
O Preço da Obsessão
Capítulo 3
Naquela noite, Pedro chegou em casa mais tarde do que o normal. Ele entrou na sala segurando um buquê de rosas, as mesmas que ele sempre comprava quando sabia que tinha passado dos limites. Um gesto ensaiado, vazio de significado.
"Me desculpe," ele disse, sem me olhar nos olhos. "Eu estava estressado. A situação com a Ju me deixa fora de mim."
Ele colocou as flores em um vaso, a água espirrando na mesa de centro. Ele agia como se aquele simples ato pudesse apagar a conversa de mais cedo, os anos de negligência.
Eu continuei sentada no sofá, quieta. Eu não disse nada.
Ele se sentou ao meu lado, mantendo uma distância segura. "Olha, eu sei que tenho pedido muito de você. Eu sei que a Juliana ocupa muito do meu tempo."
Ele fez uma pausa, esperando que eu o confortasse, que eu dissesse "tudo bem, eu entendo". Eu não disse.
Ele suspirou, a impaciência começando a vazar por sua fachada de arrependimento. "Eu estava pensando... A Juliana realmente precisa sair da cidade um pouco. Mudar de ares. O médico dela disse que seria bom."
Eu sabia o que vinha a seguir.
"Eu pensei em levá-la para aquela pousada na praia que nós gostamos. Apenas por um fim de semana. Para ela poder respirar." Ele finalmente olhou para mim. "Nós podemos usar um pouco das nossas economias. É por uma boa causa. Eu fiz tanto por este casamento, trabalhei tanto para nos dar esta vida. É um pequeno sacrifício."
A audácia dele era impressionante. Ele queria usar nosso dinheiro, o dinheiro que eu ganhei na maior parte, para levar a amante emocional dele em uma viagem romântica, e ainda queria que eu visse isso como um "pequeno sacrifício" para o bem maior.
Levantei meu olhar do livro que estava fingindo ler e o encarei diretamente.
"Não."
A palavra foi curta, seca, sem espaço para negociação.
A surpresa no rosto dele foi quase cômica. Ele não estava acostumado a ser contrariado por mim. "Não? O que você quer dizer com não?"
"Eu quero dizer não, Pedro. Você não vai usar nosso dinheiro para levar a Juliana para a praia."
A máscara de calma dele caiu completamente. O rosto dele se contorceu em uma carranca de raiva. "Qual é o seu problema, Ana Paula? É sempre isso! Você nunca entende! Você tem ciúmes, é isso? Ciúmes de uma mulher que está doente, que foi abusada?"
"Eu não tenho ciúmes, Pedro. Eu estou cansada."
"Cansada de quê? De ter uma vida boa? Uma casa bonita? Um marido que se mata de trabalhar?"
"Cansada de ser a segunda opção. Cansada de ser invisível."
Ele se levantou, andando de um lado para o outro na sala. Era um show que eu já tinha visto muitas vezes. A raiva dele era uma arma para me fazer recuar.
"Invisível? Você é inacreditável! A Juliana precisa de mim! Ela não tem ninguém! O ex-marido a destruiu! Ela tem depressão pós-nupcial, estresse pós-traumático! Você é uma advogada forte, independente! Você não precisa de mim do jeito que ela precisa!"
Era o argumento final dele, a justificativa para tudo. A força dela contra a minha. A fraqueza dela como um trunfo, a minha força como uma falha. Ele me punia por não precisar ser salva por ele.
"Você tem razão, Pedro," eu disse, minha voz perfeitamente calma. "Eu não preciso de você."
Ele parou de andar e me encarou, chocado com a minha ousadia. A raiva dele se transformou em desprezo.
"Você se tornou uma pessoa muito amarga, Ana Paula."
Ele pegou as chaves do carro. "Eu vou ver a Juliana. Pelo menos ela aprecia o que eu faço por ela."
Ele bateu a porta ao sair. As rosas que ele trouxe já começavam a murchar na mesa. Eu olhei para elas e, pela primeira vez em muito tempo, senti uma pontada de esperança. A esperança da liberdade.
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