores, um bando desajeitado de criminosos de quinta categoria, foram rapidamente presos. A influência da minha família, mesmo naquela época, era vasta.
As histórias mudaram de foco. Não apenas sobre a herdeira sequestrada, mas sobre o menino de rua sem nome que a salvou. "Herói Órfão Salva Princesa da Tecnologia", estampavam as manchetes. Heitor, um menino que ninguém sabia que existia, de repente se tornou um nome conhecido. Meus pais, imensamente gratos, o adotaram. Nossas vidas, já entrelaçadas pelo destino, tornaram-se inseparáveis.
Meu pai passou inúmeras horas com a agência de adoção, com advogados, com o conselho tutelar. Cada vez que ele voltava, sua expressão estava um pouco mais tensa, um pouco mais preocupada. Heitor, ao que parecia, não era uma criança fácil.
Lembro-me do incidente no ensino médio. Um garoto, do último ano, me encurralou no corredor, suas palavras cheias de desrespeito, suas mãos me alcançando. Antes que eu pudesse gritar, Heitor estava lá. Ele se moveu como uma sombra, rápido e silencioso. Agarrou o garoto pelo pescoço, batendo-o contra os armários. Seus olhos, geralmente tão gentis quando olhavam para mim, estavam selvagens, ferozes.
Ele não apenas o atingiu. Ele usou uma chave inglesa que guardava em seu armário, para consertar sua moto velha. Ele a desceu, de novo e de novo, na mão do garoto, depois no joelho dele. O som doentio de osso quebrando foi um som que eu nunca esqueceria. Então, com uma calma arrepiante, ele rasgou um pedaço da camisa do garoto, enfiou na boca dele e a fechou com fita adesiva.
O garoto nunca mais me incomodou. Na verdade, ele nem sequer olhava para mim. Quando voltou à escola semanas depois, com o braço na tipóia, ele se encolhia visivelmente sempre que eu passava. Uma repulsa física e visceral que sempre revirava meu estômago.
Depois houve o incidente no baile de gala da universidade. Um CEO rival, um homem conhecido por seu charme predatório, fez um comentário inadequado sobre meu vestido, seus olhos demorando demais na minha clavícula. Heitor, que estava a poucos metros de distância, ouviu. Ele pegou uma taça de champanhe, não pela haste, mas pelo bojo, e a quebrou no rosto do homem. O homem cambaleou para trás, o sangue florescendo em sua bochecha. Heitor, com os nós dos dedos sangrando do vidro quebrado, simplesmente se colocou na minha frente, me protegendo da cena.
"Ninguém fala com ela assim", ele rosnou, sua voz uma ameaça baixa.
Ele sempre me protegeu. Sempre.
"Ele te vê como mais importante que a própria vida." As palavras do meu pai, ditas gentilmente na véspera do meu casamento, ecoaram em minha mente. Ele havia colocado a mão no ombro de Heitor, seus olhos cheios de orgulho. "Elenora, você tem uma sorte incrível de ter um homem que morreria por você."
Meu pai sorriu, um sorriso caloroso e amoroso.
"Que vocês dois sejam felizes, minha filha. Para todo o sempre."
A voz aguda e insistente de Kaila perfurou meu devaneio.
"Elenora! Você está viajando de novo."
Pisquei, voltando ao presente. O cheiro enjoativo de purificador de ar barato no cartório, o murmúrio distante de vozes, a forma como o sol do final da tarde entrava pelas janelas empoeiradas.
Senti uma dor familiar atrás dos olhos. Ele me amava mais que a própria vida. As palavras eram uma zombaria agora. Uma distorção cruel e viciosa de uma memória.
Pensei no vídeo deepfake. Aquele que destruiu minha carreira, minha reputação. Aquele que ele havia criado. Eu havia enviado fotos para ele, centenas delas, confiando nele implicitamente. E ele as usou para criar uma mentira tão convincente, tão vil, que despedaçou meu mundo.
Não. O amor dele não era amor. Era uma farsa. Uma arma. Uma piada doentia e distorcida.
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