
O Preço da Paixão Urbana
Capítulo 3
O riso deles cessou abruptamente quando Pedro se moveu em minha direção, sua expressão agora entediada, como se estivesse lidando com uma tarefa desagradável. Ele caminhou até mim com a mesma naturalidade de quem atravessa uma sala para pegar uma bebida, ignorando a tempestade que se formava dentro de mim. Seu rosto, que horas antes eu cobria de beijos, agora era a máscara fria de um estranho.
"Vamos, Duda. O show acabou", ele disse, sua voz desprovida de qualquer emoção. Ele agarrou meu braço, seus dedos apertando com força, com uma impaciência que me fez recuar.
O movimento brusco repuxou a pele do meu ombro, onde eu tinha um pequeno corte, um arranhão de um prego solto na parede do nosso suposto "ninho de amor". Uma dor aguda me atravessou, e o corte, que mal sangrava antes, se abriu. Uma gota de sangue carmesim manchou a manga do meu vestido. A dor física era um eco pálido da agonia que rasgava minha alma, mas foi o suficiente para me despertar do torpor.
Meu corpo reagiu antes da minha mente. Com a mão livre, tateei a pequena bolsa a tiracolo, meus dedos se fechando em volta do único objeto de metal que eu carregava: uma tesoura de costura pequena e afiada, daquelas para cortar linhas. Em um movimento rápido e desesperado, eu a ergui e cravei a ponta no dorso da mão dele, a mão que me segurava.
Um grito surpreso escapou dos lábios dele, mais de espanto do que de dor. O sangue dele brotou, vermelho e vivo, misturando-se ao meu na manga do vestido. O metal frio da tesoura contra sua pele, o sangue quente que escorria, tudo pareceu acontecer em câmera lenta. Era a nossa comunhão final, um batismo de dor e traição. O laço que nos unia não era mais de amor, mas de sangue derramado.
Pedro olhou para a própria mão, o sangue escorrendo entre seus dedos, e depois para mim. Seus olhos não demonstravam raiva, apenas um tédio profundo, como se minha rebelião fosse apenas mais um inconveniente. Ele soltou meu braço.
"Você é mais selvagem do que eu pensava", ele disse, com uma ponta de admiração doentia. Ele tirou um lenço de seda do bolso do terno e o enrolou frouxamente na mão ferida. "Fique com o troco do táxi." Ele jogou algumas notas no chão, a meus pés.
Então, ele simplesmente se virou, pegou as chaves da mesa e caminhou em direção à porta, deixando um rastro de indiferença e o cheiro de seu perfume caro. Os amigos dele me olharam com uma mistura de medo e desprezo, e então o seguiram, me deixando sozinha no meio daquela sala luxuosa, o silêncio agora mais ensurdecedor que os gritos.
Eu desabei. Minhas pernas cederam e eu caí de joelhos no chão de mármore frio. O soluço que eu segurava rasgou minha garganta, um som gutural e animalesco. Meu corpo tremia incontrolavelmente, o ombro latejando, o coração em frangalhos, a alma esvaziada.
Pedro desapareceu da minha vida naquela noite, tão rápido quanto havia entrado. Com ele, se foi o teto sobre minha cabeça, o dinheiro que eu tinha e qualquer esperança de um futuro. Fui jogada na rua, sem nada além da roupa do corpo e de uma dor que parecia grande demais para caber em mim. Para sobreviver, encontrei trabalho. A ironia cruel do destino me colocou em um canteiro de obras, carregando sacos de cimento e empurrando carrinhos de mão cheios de entulho. Eu construía os alicerces dos prédios de luxo que a construtora da família de Pedro erguia sobre os escombros da minha vida.
Meses depois, o destino, com seu senso de humor perverso, nos colocou frente a frente novamente. Eu estava coberta de poeira e suor, empurrando um carrinho de mão pesado, quando um carro de luxo parou ao lado da obra. A janela do passageiro desceu, e lá estava ele, Pedro, com seus amigos. Meus algozes. Eles me olharam como se eu fosse um bicho exótico, uma curiosidade suja no meio do caminho deles.
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