
O Preço da Perfeição
Capítulo 2
Maria Eduarda segurava a caneta com força, a ponta pairando sobre a linha pontilhada do formulário. O ar no consulado era frio e impessoal, cheirando a papel e ao desinfetante suave usado para limpar o chão. O funcionário do outro lado do balcão de vidro a encarava com uma expressão de tédio, esperando que ela finalmente assinasse o documento que mudaria sua vida para sempre. O visto de residência para Portugal. Seu plano de fuga.
Ela respirou fundo, o som de sua própria respiração ecoando em seus ouvidos, e assinou seu nome com um traço firme. Estava feito. Um passo crucial para deixar tudo para trás.
Enquanto esperava o funcionário processar os papéis, duas mulheres na fila atrás dela cochichavam. Seus sussurros eram altos o suficiente para que ela ouvisse cada palavra.
"Olha, não é a Maria Eduarda, a arquiteta?" disse uma delas. "A esposa do Dr. Pedro. Que casal perfeito, não é? Ele é tão apaixonado por ela."
"Eu vi uma matéria sobre eles mês passado," a outra respondeu. "Ele disse que ela é a inspiração dele, que tudo que ele conquistou foi por causa dela. Ele parece adorá-la. Deve ser maravilhoso ter um marido assim."
Maria Eduarda sentiu um sorriso amargo formar-se em seus lábios, um sorriso que não alcançou seus olhos. Perfeito. Apaixonado. Adorador. As palavras ecoavam em sua mente como uma piada cruel. Ela era a piada. Por anos, ela acreditou nessa fachada, nessa imagem pública de um casamento dos sonhos construído sobre uma base de confiança e dedicação mútua.
Seu coração apertou, uma dor familiar e profunda se espalhando por seu peito. A imagem de Pedro, seu marido, o renomado cirurgião plástico, vinha à sua mente. Pedro, que construiu uma clínica de luxo com o dinheiro e os contatos dela. Pedro, que a tratava como uma rainha na frente de todos.
Um flashback invadiu seus pensamentos, tão nítido que parecia ter acontecido ontem. Era seu aniversário de casamento, e Pedro havia fretado um jatinho para levá-la a Paris para um jantar surpresa. "Nada é demais para você, meu amor," ele sussurrou em seu ouvido enquanto o avião decolava, seus olhos brilhando com o que ela pensava ser amor incondicional. Ele a cobria de presentes caros, de elogios públicos, de gestos grandiosos que faziam todas as suas amigas suspirarem de inveja. Ele era o marido perfeito.
Mas a perfeição era uma mentira. Uma mentira que ruiu de forma espetacular.
A imagem de Paris se desfez, substituída por outra, muito mais recente e dolorosa. Ela voltando para casa mais cedo de uma viagem de negócios, querendo surpreender Pedro. A surpresa foi dela. A porta do quarto deles estava entreaberta, e os sons que vinham de dentro fizeram seu sangue gelar. Ela empurrou a porta e os viu. Pedro, seu marido, na cama deles, com Sofia, sua própria irmã.
Sofia, a influenciadora digital que vivia às custas do casal, usando as roupas que Maria Eduarda comprava, morando em um apartamento que Maria Eduarda pagava, sempre com um sorriso doce e palavras de admiração pela "irmãzona". Naquele momento, o sorriso de Sofia era de triunfo, e o olhar de Pedro era de pânico. A traição era um golpe devastador, mas o que veio a seguir foi ainda pior.
Maria Eduarda descobriu que a traição não era apenas pessoal. Sofia, com a ajuda de Pedro, vinha usando informações confidenciais da clínica, contatos de clientes ricos que Maria Eduarda havia apresentado, para roubar projetos e sabotar sua carreira de arquiteta. A inveja de Sofia e a ganância de Pedro se uniram para destruí-la.
Por isso ela estava ali, no consulado, com o coração em pedaços, mas com uma nova e fria determinação. Pedro era um homem poderoso, com uma reputação a zelar. Ele nunca a deixaria ir facilmente, não se isso manchasse sua imagem de cirurgião ético e marido devotado. Ela sabia que precisava desaparecer, cortar todos os laços, antes que ele pudesse manipulá-la mais uma vez.
Com os documentos em mãos, ela saiu do consulado e voltou para o carro. A cidade parecia estranha, como se ela já não pertencesse àquele lugar. Ela dirigiu para casa, para a mansão que ela projetou, um símbolo de seu sucesso e, agora, de sua dor.
Quando entrou, Pedro estava na sala de estar, cercado por fotos do casal. Ele se levantou assim que a viu, seu rosto se contorcendo em uma máscara de preocupação e arrependimento.
"Duda, meu amor, onde você estava? Fiquei tão preocupado," ele disse, sua voz suave e melodiosa, a mesma voz que ele usava para acalmar seus pacientes antes de cortar seus rostos.
Ele tentou abraçá-la, mas ela se afastou. "Eu precisava de um pouco de ar."
"Você parece pálida. Está se sentindo bem? Quer que eu te examine?" ele perguntou, tentando tocar sua testa.
A ironia era nauseante. Ele, o traidor, agindo como o marido atencioso. Enquanto ele falava, o celular dele, esquecido na mesa de centro, vibrou. Maria Eduarda olhou de relance e sentiu o estômago revirar. Uma mensagem de Sofia: "Ela já descobriu tudo? Não se esqueça do nosso plano, amor. Precisamos proteger nossos bens."
A prova. A prova de que o arrependimento dele era falso, de que sua preocupação era apenas para proteger sua reputação e seu dinheiro. Ele não a amava. Ele nunca a amou. Ele só amava o que ela representava, o que ela lhe proporcionava.
"Estou bem," ela disse, sua voz fria e controlada, escondendo a tempestade de dor e raiva dentro dela. "Só estou um pouco cansada. Acho que vou tomar um banho."
No banheiro, ela trancou a porta e se apoiou na pia, olhando seu reflexo no espelho. A mulher que a encarava de volta parecia uma estranha, com os olhos fundos e a pele pálida. A dor era tão intensa que era física, uma pressão no peito que a impedia de respirar. Mas por baixo da dor, uma nova sensação começava a surgir: uma raiva gelada.
Mais tarde naquela noite, incapaz de dormir, ela desceu as escadas para beber um copo d'água. A casa estava silenciosa. Ao passar pelo escritório de Pedro, ela ouviu vozes baixas. A porta estava ligeiramente aberta. Ela parou, o coração batendo forte contra as costelas.
Era Pedro, falando ao telefone em um sussurro. "Sofia, querida, acalme-se. Sim, ela está estranha, mas eu consigo controlá-la. Ela me ama demais para fazer qualquer coisa. Só preciso de um pouco de tempo para convencê-la a não pedir o divórcio agora. Não podemos deixar que ela leve metade de tudo. Apenas continue agindo como a vítima, a irmãzinha arrependida. Eu cuido do resto."
Cada palavra era um golpe. Controlá-la. Manipulá-la. Proteger os bens deles. O amor que ele dizia sentir era apenas uma ferramenta, uma arma para mantê-la presa.
Naquele momento, na escuridão do corredor, algo dentro de Maria Eduarda se quebrou para sempre. A dor se transformou em uma clareza cortante. A tristeza deu lugar a uma determinação de aço. Eles a destruíram, mas ela não ficaria caída nos escombros de sua vida. Ela se reergueria. E antes de partir, ela faria com que eles pagassem. A fuga não era mais suficiente. Agora, ela queria vingança.
Você pode gostar





