
O Preço da Obsessão
Capítulo 2
Eu estava na sala, olhando as fotos do meu último projeto que tinha acabado de ser publicado em uma revista de arquitetura. Era uma sensação boa, um reconhecimento pelo meu trabalho duro. Tirei uma foto da página da revista ao lado de uma xícara de café e postei nas minhas redes sociais. Uma pequena celebração pessoal.
O telefone tocou quase imediatamente. Era Pedro, meu marido.
"O que você está fazendo?" A voz dele era dura, cheia de uma raiva que eu não entendia.
"Oi, Pedro. Eu só..."
"Eu vi sua postagem," ele me cortou. "Como você pode estar aí, relaxada, tomando café e se exibindo, quando a Juliana está passando por um inferno?"
A confusão inicial deu lugar a um cansaço familiar. Juliana. Sempre Juliana. A "amiga de infância" dele.
"O que aconteceu com a Juliana agora?" perguntei, minha voz já sem energia.
"Ela teve outra crise. O ex-marido dela ligou, a ameaçou de novo. Ela mal consegue sair da cama. E você fica aí, postando fotinho feliz? Você não tem um pingo de empatia?"
As palavras dele eram um ataque direto. Ele falava da Juliana como se a dor dela fosse a única que importasse no mundo, como se o meu momento de felicidade fosse uma ofensa pessoal a ela. Sete anos de casamento, e eu ainda era a espectadora da vida dele com Juliana.
"Pedro, meu projeto foi publicado. Eu só queria compartilhar. Isso não tem nada a ver com a Juliana."
"Claro que tem!" ele gritou do outro lado da linha. "Tudo tem a ver! Estou aqui, tentando juntar os pedaços dela, tentando ser forte por ela, e minha própria esposa não consegue nem ter a decência de ser um pouco mais discreta! Você faz de propósito para me provocar, para mostrar que não se importa?"
A acusação era tão absurda que me deixou sem palavras. Ele estava me culpando pelo estresse dele, pela situação da Juliana, por tudo. Era um padrão. Minhas conquistas eram diminuídas, minhas tristezas ignoradas, tudo em nome da fragilidade de Juliana.
Lembrei do meu aborto espontâneo, seis meses atrás. Eu liguei para ele do hospital, sangrando e com dor, e ele disse que não podia ir porque Juliana tinha tido um ataque de pânico e precisava dele. Ele apareceu no dia seguinte, com flores murchas e um pedido de desculpas vazio, cheirando ao perfume dela.
Lembrei do funeral do meu pai. Ele ficou ao meu lado por dez minutos e depois foi embora para atender a uma ligação "urgente" dela.
Eu ouvia a respiração pesada e irritada dele no telefone. Ele esperava que eu me desculpasse, que eu me sentisse culpada. Mas, pela primeira vez, eu não senti nada além de um vazio gelado.
O amor que eu sentia por ele, a esperança de que um dia ele me enxergaria, tudo isso havia se esvaído, gota a gota, a cada vez que ele escolhia Juliana em vez de mim.
Ele continuou a falar, a reclamar, a me acusar. Eu não o interrompi. Apenas escutei sua voz se tornar um ruído de fundo.
Naquele silêncio, enquanto ele ainda despejava sua raiva em mim, uma decisão se formou na minha mente. Não foi uma decisão de raiva ou de dor. Foi uma decisão calma, clara e absoluta.
Eu ia pedir o divórcio.
Quando ele finalmente parou de falar, esperando minha resposta, minha submissão, eu apenas disse:
"Tudo bem, Pedro."
E desliguei.
Olhei para a revista na minha frente, para a minha foto sorrindo no artigo. Aquela era Ana Paula, a advogada de sucesso. A mulher que eu era fora daquele casamento. E era hora de voltar a ser apenas ela.
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