
O Preço da Perfeição
Capítulo 3
O som de uma briga do lado de fora acordou Maria Eduarda. Um casal na casa vizinha estava gritando, as vozes agudas atravessando o vidro da janela do quarto. "Você me traiu! Como pôde fazer isso comigo?" a mulher gritava, a voz embargada pelo choro.
Maria Eduarda se sentou na cama, o coração pesado. O mundo parecia ecoar sua própria dor. Ela olhou para o lado, para o espaço vazio onde Pedro deveria estar. Ele tinha passado a noite no quarto de hóspedes, uma encenação patética de respeito pelo "espaço" dela.
Ela pensou sobre lealdade. Sobre os votos que fizeram no altar. Pedro havia chorado no dia do casamento, dizendo na frente de centenas de pessoas que ela era a única mulher que ele amaria, que a lealdade a ela era tão natural quanto respirar. Que mentiroso. A hipocrisia dele era sufocante.
Ele entrou no quarto naquele momento, trazendo uma bandeja com café da manhã. Um sorriso suave no rosto, como se nada tivesse acontecido.
"Bom dia, meu amor. Trouxe seu café," ele disse, colocando a bandeja na cama. "Pensei em você a noite toda. Eu juro, Duda, o que aconteceu com a Sofia foi um erro terrível, um momento de fraqueza. Nunca mais vai acontecer. Eu amo você, só você."
Suas palavras eram como veneno doce. Maria Eduarda olhou para ele, para o homem que ela um dia amou com todo o seu ser, e sentiu apenas repulsa. Ela não disse nada, apenas pegou uma xícara de café, a mão tremendo levemente.
O som da campainha tocou, quebrando a tensão no quarto. Uma das empregadas apareceu na porta. "Senhora, a sua irmã, Sofia, está aqui."
Pedro ficou visivelmente tenso. "O que ela está fazendo aqui? Eu disse para ela não vir!" ele murmurou, mais para si mesmo do que para Maria Eduarda.
Sofia entrou no quarto antes que alguém pudesse detê-la, seus olhos vermelhos e inchados de um choro claramente forçado. Ela correu na direção de Maria Eduarda, caindo de joelhos ao lado da cama.
"Duda, me perdoa! Por favor, me perdoa! Eu não sei o que deu em mim. Eu estava bêbada, confusa... Eu te amo, você é minha irmã! Eu nunca quis te machucar," ela soluçava, agarrando a mão de Maria Eduarda.
Pedro observava a cena com uma expressão de desaprovação e controle. "Sofia, levante-se. Não é hora para isso," ele disse, sua voz dura. Ele estava preocupado que a performance exagerada de Sofia pudesse estragar seu próprio plano cuidadoso. Ele a puxou pelo braço, forçando-a a ficar de pé. "Acho melhor irmos para a casa dos meus pais. Precisamos de um pouco de paz, longe de tudo isso."
Era uma desculpa transparente para tirar Maria Eduarda de perto de Sofia, para controlar a narrativa. Ele sabia que a presença de Sofia era uma bomba-relógio. Maria Eduarda, sentindo-se como uma prisioneira em sua própria casa, concordou sem emoção. Qualquer lugar era melhor do que aquele quarto sufocante.
A viagem para a casa dos pais de Pedro foi silenciosa. Ao chegarem, a recepção foi exatamente como ela esperava: fria e hostil. A mãe de Pedro, uma mulher altiva e com um olhar crítico, a mediu de cima a baixo.
"Então você veio," disse a mulher, seu tom gélido. "Achei que depois do seu... escândalo, você teria a decência de ficar longe."
"Mãe, pare com isso," Pedro interveio, sua voz firme. "A culpa não é da Duda. O erro foi meu. E eu não vou tolerar que ninguém a trate mal."
Ele a defendeu com uma ferocidade que teria derretido o coração de Maria Eduarda meses atrás. Ele a puxou para perto, colocando um braço protetor em volta de seus ombros, enfrentando sua própria família por ela. Era uma performance impressionante, digna de um Oscar. O filho devotado, o marido protetor.
Mas Maria Eduarda não sentiu nada. Nenhum pingo de gratidão. Seu coração estava morto para ele. Ela olhou para o rosto dele, tão perto do seu, e viu apenas as mentiras, a manipulação, a traição. Ele não a estava protegendo, estava protegendo seu investimento, seu troféu. Enquanto sua família a atacava, e ele a "defendia", ela se sentia mais sozinha do que nunca, uma espectadora de sua própria vida em ruínas, presa em um teatro de falsidade.
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