
O Preço da Vida: O Segredo de Lucas
Capítulo 2
O médico disse-me que o meu filho, Lucas, tinha leucemia.
Foi no dia em que ele fez cinco anos.
Eu tinha acabado de lhe comprar um bolo de chocolate, o seu favorito, e um boneco do super-herói que ele tanto queria.
O meu marido, Pedro, estava ao meu lado, mas não olhava para mim nem para o médico.
Ele olhava para o chão, como se o chão tivesse todas as respostas.
O médico continuou a falar, a explicar os tratamentos, a quimioterapia, o transplante de medula óssea.
As palavras dele eram um zumbido distante nos meus ouvidos.
Eu só conseguia pensar no sorriso do Lucas quando viu o bolo.
"Precisamos de fazer testes de compatibilidade de medula óssea," disse o médico. "Começando pelos pais."
Pedro finalmente levantou a cabeça.
"Eu não posso," disse ele, com a voz baixa e firme.
Eu olhei para ele, sem entender.
"O que queres dizer com 'não posso'?"
"Eu não sou o pai biológico dele, Sofia," disse ele, sem rodeios. "Não sou compatível."
O mundo parou. O bolo de aniversário, o super-herói, a leucemia, tudo desapareceu.
Só restaram as palavras dele, a ecoar na sala silenciosa do hospital.
"Do que estás a falar, Pedro? Ficaste louco?"
"Eu sempre soube," continuou ele, ignorando a minha pergunta. "Sempre soube que ele não era meu. Tu tiveste aquele caso, antes de nos casarmos."
A voz dele era fria, sem emoção. Como se estivesse a falar do tempo.
"Isso foi há seis anos! E eu juro que não aconteceu nada!" A minha voz tremia.
"Não importa agora," disse ele, levantando-se. "A questão é que eu não posso doar. E não vou pagar por um tratamento para o filho de outro homem."
Ele virou-se e saiu da sala, deixando-me sozinha com o médico e o diagnóstico que tinha acabado de destruir a minha vida.
O médico olhou para mim, com uma expressão de pena.
"Sinto muito, Sra. Alves."
Eu não conseguia chorar. As lágrimas não saíam.
Senti o meu telemóvel vibrar no bolso. Era a minha sogra, a mãe do Pedro.
Atendi, a precisar de ouvir uma voz amiga.
"Sofia? O Pedro já te contou?" A voz dela era ríspida, acusadora.
"Contou o quê? Que ele está a abandonar o próprio filho?"
"Não lhe chames isso! Ele não é filho dele! O Pedro ligou-me, contou-me tudo. Como pudeste ser tão descarada? Enganaste o meu filho durante cinco anos! E agora queres que ele pague por um erro teu?"
"Ele está doente! Ele precisa de nós!" gritei, desesperada.
"Ele precisa do pai verdadeiro dele. Vai procurá-lo. O meu filho já sofreu o suficiente por tua causa. Adeus."
Ela desligou.
Fiquei a olhar para o telemóvel, para o ecrã preto.
O meu marido tinha-me abandonado. A minha sogra tinha-me acusado.
E o meu filho estava num quarto, a poucos metros de distância, a lutar pela vida.
Sozinho.
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