
O Preço da Liberdade
Capítulo 2
A música eletrônica pulsava, vibrando no meu peito, mas o barulho dentro da minha cabeça era muito maior. Estávamos em um dos eventos de lançamento mais badalados de São Paulo, o tipo de lugar que Sofia, minha namorada, sempre sonhou em frequentar. E ela estava lá, no centro de tudo, como sempre.
Só que não estava comigo.
Estava ao lado de Marcelo, um empresário famoso do setor de tecnologia, o tipo de cara que exala poder e dinheiro. Ele também era ex-namorado dela. A mão dele estava na cintura de Sofia, um pouco baixa demais, e os dois riam de algo que ele sussurrava no ouvido dela. As luzes coloridas do evento batiam no rosto dela, fazendo-a parecer uma estrela.
Um pequeno grupo de pessoas já tinha notado. Eu via os olhares, os sorrisos maliciosos, os sussurros. Eles olhavam para o casal brilhante e depois para mim, parado sozinho perto do bar com um copo de água na mão. A humilhação era uma sensação física, um calor que subia pelo meu pescoço.
Sofia me viu olhando. Em vez de se afastar, ela se inclinou ainda mais em Marcelo, um desafio silencioso nos olhos.
Um colega de agência deu um tapinha no meu ombro.
"Relaxa, Tiago. Ela só está fazendo networking."
Eu forcei um sorriso.
"Claro. Networking é fundamental."
Minha voz saiu estranhamente calma, quase divertida. O colega ficou sem saber o que dizer e se afastou. A minha calma era uma mentira, mas uma mentira que eu contava para mim mesmo há anos. A verdade era que eu estava exausto.
Eu trabalhava como um louco na agência de marketing digital, não por ambição própria, mas para sustentar o sonho dela de ser uma influenciadora digital famosa e, mais importante, para pagar os tratamentos caríssimos de Lucas, meu irmão mais novo. Ele tinha uma condição de saúde rara, e cada centavo contava.
Sofia sabia disso. Ela sabia que cada vestido novo, cada jantar em restaurante caro, cada equipamento que eu comprava para ela gravar seus vídeos era um dinheiro que podia ir para o bem-estar do meu irmão. E mesmo assim, ela nunca parava de pedir.
Eu era o pilar. O provedor. O idiota.
Ela finalmente se afastou de Marcelo e veio na minha direção, o rosto perfeito contorcido em uma expressão de irritação.
"O que foi essa sua cara? Tá todo mundo olhando pra gente."
"Para você, Sofia. Estão olhando para você," eu disse, ainda com aquela calma assustadora.
"Você está com ciúmes? De novo? Eu não posso nem conversar com uma pessoa importante para a minha carreira que você já faz esse show? Você não me apoia, Tiago. Nunca apoiou de verdade."
Era a mesma conversa de sempre. A mesma chantagem emocional. A culpa era sempre minha. Meu ciúme, minha falta de apoio, minha negatividade.
"Eu vou embora," eu disse, simplesmente querendo fugir daquela situação.
"Ah, claro! Vai embora e me deixa aqui sozinha! Estraga a minha noite, estraga a minha oportunidade! Você é um estraga-prazeres, Tiago! Sempre foi!"
A voz dela era alta o suficiente para que as pessoas mais próximas ouvissem. Mais olhares na minha direção. Eu me senti encurralado. Ir embora seria uma cena. Ficar seria uma tortura.
Naquele momento, eu escolhi a tortura. Mas algo dentro de mim, pela primeira vez, começou a mudar.
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