
O Preço da Paixão Urbana
Capítulo 2
Eu me lembro do segredo que guardávamos, um segredo que me custou tudo. Por ele, abandonei minha casa na favela, o zumbido constante da minha máquina de costura e o sonho de ver meus croquis ganharem vida em uma passarela. Larguei minha família, que me olhava com uma mistura de pena e desaprovação, e os amigos que não entendiam por que eu estava jogando meu futuro fora por um grafiteiro sem nome. Eu troquei a segurança da minha pequena vida pela promessa de um amor selvagem e de um futuro pintado em cores vibrantes nos muros do Rio de Janeiro. Ele era Pedro, e por ele, eu teria incendiado o mundo. Mal sabia eu que era a minha própria vida que estava prestes a virar cinzas.
O cheiro de tinta fresca e a batida pulsante do funk deram lugar ao aroma de perfume caro e ao som abafado de conversas presunçosas. Estávamos em uma cobertura na Zona Sul, um lugar que Pedro me disse ser de um "amigo" que estava viajando. Mas ele não estava ali comigo, estava do outro lado do salão, rindo com um grupo de jovens que pareciam ter saído de uma revista de moda. Pedro, meu grafiteiro de roupas surradas e mãos manchadas de tinta, agora vestia um terno de linho que custava mais do que tudo que eu já possuí. Ao seu lado, em uma mesa de centro de vidro, repousava uma chave de carro de luxo, brilhando sob a luz dos lustres de cristal. O choque me paralisou, uma sensação fria que começou nos meus pés e subiu pela minha espinha. Aquele não era o meu Pedro.
Eu me aproximei devagar, uma estranha no ninho de ouro. As vozes deles chegaram até mim, nítidas e cruéis. "E aí, Pedro? A aposta ainda está de pé?", um rapaz loiro perguntou, com um sorriso debochado. "Cinquenta mil que a 'garota da comunidade' largava tudo por você." Pedro riu, uma risada que não alcançou seus olhos. Ele pegou a chave do carro. "Pode pagar. Ela está aqui, não está? Ingênua como o diabo." Cada palavra era um soco no meu estômago. O mundo girou, as luzes da cobertura se transformaram em borrões de dor. Eu não era um amor, era uma aposta. Um troféu para o herdeiro entediado de uma construtora. Meu sacrifício, minha paixão, minha vida… tudo era parte de um jogo doentio.
Eles me viram. O silêncio caiu sobre o grupo, seguido por risadinhas mal disfarçadas. Os olhos deles me mediam de cima a baixo, meu vestido simples, costurado por mim mesma, meus sapatos gastos, meu cabelo que não conhecia os salões caros que frequentavam. "Olha só, a Cinderela da favela veio buscar o príncipe", uma garota de vestido vermelho zombou. A humilhação queimou meu rosto, um calor insuportável que me fez querer desaparecer. Eu olhei para Pedro, buscando um traço, qualquer traço do homem por quem me apaixonei. Não encontrei nada.
Ele se aproximou, o sorriso arrogante de volta em seus lábios. Ele se inclinou, como se fosse me contar um segredo, e sussurrou no meu ouvido, sua voz um veneno doce.
"Gostou da surpresa, meu amor? Você realmente achou que alguém como eu ficaria com alguém como você?"
Ele repetiu a pergunta, saboreando cada sílaba.
"Achou mesmo?"
Meu coração se partiu em mil pedaços. Eu olhei fundo nos olhos dele, procurando por um pingo de remorso, um lampejo de humanidade. Não havia nada. Apenas um vazio frio e a diversão cruel de quem assiste a um inseto se debater antes de esmagá-lo. Eu era o inseto.
Então, uma mulher alta e elegante se aproximou, passando o braço pelo de Pedro. Era Luana, a herdeira de outra família poderosa, sua noiva por conveniência, como eu viria a descobrir mais tarde. Ela me olhou com um desprezo calculado.
"Pedro, querido, sua brincadeira já perdeu a graça. Mande-a embora."
A palavra "brincadeira" ecoou na minha cabeça, selando meu destino naquela noite. Eu não era nada. Menos que nada.
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